Plano Detalhe

02/08/2019 18:41

Missão no Mar Vermelho se sustenta por ser inspirado em acontecimentos reais

Fotos: Netflix

Missão no Mar Vermelho se sustenta por ser inspirado em acontecimentos reais

Por João Victor Wanderley

Com a programação dos cinemas de Natal pouco inspirada, decidi poupar o valor do ingresso e recorrer à Netflix. O filme da vez é Missão no Mar Vermelho (The Red Sea Diving Resort, 2019), lançado no último 31 de julho.

A trama se passa em 1979 e se inspira em acontecimentos reais. Com o Etiópia vivendo um violento regime ditatorial, uma equipe liderada por Ari (Chris Evans) se arrisca para salvar o máximo de vidas possível. Ao lado de Kabede (Michael Kenneth Williams), tentam atravessar os judeus até Jerusalém.

Escrito e dirigido por Gideon Raff, o roteiro recorre a estrutura de filmes de assalto, escolha que faz sentido pela obra tratar de uma extração e por ser de fácil empatia com o público em geral. Logo nos deparamos com lugares-comuns como um “golpe” que dá errado, a reformulação do plano, a fase de recrutamento da nova equipe e a ação de fato.

Porém, narrativamente a escolha não se sustenta pelas fragilidades do texto. Não fica claro porque o governo etíope está matando seus civis, apenas vemos soldados armados visitando aldeias e metralhando quem vem pela frente. Depois disso, o grosso da história se passa no Sudão – onde já temos um contexto melhor explicado.

(Chris Evans é quase o Capitão América noutra Guerra Civil / Imagem: Netflix)

As personagens são construídas com muita superficialidade, resumidas por suas características principais: Ari é o homem íntegro e tão altruísta que se torna inconsequente – além de parecer o melhor ser humano do mundo (Capitão América?) –; Sammy (Alessandro Nivola) é o cauteloso e sensato; Coronel Madibbo (Thabo Bopape) é o governante ganancioso; Coronel Ahmed (Chris Chalk), o cruel cumpridor das leis do governo; e por aí vai.

Faltam camadas que tirem as personagens do estereótipo e nos provoque reações genuínas sobre o que estamos vendo. E quando tenta oferecer isso, o roteiro peca ao entregar clichês batidos como a difícil relação que Ari tem com esposa e filha, já que está sempre ausente graças ao seu trabalho – a cena do desenho exemplifica bem o que estou dizendo.

Os clichês, aliás, interferem demais no impacto que a trama pode ter, já que denunciam o desenrolar de certos momentos. Sempre que a produção tenta criar um pouco de tensão ou drama, a previsibilidade nos impede de embarcar na proposta – como a travessia de um rio ou quando soldados ocupam o mesmo local onde refugiados estão escondidos.

A condução imprecisa de Gideon Raff ao tentar construir cenas assim também contribui para o ritmo morno. A história forte e relevante oferece momentos aflitivos, mas que não são aproveitados. Falta vigor, alguma originalidade, uma montagem mais enérgica e eficiente. O filme jamais emplaca, nos deixando dormentes ao que é visto.

(Missão no Mar Vermelho não ousa nem mesmo em sua estética / Imagem: Netflix)

A trilha sonora é cafona e parece mal aplicada. Muitas das vezes em que uma peça toca dá para se questionar se ela foi escolhida aleatoriamente ou se o desacordo entre som e imagem é proposital – embora não haja justificativa para tal. A montagem ainda traz algumas transições bem ruins, como se revelasse as imagens através de um efeito de cortina.

O recurso nada acrescenta à identidade visual, que já é bem genérica graças a fotografia. Roberto Schaefer parece apenas ter acertado a iluminação para deixar tudo visível e posicionado a câmera da maneira mais simples possível.

Outro problema está na necessidade mercadológica do projeto, que apela para alguns nomes conhecidos mesmo que isso cause estranhamento. A ação é liderada pelo Mossad, serviço secreto de Israel, que coloca Ari como o líder. Apesar de ter nascido no país, ele tem a fisionomia de Chris Evans, natural de Boston. Isso não se limita ao protagonista, já que o elenco conta com atores dos EUA, Ucrânia, Holanda e Inglaterra, todos em papel de destaque.

As atuações são apenas funcionais, sem nenhum grande trabalho. Destaco apena Evans, que traz uma tranquilidade que não combina com a situação, e Chris Chalk, que funciona bem como Ahmed ao evitar recorrer à histeria, se mantendo ameaçador quase sempre sem mudar o tom.

Missão no Mar Vermelho não é um desastre, apenas um filme sem coragem que se abraça aos clichês para não correr riscos de desagradar. Faz tudo de forma burocrática, como se seguisse ao pé da letra uma cartilha entregue pela Netflix para atingir o retorno comercial esperado. Apesar de errar, não chega a agredir e consegue nos manter curiosos.

Nota 6/10

01/08/2019 05:00

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw estreia; veja a programação em Natal!

Fotos: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw estreia; veja a programação em Natal!

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 1 a 7 de agosto:

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019): O policial Hobbs (Dwayne Johnson) e o ex-agente Shaw (Jason Statham), adversários na franquia Velozes & Furiosos, precisam unir forças para combater o anarquista Brixton (Idris Elba), um homem geneticamente aprimorado e em controle de uma arma biológica perigosa que pode alterar a humanidade para sempre. (14 anos, 135 minutos).

Jornada da Vida (Yao, 2018): Em seu vilarejo no norte do Senegal, Yao é um garoto de 13 anos de idade disposto a tudo para encontrar o seu herói: Seydou Tall, um famoso ator francês. Convidado a promover o seu novo livro em Dakar, Tall retorna ao país de origem pela primeira vez. Para realizar o seu sonho, o jovem Yao prepara uma fuga e atravessa 387 quilômetros sozinho até a capital. Comovido com este jovem, o ator decide fugir às obrigações e acompanhá-lo de volta à sua casa. (10 anos, 103 minutos).

As Rainhas da Torcida (Poms, 2019): Sem grandes pretensões para os seus últimos dias de vida, a solitária Martha (Diane Keaton) se muda para o retiro de Sun Springs em busca de tranquilidade. Na comunidade de aposentados, ela conhece sua nova vizinha Sheryl (Jacki Weaver), uma mulher muito agitada que faz questão de se manter sempre presente. Uma amizade surge e Sheryl incentiva Martha a retomar sua vida como líder de torcida e, quebrando todas as convenções, elas organizam um grupo de líderes de torcida com mulheres acima dos 60 anos. O que antes seria apenas um hobby, começa a tomar novas proporções quando elas decidem participar de um concurso. Elas convidam Chloe (Alisha Boe) para ajudá-las nas coreografias e, juntas, descobrem todo o potencial que ainda possuem. (12 anos, 91 minutos).

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley)

Continuam em cartaz:

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019): Ted Bundy foi um dos Serial killers mais perigosos dos anos 1970. Além assassino, era sequestrador, estuprador, ladrão e necrófilo. Sua namorada, Elizabeth Kloepfer, tornou-se uma de suas defensoras mais leais, recusando-se a acreditar na verdade. (16 anos, 108 minutos).

As Trapaceiras (The Hustle, 2019): Duas vigaristas, uma de baixo e a outra de alto nível, competem para conseguir extorquir a fortuna de um ingênuo prodígio da tecnologia. (12 anos, 93 minutos).

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

29/07/2019 05:00

Sessão Review #2

Fotos: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley

Sessão Review #2

Por João Victor Wanderley

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto ou revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos sobre as obras que ficaram de fora do blog.

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Vcitor Wanderley)

Galveston (2018)

Após sobreviver a uma armadilha de seu próprio patrão, Roy (Ben Foster) foge em busca de recomeço. Na fuga, tem a companhia de Rocky (Elle Fanning), uma jovem prostituta salva por ele na mesma emboscada.

O roteiro de Nic Pizzolatto, sob o pseudônimo de Jim Hammett, constrói seus protagonistas a partir do que é visto em cena, pouco sabemos sobre o passado de cada um. Mas é perceptível o quanto são parecidos no quesito sobrevivência.

Rocky vê em Roy a referência paternal e protetora que jamais tivera. Ele, e não se sabe exatamente o porquê, desenvolve genuína empatia por ela – a cena em que se recusa a transar com a garota é significativa.

Ben Foster e Elle Fanning têm excelente química juntos e compõem personalidades complexas. Foster consegue, apenas com olhares e gestos, mostrar o quanto Roy se importa com Rocky, que encontra em Fanning o equilíbrio entre uma mulher independente e uma garota perdida.

Galveston é um retrato amargo sobre escolhas, oportunidades e segundas chances, dono de uma crueza que envolve e agride.

Nota 9/10


Projeto Flórida (The Florida Project, 2017)

O filme acompanha o cotidiano do Magic Castle, um hotel de beira de estrada onde residem pessoas com grandes dificuldades financeiras. Tudo é mostrado pela ótica da pequena Moonee (Brooklynn Prince), filha de uma das moradoras.

Com tocante subjetividade, o diretor Sean Baker constrói um contraste entre o que é real e como ele é visto. As cores vibrantes e muito bem definidas que surgem na tela denunciam o despretensioso olhar infantil, mas as entrelinhas contemplam a realidade dura. O contraste social é reforçado pelo Magic Castle estar fisicamente próximo da Disney, embora distante em representatividade.

Moonee é um espelho de sua desorganizada mãe, que a ama verdadeiramente mesmo sendo um exemplo questionável. A mulher fala palavrões e é agressiva – características replicadas pela filha –, além de expor a menina a situações inadequadas.

Projeto Flórida é sensível, prende a atenção com eficiência e reflete a realidade com a dureza que lhe é peculiar. Um filme que foge de sua proposta apenas nos segundos finais, quando se permite uma liberdade temática que, para mim, destoa de todo o resto.

Nota 8,5/10

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Vcitor Wanderley)

La Casa de Papel – Parte 1 (2017)

Para exibição na Netflix, a primeira temporada teve seus 15 episódios reeditados e divididos em duas partes. Irei comentar sobre ambas da mesma forma.

Um grupo de ladrões invade a Casa da Moeda na Espanha para aplicar o maior roubo da história. A trama se divide entre o assalto e os flashbacks, que apresentam um pouco mais das personagens e esclarece o plano.

A série tem um início promissor, dinâmico e instigante. Porém, como os assaltantes precisam passar muito tempo no local, cai de qualidade ao tentar esticar o roteiro com arcos secundários. Alguns funcionam, como a relação de Denver (Jaime Lorente) e Mônica (Esther Acebo), outros não convencem, como as investidas de Arturito (Enrique Arce).

A produção sacrifica a lógica narrativa para criar momentos de tensão e drama, mas recorre a exageros – como falhas inaceitáveis da polícia – só para que o episódio tenha a gordura necessária. Os exageros também atingem os improvisos do Professor (Álvaro Morte) quando em momentos de risco extremo.

Os conflitos entre os assaltantes não são convincentes. Por diversas vezes, eles apontam as armas entre si como se fossem se matar, mas pouco depois tudo volta a ficar em total harmonia – como se ladrões irritados e armados confiassem suas vidas a outros ladrões irritados e armados, principalmente após ameaças trocadas.

Continua na Parte 2

Nota 7,5/10


La Casa de Papel – Parte 2 (2017)

O mais grave dos problemas está em como a série tenta enobrecer os assaltantes ao lhes conferir a estigma de Resistência. Cada um dos membros teve uma vida difícil, que justificaria um desejo de vingança. Porém, em nenhum momento fica claro que eles foram convocados com essa intenção.

Também não há indícios de que o dinheiro, por exemplo, será repartido com outras pessoas necessitadas. É como se os produtores quisessem dar aos protagonistas uma identificação ideológica que não se sustenta, quando, na verdade, são apenas assaltantes atuando em benefício próprio.

Essa segunda parte acentua ainda mais os problemas narrativos, entregando episódios mais desinteressantes.

As melhores atuações ficam por conta de Pedro Alonso, que faz de Berlim a figura mais controversa da obra, e Alba Flores, totalmente carismática como Nairóbi. Já Úrsula Corberó dá vida a uma Tóquio irritante e arrogante, a personagem mais chata da série.

As duas primeiras partes de La Casa de Papel são bons divertimentos, mas longe de serem tudo o que dizem.

Nota 6,5/10

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Vcitor Wanderley)

Demônio de Neon (The Neon Demon, 2016)

Jesse (Elle Fanning) se muda para Los Angeles almejando ser modelo. Com uma beleza atípica, começa a conquistar espaço. Sua rápida ascensão provoca inveja e ira de modelos mais experientes.

Dirigido por Nicolas Winding Refn, o filme tem um apuro estético impressionante. A fotografia aposta em cores fortes e brilhos intensos, além de manipular luz e sombras com precisão invejável. Os enquadramentos são espetaculares, muitas vezes criando frames que poderiam ser emoldurados.

Tais escolhas estéticas combinam com a crítica feita à indústria da beleza e como ela é cruel. Porém, a história rasa e mal desenvolvida não acompanha a proposta da produção. A trama descamba para o uso asqueroso da violência, gerando momentos de severo mau gosto.

Demônio de Neon extrapola nas alegorias, entregando consequências insanamente desproporcionais ao peso da história. Um estereótipo potencializado por uma reflexão que sugere uma profundidade jamais alcançada pela narrativa.

Nota 4/10


Os Cavaleiros do Zodíaco: Saint Seya – 1ª Temporada (Saint Seiya: Knights of the Zodiac, 2019)

Os seis episódios liberados até agora pela Netflix contemplam os acontecimentos da Guerra Galáctica. A animação é até bonitinha e respeita os traços originais, mas é pouco fluída, artificial na movimentação das personagens. A textura dos objetos e das roupas é bem transmitida, mas a pele parece de bonecos de plástico.

Além do visual, a narrativa se assemelha a de videogame. Com pouco desenvolvimento da história, cada episódio é como uma nova fase: após o término das lutas, os protagonistas seguem para a fase seguinte.

Dentre as atualizações, a mais relevante é a transformação de Shun em mulher. Achei coerente já que a personagem é protegida pela armadura de Andrômeda, princesa que, na mitologia, foi acorrentada e oferecida em sacrifício – além de acrescentar outra mulher na trama. É legal notar que a mudança atingiu a postura da personagem. A nova Shun é mais enérgica e forte, contrastando com a figura quase indefesa da versão anterior.

Por outro lado, a produção é atropelada. Os acontecimentos não têm o tempo necessário e a passagem de tempo é assinalada em falas, já que não notamos isso durante os episódios. As batalhas são mais breves, o que não funciona tanto – ao menos oferecem melhores disputas físicas e mais agilidade com os diferentes ângulos.

Os Cavaleiros do Zodíaco: Saint Seya tenta ser mais próximo dos mangás, modernizar a trama e se afastar da animação clássica. Acerta em diversos pontos e erra em outros tantos. Não dá para ser tão exigente só pela nostalgia, até porque a animação marcante para a minha geração não exatamente um exemplo de qualidade. A releitura parece promissora.

Nota 6,5/10

26/07/2019 20:24

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal traz bem-vinda ambiguidade narrativa

Fotos: Divulgação

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal traz bem-vinda ambiguidade narrativa

Por João Victor Wanderley

“Extremamente perversas, assustadoramente malvadas e vis”. Essas palavras proferidas pelo juiz Edward D. Cowart (John Malkovich) – e que dão o título original do filme – descrevem os crimes atribuídos a uma das figuras mais cruéis dos Estados Unidos. Entretanto, a fala é muito mais objetiva que o resto da obra, conduzida com provocante ambiguidade.

Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019) conta, a partir do ponto de vista de sua noiva, a história do Serial Killer que matou, ao menos, 30 mulheres na década de 1970.

Compreendendo 20 anos numa produção de quase duas horas, o roteiro de Michael Werwie é descompassado nas passagens de tempo: ora atropelado, ora cadenciado. Enquanto a segunda metade é quase toda dedicada ao julgamento mais importante para Ted (Zac Efron), os primeiros 55 minutos contemplam passagens que precisariam de mais calma da narrativa, como a construção de seu relacionamento com Elizabeth Kendall (Lily Collins), suas acusações, prisões e tentativas de fuga.

A faculdade de direito cursada pelo protagonista e seu romance com Liz são tratados com dolorosa superficialidade. O primeiro é definido através de uma única cena na biblioteca e de diálogos expositivos; já o outro é apresentado num clipe de “vídeos caseiros” que surge logo após o casal se conhecer. Falta peso em dois fatores relevantes da história – principalmente o segundo, que é a pedra fundamental da direção de Joe Berlinger.

(Zac Efron em um dos papéis mais interessantes de sua carreira / Imagem: Divulgação)

Adaptando o livro escrito pela própria Elizabeth Kendall, Berlinger constrói o filme a partir da visão de Liz e de como ela enxerga Ted, escolha que justifica a ausência de violência e permite que o diretor manipule o espectador com a ambiguidade de sua figura central. A Irresistível Face do Mal faz um esforço louvável para se distanciar dos demais exemplares de gênero, evitando explorar a brutalidade. Tudo é muito limpo e, principalmente, convidativo.

Poucos produtos tentam estabelecer humanidade num assassino real, o que é permitido aqui devido ao olhar incrédulo de uma pessoa apaixonada. Ted é quase sempre enquadrado sorridente, carinhoso, apaixonado e de gestos contidos, nunca matando. Apenas temos indicações de quando o crime acontecerá.

Berlinger utiliza a linguagem documental que tanto conhece para entregar o máximo de credibilidade possível. Aposta em câmeras de mão para estabelecer uma estética realista, reforçada quando “se apodera” das câmeras da imprensa para criar um contraponto, como se trouxesse material extra de outro cinegrafista.

Positivamente, pode-se destacar que a abordagem adotada é eficiente, capaz de criar dúvidas em quem não está familiarizado com os fatos. Eu, por exemplo, mesmo tendo algumas informações prévias (não muitas), me peguei questionando se havia a possibilidade de estar vendo uma falha da justiça. Consegui realmente me sentir como algumas das personagens, o que considero muito válido, já que a intenção narrativa foi bem executada.

Negativamente, dá pra dizer que a falta violência causa estranheza, já que estamos acompanhando um assassino impiedoso. Óbvio que o filme aparece como um complemento, um acréscimo aos materiais que já existem, não há necessidade de abrir mão do que o torna diferente de outras produções – além de ter coerência em ser como é –, mas fica a sensação de incompletude. É como se a biografia de Pelé não mostrar seus gols, ou como o recente Atentado ao Hotel Taj Mahal (2019) não mostrasse as mortes durante o atentado terrorista.

(A direção de arte aposta no amarelo durante parte do filme / Imagem: Divulgação)

Outra coisa que me incomoda é o filme utilizar alguns clichês como se desse piscadelas para o público que já conhece a história, como enfatizar Ted segurando uma faca na cozinha, mostra-lo observando a parceira muito concentrado antes de uma relação sexual ou fazer um cachorro latir para ele, indicando algo de errado. Tentativas de criar apreensão que não funcionam.

Zac Efron demonstra maturidade num papel um pouco diferente do resto de sua carreira. Ele ainda interpreta o cara bonito e carismático, que conquista as garotas com facilidade, mas há uma dualidade perversa, um cinismo acertado. Lily Collins faz o possível com o pouquíssimo material que tem. É um absurdo que o roteiro ofereça a uma personagem tão importante apenas a transição entre plenitude e devastação emocional.

Kaya Scodelario tem ainda menos para mostrar como Carole Ann Boone, vivendo outra mulher apaixonada. O resto do elenco é bem operacional:  Angela Sarafyan e Haley Joel Osment são apenas burocráticos como Joanna e Jerry; Jim Parsons se esforça como o promotor Larry Simpson, e até faz um bom trabalho vocal, mas ainda mantém os trejeitos de Sheldon Cooper da série The Big Bang Theory (2006 – 2019); já John Malkovich brilha mesmo em curta participação graças ao seu talento.

Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal é um interessante olhar alternativo sobre acontecimentos famosos. Traz um ponto de vista dúbio que provoca, mas que também limita uma exploração profunda das camadas presentes aqui. Entre tropeços e acertos, o saldo é positivo.

Nota 7/10

25/07/2019 05:00

Serial Killer, fantasia e comédia; veja as estreias nos cinemas de Natal

Fotos: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley

Serial Killer, fantasia e comédia; veja as estreias nos cinemas de Natal

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 25 a 31 de julho:

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019): Ted Bundy foi um dos Serial killers mais perigosos dos anos 1970. Além assassino, era sequestrador, estuprador, ladrão e necrófilo. Sua namorada, Elizabeth Kloepfer, tornou-se uma de suas defensoras mais leais, recusando-se a acreditar na verdade. (16 anos, 108 minutos).

O Mistério do Gato Chinês (Kûkai, 2017): Durante a dinastia Tang, na China, um gato misterioso começa a atacar altos membros da Corte Imperial, deixando uma série de mortos. Dois homens muito diferentes, o poeta chinês Bai Letian e o monge japonês Kûkai decidem unir forças para descobrir o que existe por trás do animal místico. (14 anos, 129 minutos).

As Trapaceiras (The Hustle, 2019): Duas vigaristas, uma de baixo e a outra de alto nível, competem para conseguir extorquir a fortuna de um ingênuo prodígio da tecnologia. (12 anos, 93 minutos).

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley)

Continuam em cartaz:

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Amor à Segunda Vista (Mon Inconnue, 2019): Do dia para a noite, Raphael (François Civil) acorda em um universo paralelo onde nunca conheceu Olivia (Joséphine Japy), o amor da sua vida. Agora ele precisa reconquistar a sua esposa, mesmo sendo um completo estranho para ela. Enquanto Raphael tenta entender exatamente o que aconteceu, corre contra o tempo para não perdê-la. (12 anos, 117 minutos).

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

23/07/2019 05:00

La Casa de Papel – Parte 3: bem-vinda, resistência!

Fotos: Divulgação

La Casa de Papel – Parte 3: bem-vinda, resistência!

Por João Victor Wanderley

Símbolo da resistência italiana ao Fascismo instaurado na Segunda Guerra Mundial, a canção Bella Ciao ressurgiu ao ser adotada pela série La Casa de Papel (2017–2019). Entretanto, apesar de tomar seus protagonistas por vozes da resistência, a produção espanhola não havia abordado o tema de maneira minimamente adequada. Ao menos não até agora...

Após Rio (Miguel Herrán) ser capturado, Tóquio (Úrsula Corberó) pede ajuda ao Professor (Álvaro Morte). A equipe se reúne para libertar do amigo, mas precisará aplicar um golpe ainda mais ousado: roubar a reserva de ouro guardada no Banco da Espanha.

A história se passa dois anos depois do assalto anterior. Dessa forma, o primeiro episódio é dedicado a mostrar o que aconteceu com o grupo e onde cada um está. A distância entre eles é uma medida de segurança, mas também serve à narrativa dando peso ao sacrifício de se reencontrarem em prol de um deles.

Com o investimento feito pela Netflix, La Casa de Papel ganhou em valor de produção. Cenários fechados agora dividem espaço com diversas tomadas externas – reparem as imponentes imagens aéreas de Madri e o número considerável de figurantes. Além disso, as cenas internacionais chamam atenção com locações no Caribe, Ásia e Itália, por exemplo.

Por outro lado, a intervenção da empresa implica em adequações para tornar a obra universal, como a maior presença do inglês – visto nos nomes dos episódios, no I Love You escrito num telefone e nas músicas utilizadas pela montagem (ao menos as ouvidas pelos protagonistas ainda são europeias).

(Rio e Tóquio em ilha paradisíaca do Caribe / Imagem: Divulgação)

Também se percebe referências a filmes de alcance mundial, seja em breves citações – Tóquio saindo do mar igual a Ursula Andress em 007 Contra o Satânico Dr. No (1962) – ou em elementos relevantes da narrativa – o cofre que parece ter saído de um Missão: Impossível.

Com mais recursos e uma trama enxuta, a direção consegue entregar momentos eficientes de tensão. A edição tem papel fundamental ao construir uma montagem paralela com sucesso, administrando os conflitos, interrompendo-os em momentos estratégicos e pulando para outro núcleo.

Os flashbacks entram instantes antes para explicar quais serão os próximos passos, nos deixando em pé de igualdade com os protagonistas. Sabemos o que eles sabem e nos surpreendemos com seus imprevistos

A série apresenta novas personagens interessantes, embora poucas tenham a atenção devida. Palermo (Rodrigo De La Serna) é o novo líder do grupo e uma versão potencializada de Berlim (Pedro Alonso), trazendo maiores misoginia, agressividade e sociopatia. Porém, com o plano em prática, acaba perdendo espaço quando o roteiro decide dar atenção aos já conhecidos.

Do lado da polícia, o grande destaque fica por conta de Alicia Sierra (Najwa Nimri). Ardilosa, ousada e deliciosamente insana, a inspetora pensa à frente e se mostra uma adversária à altura para o Professor e Raquel Murillo (Itziar Ituño). Impressiona a atriz transforma uma mulher grávida numa figura tão ameaçadora. Normalmente utilizada em filmes e séries como limitador ou um ponto de vulnerabilidade, a gravidez faz de Alicia alguém ainda mais temível, quebrando qualquer ideia de docilidade que uma mãe pode transparecer.

(Palermo e Alicia são boas novidades na série / Imagens: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley)

Algumas mudanças bem-vindas alteram a dinâmica dentre os protagonistas. O Professor já não tem tanto controle – seja pela adversária ou pela urgência em pôr o plano em prática –; Nairóbi ganha mais espaço – e Alba Flores é uma atriz muito carismática –; Denver (Jaime Lorente), Mônica (Esther Acebo), Helsinque (Darko Peric ) e Raquel estão operacionais; Rio é pouco usado; e Tóquio é inteligentemente contida pelos roteiristas.

Úrsula Corberó confunde constantemente imposição com histeria, berrando ou reagindo feito mimada. Corresponde bem quando é agressiva, mas é terrível na tentativa de ser sexy. A atriz usa os mesmos trejeitos para transmitir sensualidade e inquietude: baixa um pouco a cabeça e olha para cima.

Sobre os roteiros, é preciso parabenizar a maneira inteligente de reaproveitar Berlim. Com a ideia do roubo ser concebida por ele anos antes, sua presença em diversos flashbacks soa coerente. Pedro Alonso é um ator tão competente e carismático que consegue transformar um homem asqueroso numa figura empática. Ambiguidade maravilhosa que vem da atuação charmosa.

Mas, de todos os acertos, me agrada muito o peso dado à ideia de resistência. Anteriormente, o “combate ao Sistema” parecia um discurso raso e mal elaborado, uma maneira de manipular a audiência como se os produtores tivessem receio de fazer o público criar identificação com figuras moralmente questionáveis.

Embora o Professor tenha dito o quanto o Estado enriquece os bancos e a população vive com dificuldade, nenhuma das ações vistas em tela corroborou seu discurso. Jamais foi mostrado uma intenção de partilha, de ajudar outros necessitados. E se a vida de cada um dos oito integrantes é motivação suficiente para justificar a criminalidade, não vemos isso ser determinante para a ideologia.

(O Professor e a icônica máscara de Dali, símbolos da resistência em La Casa de Papel (Imagem: Captura de Tela)

Em nenhum instante pareceu que o grupo fora recrutado por suas vidas sofridas, apenas por seus talentos. Logo, La Casa de Papel tentou vender uma retidão ideológica que jamais se sustentou. Não existiu vingança ao que o Sistema causou – sequer sabemos o que ele fez por merecer –, tão pouco um autêntico Robin Hood, apenas um filho que quer vingar o pai morto – que era ladrão – liderando outros criminosos em benefício próprio.

Porém, nessa parte 3, isso é mudado satisfatoriamente. Com Rio preso e sendo torturado, a resistência se faz quando a equipe se recusa a aceitar tamanha barbaridade; quando usa o dinheiro roubado do próprio Sistema para combatê-lo; quando dá parte da grana à sociedade – seja soltando 140 milhões de euros no ar, para camuflar a chegada ao alvo, ou entregando em mãos aos que ajudaram o plano de alguma maneira.

E, dessa vez, a relação entre população e mascarados é palpável. Diversas pessoas protestando diante do Banco da Espanha e confrontando as forças armadas. Também somos apresentados a reações de pessoas em todo o mundo, sensibilizadas pela representação do rouba à Casa da Moeda.

 Além disso, o discurso de empoderamento feminino é ainda mais firme, resistência ao citado patriarcado. Embora eu não goste de Tóquio, não dá para negar a força de sua representatividade. Uma mulher completamente livre e autossuficiente, que não baixa a cabeça para ninguém. Tal qual Nairóbi, que eleva a voz sempre que ouve algum absurdo machista, mostrando intolerância aos intolerantes.

La Casa de Papel – Parte 3 se aproveita do menor número de capítulos e entrega um produto mais eficiente. Levanta de fato a bandeira da resistência com maturidade e funciona como um entretenimento instigante. Facilmente, para mim, a melhor das partes até o momento.

Nota 8,5/10

OBS: Segue a interpretação de Pedro Alonso da música de abertura da série, presente nos créditos finais do último episódio.

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