Plano Detalhe

06/09/2019 21:12

Yesterday: cinema também é deleite

Fotos: Divulgação

Yesterday: cinema também é deleite

Por João Victor Wanderley

O cinema é versátil, capaz de usar seus recursos tanto para bater quanto para afagar. Se no início da semana falei sobre Bacurau (2019) e sua habilidade em fazer refletir – nos mostrando o que é viver em comunidade –, hoje trago minhas impressões sobre Yesterday (2019), bem-vinda dose da positividade necessária para nossa individualidade.

Durante um inexplicável apagão que atingiu todo o mundo, o músico fracassado Jack Malik (Himesh Patel) sofre um acidente e perde a consciência. Ao acordar, descobre que Os Beatles nunca existiram e que apenas ele sabe as músicas da banda. Após o choque inicial, Jack usa seu conhecimento e se torna “o maior compositor de todos os tempos”.

Escrito por Richard Curtis, a partir de uma história sua e de Jack Barth, o roteiro carrega duas intenções narrativas muito claras, e a primeira é a de construir uma jornada de superação. Jack divide seu tempo entre o emprego no comércio e a frustrada careira de cantor e compositor, empresariada pela amiga de infância – e visivelmente apaixonada – Ellie (Lily James).

A jornada é permeada por clichês como o orgulho ferido, a vontade de desistir, a chegada do sucesso, e a ascensão. Todo os passos da trama são facilmente telegrafados, o que tira qualquer surpresa em relação às reviravoltas propostas e o rumo escolhido. Porém, o que torna tudo tão interessante aqui é o talento de Curtis para extrair humor cotidiano até em situações atípicas, como mostram suas obras Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) e Questão de Tempo (2013).

(Jack emociona ao "compor" Yesterday / Imagem: Divulgação)

Só o fato de uma das maiores bandas ter sumido gera situações hilárias como as reações de quem ouve os nomes John, Paul, George e Ringo; o descaso com algumas das músicas mais icônicas – a cena de Let It Be é ótima –; a interferência artística dos que tentam “melhorar as letras”; e, principalmente, as pesquisas feitas por Jack sempre que descobre algo que deixou de existir – sim, não foram só Os Beatles!

Um acerto da produção está na a versão que Ed Sheeran interpreta dele mesmo. A escolha ancora a trama numa realidade mais crível, com um artista da atualidade encantado pelas “novas canções”, e cria comicidade nas interações no cotidiano dos anônimos. Outro ponto que precisa ser citado é como o filme aborda o incômodo sentido pelo protagonista.

Embora alcance o sucesso desejado, a ciência de ser através do trabalho de terceiros o perturba, como visto em suas reações ao ser chamado de gênio, como se incomoda com as palmas exageradas em determinada reunião e quando canta Help! como se suplicasse ajuda.

A segunda intenção narrativa é a de prestar homenagem aos Beatles. O filme não tenta usar as músicas como fez Across The Universe (2007), mas reverenciá-las através nos pequenos trechos tocados, na trilha sonora instrumental e nos nomes de personagens.

(A idolatria aos Beatles é preservada graças ao esforço de Jack / Imagem: Divulgação)

Há a preocupação em mostrar o impacto das letras, suas repercussões e aceitações pelo público. É como se a produção cinematográfica fizesse questão de reforçar a importância da banda, para que ela não “se apague” em tempos de cultura tão descartável, cujas obras trazem curtos prazos de validade.

Não à toa, o esforço do protagonista em manter as letras vivas é significativo. O cantor faz o que pode para lembrar de diversas músicas e eternizá-las – o que gera boas piadas com ele “finalizando” as canções incompletas. Nessa onda de homenagens, há uma cena belíssima entre Jack e outra personagem. O momento deve gerar um calorzinho especial no coração dos fãs.

A relação entre Jack e Ellie é adorável. Muito se deve à excelente química entre Himesh Patel e Lily James, que trazem carisma absurdo para a tela. Ele é completamente natural, tem ótimo timing cômico e canta muito bem. Ela exala simpatia e carinho tão grandes que é impossível não se encantar.

Aliás, a interação de ambos representa a importância das pequenas conquistas da vida, que as vezes se perdem ao sonharmos alto. E Ellie é a perfeita encarnação daquelas pessoas que entram em nossas vidas e acreditam na gente mais que nós mesmos – talvez por ter alguém assim do meu lado, eu tenha me encantado tanto com a personagem! O resto do elenco está afiado, mesmo que em participações menores. Destaque para Sanjeev Bhaskar, o pai de Jack, e Joel Fry, que transforma Rocky num ótimo coadjuvante.

(Lilly James e Himesh Patel / Imagem: Divulgação)

Comandando tudo, o sempre bom diretor Danny Boyle consegue arrancar o máximo possível de uma história tão leve. Sua câmera investe em movimentos circulares, para dar dinamismo a certos diálogos, e é entusiasmante nos shows, elevando a atmosfera ao nos contagiar com a energia do momento.

A montagem de Jon Harris é eficiente na criação do ritmo, na estética e ao elaborar elipses temporais. A divisão de tela proposta no show em Moscou liga a apresentação diretamente à repercussão nas redes sociais de forma simples e elegante. Harris é particularmente feliz ao montar as cenas em que o protagonista faz pesquisas na internet, dando vigor à piada recorrente, e ao representar a dificuldade de Jack ao lembrar das letras – a sequência de Eleanor Rigby é legal demais.

Já a fotografia de Christopher Ross aposta em cores quentes para dar tom agradável à estética. Além disso, traz enquadramentos belíssimos como quando toca a canção-título do filme. Outro grande momento é quando a dupla central é enquadrada pela luz emitida pela TV do quarto.

Unicamente destinado a reverenciar uma das maiores bandas da história, e de oferecer uma experiência adorável, Yesterday é um filme extremamente leve e faz com que nos sintamos felizes. É previsível enquanto obra cinematográfica, mas acerta nossos corações em cheio com suas intenções. Um trabalho de fãs para fãs, e para todos que procuram cinema para a alma.

Nota 8/10

05/09/2019 05:00

O palhaço Pennywise volta a assombrar os cinemas, veja a programação

Fotos: Divulgação

O palhaço Pennywise volta a assombrar os cinemas, veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 5 a 11 de setembro:

IT - Capítulo 2 (IT - Chapter Two, 2019): Vinte e sete anos após os eventos que chocaram o Clube dos Perdedores, os amigos realizam uma reunião. No entanto, o reencontro se torna uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise, o palhaço, retorna. (16 Anos, 169 minutos).

O Corpo é Nosso! (2019): Documentário sobre a trajetória da liberação do corpo da mulher brasileira, ressaltando as diferenças desta trajetória entre as mulheres brancas e negras. O filme apresenta entrevistas, imagens de arquivo que ilustram alguns dos fatores que contribuíram para esta liberação no Brasil - como a música, a dança, a moda e a pílula anticoncepcional - e propõe uma discussão sobre o feminismo através da desconstrução do masculino. (14 anos, 85 minutos).

Corgi - Top Dog (The Queen´s Corgi, 2019): A Rainha Elizabeth é apaixonada por cães da raça Corgi e, dentre os que vivem no Palácio, Rex é o seu queridinho. Acostumado com as mordomias da realeza, tudo muda quando ele cai na armadilha de um outro cachorro que quer tomar o seu lugar. Preso no canil da cidade, ele agora vai precisar de toda a ajuda que conseguir para voltar ao Palácio e retomar seu lugar como o favorito da Rainha. (Livre, 92 minutos).

K-12 (2019): Palco Cinemark apresenta K-12, um filme dirigido e roteirizado por Melanie Martinez com as músicas de seu mais novo álbum. (14 anos, 90 minutos).

Continuam em cartaz:

Bacurau (2019): Num futuro recente, um povoado do sertão de Pernambuco chamado Bacurau some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável? (16 Anos, 131 minutos).

Yesterday (2019): Após sofrer um acidente, um cantor-compositor acorda numa estranha realidade onde é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, o protagonista se torna um sucesso gigante, mas a fama tem seu preço. (12 Anos, 116 minutos).

Anna – O Perigo Tem Nome (Anna, 2019): Por trás da beleza marcante de Anna Poliatova, há um segredo que irá expor sua indestrutível força e habilidade para se tornar uma das assassinas mais temidas do mundo. Uma eletrizante viagem repleta de energia, reviravoltas surpreendentes e ação de tirar o fôlego. (16 Anos, 119 minutos).

Retrato do Amor (Photograph, 2019): Pressionado por sua família a se casar o mais rápido possível, um determinado fotógrafo de Mumbai convence uma tímida estranha a fingir ser a sua mulher durante algum tempo. Apesar da relutância, ela aceita a proposta e os dois desenvolvem um laço totalmente inesperado que os muda de maneiras antes inimagináveis. (12 Anos, 110 minutos).

O Amor Dá Trabalho (2019): Malandro e aproveitador, Ancelmo (Leandro Hassum) morre e acaba ficando preso no limbo. Para garantir seu lugar no céu, ele precisa praticar uma boa ação e bancar o cupido, pois recebe a missão de unir um homem (Bruno Garcia) e uma mulher (Flávia Alessandra) com personalidades muito divergentes. (12 Anos, 100 minutos).

O Filho do Homem (2019): Maria recebe a visita do Anjo Gabriel, que anuncia que ela dará à luz um filho que se chamará Jesus. Jesus completa 33 anos e inicia sua pregação por toda Judéia e arredores, anunciando o reino dos céus e se auto declarando o Filho de Deus. (14 Anos, 119 minutos).

Brinquedo Assassino (Child´s Play, 2019): No dia do seu aniversário, Andy (Gabriel Bateman) ganha de presente de sua mãe, Karen (Audrey Plaza), o boneco mais aguardado dos últimos tempos. Altamente tecnológico, ele pode se conectar a qualquer dispositivo inteligente da Kaslan, empresa responsável por sua fabricação. No entanto, quando crimes estranhos começam a acontecer, eles passam a suspeitar que o brinquedo pode não ser tão inofensivo quanto parece. (16 anos, 90 minutos).

Era Uma Vez... Em Hollywood (Once Upon a Time... In Hollywood, 2019): O filme revisita a Los Angeles de 1969, que estava em transformação, através da história do astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que traçam um caminho em meio à indústria que eles nem mesmo reconhecem mais. O nono trabalho de Quentin Tarantino é um tributo aos momentos finais da era de ouro de Hollywood. (16 anos, 161 minutos).

Nada a Perder – Parte 2 (2019): Esse é o segundo e último filme baseado na série de livros escrita pelo jornalista Douglas Tavolaro sobre a vida de Edir Macedo. Enquanto o primeiro mostrava a busca espiritual de Macedo, desde a infância até o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus, essa continuação foca no crescimento da Universal pelo mundo e principalmente, nos casos mais polêmicos envolvendo denúncias e ataques ao bispo e à igreja que ele ajudou a fundar. (12 anos, 120 minutos).

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019): O policial Hobbs (Dwayne Johnson) e o ex-agente Shaw (Jason Statham), adversários na franquia Velozes & Furiosos, precisam unir forças para combater o anarquista Brixton (Idris Elba), um homem geneticamente aprimorado e em controle de uma arma biológica perigosa que pode alterar a humanidade para sempre. (14 anos, 135 minutos).

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

02/09/2019 12:04

Bacurau é Resistência!

Fotos: Divulgação

Bacurau é Resistência!

Texto: João Victor Wanderley

As divergências ideológicas do Brasil se intensificam desde que o conservadorismo se traduziu na eleição do candidato que o personifica. Disposta a sobrepor seus dogmas a tudo o que julga errado, essa onda conservadora se espalha por setores como cultura, arte e educação e os ressignifica sob o prisma tacanho do “se não está de acordo com o que penso, não presta”.

Nesse contexto, resistir tem sido necessário para preservar a voz ganha através da arte e a evolução cultural, reconhecendo nosso passado em busca de um futuro cada vez mais adequado. E resistência também se faz com cinema, “com uma câmera na mão e um punhado de ideias na cabeça”, como mostra o brilhante Bacurau (2019).

Num futuro próximo, a fictícia cidade que dá nome ao filme vive pacata no interior de Pernambuco. Após literalmente desaparecer dos mapas, e de uma série de assassinatos, Bacurau precisa se proteger sem saber exatamente do quê.

A simples existência da obra já representa resistência ao pensamento retrogrado do presidente Jair Bolsonaro, que demonstrou interesse em fechar a Ancine – Agência Nacional do Cinema –, seja pelas temáticas que não o agradam, por não ter controle sobre os conteúdos ou por não ser a favor de pôr dinheiro público nos projetos.

Acontece que o papel da Ancine não é bancar filme algum, apenas retribuir com incentivos fiscais aqueles que fomentam o setor. Da mesma forma que empresas internacionais beneficiadas por estarem aqui, o cinema local é capaz de movimentar o mercado, gerando emprego para diversos profissionais como eletricistas, figurinistas, marceneiros, motoristas, cozinheiros, etc.

Além disso, há o fortalecimento da nossa produção. Se contrapondo a cidade da narrativa, Bacurau recoloca o Brasil no mapa ao vencer o Grande Prêmio do Júri em Cannes, um dos festivais mais respeitados do mundo.

Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a obra representa um marco no audiovisual brasileiro ao fugir do padrão produzido aqui. Criando uma positiva loucura estilística, conduzida com invejável precisão, transita entre gêneros com fluidez e eficiência narrativa.

O Drama surge quando somos jogados no cotidiano do local e apresentados aos moradores. Compreendemos o estilo de vida, suas precariedades e o senso de comunidade. Passamos a nos importar com aquelas pessoas quando tudo isso sofre interferência dos novos acontecimentos.

O primeiro ato é destinado a nos ambientar, o que é feito com uma bem-vinda direção quase documental. Compreendemos a lógica para, depois, a vermos ser distorcida. Visando entregar a melhor experiência possível, Kleber e Juliano são felizes ao investir em atores não profissionais e em moradores das locações potiguares onde o filme foi rodado, como Parelhas. Isso traz uma realidade quase palpável.

 A passagem de tempo demarcada por cenas do Sertão, o nascer e o pôr-do-sol, os conflitos armados e a violência gráfica dão o tom de Western. Humor e Suspense também aparecem, com o primeiro recheado da típica presença de espírito nordestina e o segundo se aproveitando de momentos de tensão que remetem a Halloween (1978) quando a ameaça se põe à espreita – as crianças brincando com a lanterna à noite ilustram bem isso.

Por fim, a Ficção Científica se vê na tecnologia avançada e na trama se passada num futuro próxima e repleta de reflexões sobre a nossa atualidade. Esteticamente ainda temos influência da saga Star Wars, vista nos efeitos de transição, com as imagens deslizando para dentro da tela, e na abertura, quando a câmera foca o espaço e, num movimento de câmera, revela a Terra – curiosamente redonda...

Apesar de conter interessantes figuras complexas como Domingas (Sônia Braga), Lunga (Silvério Pereira) e Pacote (Thomas Aquino), o roteiro não personifica o protagonismo, entregando-o à Bacuaru. Ela move o enredo e é a partir de seu ponto de vista que montamos o quebra-cabeças do grande mistério em torno da cidade. Aliás, Kleber e Juliano se arriscam demais ao manter seus espectadores no escuro por tanto tempo.

Vemos uma sucessão de estranhezas aparecendo cautelosamente, sem qualquer ligação visível. Embora a compreensão do todo seja satisfatória, até lá, existe a chance dos menos pacientes se perderem num “aparente enredo sem sentido”. Assim, é gratificante perceber a confiança que os cineastas têm no material e como este prende nossa atenção sem parecer cansativo.

Mas o ápice do roteiro está nas alegorias que dão tantas camadas à obra, ficando difícil não retornarmos a esta – mesmo mentalmente – dias após a termos assistido. Como o mistério é importante na construção da narrativa e preciso comentar sobre algumas dessas alegorias, sugiro a quem ainda não viu o filme evitar os spoilers. Basta pular diretamente para o último parágrafo.


O roteiro constrói sátiras eficientes de diversos setores. Mesmo potencializadas, todas as críticas partem de algo muito real, como o descaso dos políticos com a sociedade. A figura do prefeito Tony Jr (Thardelly Lima) reflete isso muito bem. Interessado apenas na reeleição, Tony transforma em grande gesto a doação de livros antigos e descuidados, caixões, e comidas e remédios vencidos.

É interessante reparar que os livros doados são levados na caçamba de um caminhão e despejados no chão, como se fossem lixo. Um reflexo da maneira como se trata a educação por aqui

Sua participação no turismo de extermínio demonstra as motivações egoístas que movem nossos representantes, bem como está de acordo com a abertura para que estrangeiros explorem aquilo que é genuinamente nosso. Chega a ser irônico que os caixões entregues pelo prefeito, na verdade, simbolizem as mortes resultantes da falta de atitude do poder público.

Sobre os turistas, é curioso ver como se relacionam com as rupturas raciais e econômicas do Brasil. Os motoqueiros interpretados por Karine Teles e Antônio Saboia tentam se aproximar do grupo de estrangeiros alegando serem do sul do país, região mais rica e etnicamente próxima da Europa, mas logo são descartados por não serem “realmente brancos”, vide que ambos têm traços de miscigenação. Esse arco mostra o quão patético é o preconceito num país com tamanha diversidade, bem como a banalização da cultura da violência que vem se massificando.

Em determinado diálogo, quando uma pessoa pergunta:

- Quem nasce em Bacurau é o quê?

Uma criança prontamente responde:

- Gente.

Embora a cena tenha um cunho humorístico evidente, ela sintetiza algo muito mais agravante: a súplica pela vida! É como se a criança compreendesse o que se passava ali e gritasse: não façam isso conosco, somos humanos!

As ações fracassadas da polícia e a truculência das milícias têm vitimado cada vez mais inocentes e banalizado suas mortes, como se algumas vidas valessem menos. Logo, não é de espantar que a TV que surge ligada em determinado momento anuncie execuções coletivas em São Paulo.

Porém, diante de todas essas dificuldades, é o conhecimento que preserva Bacurau dos ataques sofridos. Se as duas escolas sucateadas reforçam o estado da educação, o professor Plínio (Wilson Rabelo) se mostra um dos pilares da cidade ao fazer o possível para preservar o conhecimento, seja ao manter uma biblioteca em casa ou se esforçar para ensinar com o que tem.

Outro ponto essencial é o museu, que serve, literalmente, de munição à população. Ele ainda nos mostra que lutar faz parte daquela cidade, como sugerem os registros da época do cangaço e também a vitrine com vestimentas e comunicador similares aos usados pelos turistas, evidenciando ataques anteriores. É extremamente simbólico que a sobrevivência da comunidade passe diretamente pelo museu, com o passado munindo o presente, e pela escola, que abriga e preserva o futuro da cidade.


Bacurau não é espetacular “apenas” por ser original ou cinema de altíssima qualidade, mas por ser a súplica necessária em tempos questionáveis e moralmente ambíguos. É fôlego, respiro durante um extremismo sufocante. É reflexão sobre o que pode dar errado se continuarmos seguindo essa estrada esburacada pelo conservadorismo agressivo, cego e preconceituoso. É cinema com estética comercial, técnica artística e alma de guerrilha. É resistência até sua última gota de sangue!

Nota 10/10

29/08/2019 05:00

Bacurau estreia nos cinemas de Natal; veja a programação

Fotos: Divulgação

Bacurau estreia nos cinemas de Natal; veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 29 de agosto a 4 de setembro:

Bacurau (2019): Num futuro recente, um povoado do sertão de Pernambuco chamado Bacurau some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável? (16 Anos, 131 minutos).

Yesterday (2019): Após sofrer um acidente, um cantor-compositor acorda numa estranha realidade onde é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, o protagonista se torna um sucesso gigante, mas a fama tem seu preço. (12 Anos, 116 minutos).

Anna – O Perigo Tem Nome (Anna, 2019): Por trás da beleza marcante de Anna Poliatova, há um segredo que irá expor sua indestrutível força e habilidade para se tornar uma das assassinas mais temidas do mundo. Uma eletrizante viagem repleta de energia, reviravoltas surpreendentes e ação de tirar o fôlego. (16 Anos, 119 minutos).

Retrato do Amor (Photograph, 2019): Pressionado por sua família a se casar o mais rápido possível, um determinado fotógrafo de Mumbai convence uma tímida estranha a fingir ser a sua mulher durante algum tempo. Apesar da relutância, ela aceita a proposta e os dois desenvolvem um laço totalmente inesperado que os muda de maneiras antes inimagináveis. (12 Anos, 110 minutos).

Minha Lua de Mel Polonesa (Lune de Miel, 2018): Anna e Adam, um jovem casal de Paris com origens judaicas polonesas, partem pela primeira vez rumo à Polônia. Eles foram convidados para comemorar os 75 anos da destruição da comunidade de nascimento do avô de Adam. Enquanto ele parece pouco animado com a viagem, Anna está ansiosa para descobrir o país, que também é a terra natal de sua avó. Finalmente, lá vão eles em busca de suas origens em uma jornada cheia de surpresas, durante a qual não encontrarão exatamente o que procuram. (12 Anos, 88 minutos).

O Amor Dá Trabalho (2019): Malandro e aproveitador, Ancelmo (Leandro Hassum) morre e acaba ficando preso no limbo. Para garantir seu lugar no céu, ele precisa praticar uma boa ação e bancar o cupido, pois recebe a missão de unir um homem (Bruno Garcia) e uma mulher (Flávia Alessandra) com personalidades muito divergentes. (12 Anos, 100 minutos).

O Filho do Homem (2019): Maria recebe a visita do Anjo Gabriel, que anuncia que ela dará à luz um filho que se chamará Jesus. Jesus completa 33 anos e inicia sua pregação por toda Judéia e arredores, anunciando o reino dos céus e se auto declarando o Filho de Deus. (14 Anos, 119 minutos).

The Cure: Live in Hyde Park (2019): Palco Cinemark apresenta o show da banda The Cure, gravado no Hyde Park em Londres. (114 minutos).

(Imagens: Divulgação)

Continuam em cartaz:

Brinquedo Assassino (Child´s Play, 2019): No dia do seu aniversário, Andy (Gabriel Bateman) ganha de presente de sua mãe, Karen (Audrey Plaza), o boneco mais aguardado dos últimos tempos. Altamente tecnológico, ele pode se conectar a qualquer dispositivo inteligente da Kaslan, empresa responsável por sua fabricação. No entanto, quando crimes estranhos começam a acontecer, eles passam a suspeitar que o brinquedo pode não ser tão inofensivo quanto parece. (16 anos, 90 minutos).

Era Uma Vez... Em Hollywood (Once Upon a Time... In Hollywood, 2019): O filme revisita a Los Angeles de 1969, que estava em transformação, através da história do astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que traçam um caminho em meio à indústria que eles nem mesmo reconhecem mais. O nono trabalho de Quentin Tarantino é um tributo aos momentos finais da era de ouro de Hollywood. (16 anos, 161 minutos).

Nada a Perder – Parte 2 (2019): Esse é o segundo e último filme baseado na série de livros escrita pelo jornalista Douglas Tavolaro sobre a vida de Edir Macedo. Enquanto o primeiro mostrava a busca espiritual de Macedo, desde a infância até o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus, essa continuação foca no crescimento da Universal pelo mundo e principalmente, nos casos mais polêmicos envolvendo denúncias e ataques ao bispo e à igreja que ele ajudou a fundar. (12 anos, 120 minutos).

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019): O policial Hobbs (Dwayne Johnson) e o ex-agente Shaw (Jason Statham), adversários na franquia Velozes & Furiosos, precisam unir forças para combater o anarquista Brixton (Idris Elba), um homem geneticamente aprimorado e em controle de uma arma biológica perigosa que pode alterar a humanidade para sempre. (14 anos, 135 minutos).

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

26/08/2019 05:00

Sessão Review #4

Fotos: Divulgação

Sessão Review #4

Texto: João Victor Wanderley

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto ou revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos das obras que ficaram de fora do blog.

Perfeitos Desconhecidos (Perfectos Desconocidos, 2017)

Durante um jantar, três casais e um solteiro – todos amigos – decidem pôr seus celulares na mesa e compartilhar cada mensagem ou ligação que chegarem. É com essa proposta simples que o espanhol Perfeitos Desconhecidos brinca sobre quem somos e quem aparentamos ser.

Com um elenco afiado e um texto ágil, o filme cria humor ocasional, momentos de drama e até suspense. O roteiro costura situações diferentes através da ótima construção do relacionamento entre as personagens.

A narrativa conta com uma estrutura dividida por esquetes, ficando evidente onde começam e terminam. Essa estrutura funciona bem aqui, já que os diálogos triviais e as atuações cheias de química fazem a trama evoluir. Ao mesmo tempo, dão a sensação de que as personagens têm um relacionamento sólido e duradouro, basta ver o grau de intimidade denunciado em certos comentários.

A trama demora a pegar, quase se tornando cansativa. Mas quando o jogo começa, temos até reflexão da sociedade atual. Com tanta tecnologia, as pessoas estão cada vez mais isoladas em seus “mundos”. Angustias, segredos e medos mostram – quase sempre em tom cômico – que as coisas realmente importantes em nossas vidas estão cada vez mais guardadas, como se perdêssemos a capacidade de compartilhar e nos conectar com os mais próximos.

Adaptado de um filme italiano homônimo, Perfeitos Desconhecidos não é um primor narrativo. Tem uma pitada de misticismo que pode soar estranha e força a barra ao construir tantas situações embaraçosas que acontecem quase simultaneamente. Mesmo assim, é interessante, prende a atenção, consegue fazer uma reflexão pertinente e conta com um humor que funciona muito ou pouco, de acordo com sua receptividade. Um bom entretenimento.

Nota 7/10


Todos Já Sabem (Todos Lo Saben, 2018)

Vivendo na Argentina com seu marido Alejandro (Ricardo Darín), Laura (Penélope Cruz) retorna à Espanha com os filhos Irene e Diego para o casamento de sua irmã. Durante a festa, sua filha é sequestrada.

Escrito e dirigido por Asghar Farhadi, o filme lida com relações pessoais em diferentes camadas ao mesmo tempo que explora as reações humanas durante o desespero. Nesse sentido, a ambientação construída no início é essencial. O primeiro ato é alegre, convidativo e agradável. Familiares se reencontrando, abraços carinhosos, felicidade e interação. É como se fizéssemos parte da comemoração.

A partir do sequestro, feridas são postas para fora. Na camada amorosa, um antigo relacionamento entre Laura e Paco (Javier Bardem) volta à tona numa situação amarga para ambos.

Na familiar, a relação entre os parentes e amigos próximos se torna complexa quando um resgate é solicitado e não se tem o dinheiro necessário. O desespero faz com que mágoas antigas em torno de uma posse de terra agravem ainda mais o clima de tensão. Por fim, existe o ego ferido da família burguesa que hoje divide espaço com os descendentes de seus antigos empregados.

O trio protagonista entrega atuações incríveis. Com menos tempo de tela e pouco material, Darín usa seu talento para construir empatia; Cruz mostra bem o desespero da mãe disposta a qualquer coisa para ter a filha de volta; e Bardem tem o melhor desempenho, dono de um arco dramático melhor estabelecido.

Todos Já Sabem é daqueles filmes que provocam a audiência ao levar suas personagens ao limite e despi-las das personas que criam perante a sociedade. Faz ótima transição entre a convivência ideal e o caos de leva qualquer um à ruína, mesmo que não seja forte o suficiente para chocar ou incomodar profundamente.

Nota 8/10

Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World, 2017)

Adaptado do livro de John Pearson, conta uma passagem verídica em 1973, quando John Paul Getty (Christopher Plummer) – então homem mais rico do mundo – se recusou a pagar o resgate de seu neto sequestrado.

Após o afastamento de Kevin Spacey pelas acusações de assédio sexual, Plummer foi contratado – com o filme já pronto – para refazer todas as cenas de Getty. As refilmagens ficaram orgânicas, sem parecer que foram alteradas.

Plummer entrega ótima atuação ao compor uma figura gananciosa, incapaz de dar um passo sem saber quanto lucrará, mas que não é unidimensional. Existe nela um amor genuíno pelo legado que protege e a ideia de que seu desprezo pelos próximos é, na verdade, demonstração de afeto coerente com sua personalidade. Isso não o torna admirável, mas curioso.

Michelle Williams está ótima como a mãe do sequestrado, criando firmeza e fugindo dos clichês de tramas similares. Mesmo assim, o filme jamais emplaca. Fica a sensação, diversas vezes, de que quase chega a surpreender, mas falta fôlego. O ritmo não é lento, mas também não envolve; a produção não entrega a tensão necessária; a direção de arte é eficiente, mas não o suficiente para elevar a obra para outro patamar.

Todo o Dinheiro do Mundo é bem feito e tem boas atuações, mas jamais chega a encantar ou sair do lugar comum. Vale pela curiosidade em torno da personagem tão mesquinha.

Nota 7/10


Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016)

Stephen Strange é um neurocirurgião tão competente quanto arrogante. Após sofrer um acidente que “inutiliza” suas mãos para o trabalho, viaja pelo mundo em busca da cura.

O filme poderia ser um passo à frente da Marvel em relação ao que fez até então, mas as urgências mercadológicas falaram mais alto. Introduzindo temas como dimensões, multiversos e poderes transcendentais, o roteiro se limita a apresentar cada tema superficialmente, evitando parecer complicado e afastar o público preocupado apenas em se divertir.

Benedict Cumberbatch é o perfeito Doutor Estranho. Sua eloquência em cena é mais que suficiente para nos convencer. Ele ainda é importante ao sustentar dramaticamente uma personagem apresentada às pressas. Tilda Swinton se destaca como a Anciã. Sua personalidade é sofisticada, simples e de cativante leveza, contrastando com a imensa força.

Os efeitos especiais são estupendos, partindo de A Origem e ampliando o conceito de brincar com a física de cidades inteiras. Mesmo assim, não supera a fórmula batida que idealiza um protagonista, apresenta-o ao novo, coloca-o em provação até que se torne o que nasceu para ser. Parece um eco das obras anteriores...

Doutor Estranho tem visual arrebatador e elenco formidável, mas se recusa a pensar “fora da caixa”. Com uma estrutura narrativa cansada, roteiro superficial e vilão genérico, desperdiça potencial.

Nota 7/10

23/08/2019 05:00

Mindhunter – 2ª Temporada: excelente fuga do óbvio

Fotos: Netflix

Mindhunter – 2ª Temporada: excelente fuga do óbvio

Texto: João Victor Wanderley

Dois anos após a estreia, Mindhunter (2017 - 2019) retorna se mantendo fiel à proposta inicial. Inspirada no livro escrito John Douglas e Mark Olshaker – a partir de suas experiências reais –, a série original Netflix foge das obviedades das histórias de Serial Killer ao dar luz ao processo científico que passou a guiar o FBI em investigações.

A segunda temporada segue a Unidade de Ciência Comportamental (UCC), que tenta traçar perfis psicológicos de criminosos condenados para encontrar similaridades em seus Modi Operandi. Depois da denúncia de manipular a pesquisa, Holden Ford (Jonathan Groff) sofre um inquérito. Além disso, precisa lidar com a Síndrome do Pânico resultante do trabalho estressante.

Em Quântico, Bill Tench (Holt McCallany) e Wendy Carr (Anna Torv) são apresentados a Ted Gunn (Michael Cerveris), novo diretor do FBI com a aposentadoria de Shepard (Cotter Smith). Gunn demonstra total apoio à UCC e decide investir o que for possível, mas exige que os resultados apareçam com brevidade.

O que faz de Mindhunter um olhar diferenciado sobre Assassinos Seriais não é sua temática, mas a abordagem. Evitando recorrer à violência gráfica, raramente mostra corpos das vítimas, isso porquê o foco está em estabelecer leitura eficiente das cenas de crime. O que não significa ausência de violência...

Os diálogos descrevem as mortes com tanta precisão que sentimos o peso dos atos e quase visualizamos tudo mentalmente. Normalmente a utilização de diálogos expositivos é demonstração de pobreza do roteiro. Em audiovisual, as informações importantes devem ser mostradas e não ditas. Porém, essa exposição verborrágica aqui é necessária já que os crimes servem à narrativa como objetos de estudo.

O trabalho da UCC se faz relevante quando, na década de 1970, Serial Killers começam a atuar com mais frequência. Essa mudança na sociedade é sintetizada numa conversa entre Bill e sua esposa Nancy (Stacey Roca), logo após um assassinato no bairro do casal:

- Isso não costuma acontecer por aqui.

- Acontece em todo lugar, Nancy.

(Unidade de Ciência Comportamental do FBI em reunião / Imagem: Netflix)

O estudo desenvolvido é posto em prática no caso das crianças negras, entre 11 e 14 anos, que são sequestradas e assassinadas em Atlanta entre 1979 e 1981. Holden e Bill tentam aplicar o conhecimento científico adquirido, mas, por se tratar de algo novo, encontram resistência da polícia local e, principalmente, do Governo, que teme piorar a própria imagem.

Os roteiros acertam ao investirem na dualidade. Um paralelo eficiente é traçado entre a evolução das técnicas investigativas e o aperfeiçoamento dos procedimentos de um psicopata. Enquanto acompanhamos a metodologia do trio protagonista crescer gradativamente, a produção pontua a rotina de um criminoso: o vemos lidar com seus conflitos psicológicos, escolher suas vítimas cautelosamente e passar desapercebido em locais públicos ao planejar seus ataques.

A ideia de inserir a ameaça no cotidiano atinge ainda a família Tench após uma morte acontecer na comunidade em que vivem. Através do comportamento ambíguo de uma personagem específica, vemos que indícios de criminalidade também surgem em lares bem estruturados. Todo esse arco é primordial para o desenvolvimento da trama e, principalmente, de Bill.

Com mais espaço em tela, precisa cumprir suas obrigações profissionais, dar atenção ao novo diretor do FBI – que adora bajular superiores – e lidar com uma crise familiar. Sobre esse último ponto, é curioso ver como interfere diretamente na maneira como o agente passa a se comportar.

Durante as reuniões, se mostra maleável com jovens que seguem algum criminoso e rigoroso com os manipuladores. A cena em que conversam Charles Manson (Damon Herriman em grande atuação) ilustra isso com perfeição. Reparem ainda a maneira como Bill passa a encarar uma cruz... A atuação de Holt McCallany é incrível ao compor cansaço e impaciência e parecer ligeiramente encurvado devido ao peso que aparenta carregar nos ombros.

As demais personagens também acrescentam camadas à narrativa. Holden tem um olhar clínico para ler as pessoas com quem interage, seu talento é primordial para o trabalho executado e é respeitado por Gunn. Já no primeiro episódio o vemos em ação ao notar que existe algo errado com Shepard durante sua despedida.

(O jogo de cores ilustra bem o impasse de Bill, dividido entre a profissão e a crise familiar / Imagem: Netflix)

Por outro lado, é arrogante e não reage bem ao não ter suas ideias acatadas. Basta ver, por exemplo, seu descaso ao entrevistar quem julga não ser necessário ou seu desdém quando a polícia interroga alguém que não se enquadra no perfil traçado por ele.

Compondo ambiguidade, Jonathan Groff mostra talento ao transitar entre o humano e o arrogante. É difícil estabelecer ao certo se o que motiva Holden é a ânsia de comprovar sua capacidade intelectual ou o desejo de evitar outras mortes. De qualquer forma, apenas uma atuação competente é capaz de transitar entre esses dois pontos e ainda ser empática.

Já Wendy ganha destaque com sua vida pessoal. Ao iniciar um relacionamento com Kay (Lauren Glazier), sai da zona de conforto criada para proteger sua carreira. Kay é segura quanto sua sexualidade e não permite se privar de seus sentimentos por causa da sociedade preconceituosa.

Tais características provocam reflexão na Doutora, que questiona conceitos auto impostos. No trabalho, segue as entrevistas ao lado de Gregg Smith (Joe Tuttle), que a acompanha na ausência dos outros dois protagonistas e se torna mais presente.

Com episódios dirigidos por David Fincher, Andrew Dominik e Carl Franklin, Mindhunter aposta na linguagem visual estabelecida pelo primeiro e que se aproxima de sua filmografia. Uma atmosfera sombria e apreensiva, fortalecida pela trilha ruidosa que incomoda na medida certa, pela estética “suja” – através da aparência de película desgastada – e pela ambientação de alguns cenários descuidados.

O amarelo está presente na direção de arte, que atrela a cor um sentido de alerta. Reparem, como Bill aparece diversas vezes rodeado de amarelo, seja na poltrona do avião, em sua camisa ou em sua casa, onde a série faz questão de evidenciar...

(Imagens: Netflix)

Muito apoiada na força de seu texto, a produção investe na montagem para entregar um ritmo atrativo. Os inúmeros diálogos, ao invés de soarem cansativos, trazem maior dinamismo, o que é lógico já que os principais acontecimentos estão no campo da dialética. Por isso, os cortes secos durantes as entrevistas e reuniões criam urgência ou tensão, de acordo com que pede cada cena. A propriedade do elenco sobre o texto também auxilia na construção do ritmo.

Outra característica que merece ser destacada é a quebra de paradigmas comumente atrelados às “obras de Serial Killer”. Clichês como a câmera se movendo lentamente antes de alguma revelação ou a porta que não deveria estar aberta tão tarde da noite geram no espectador uma expectativa que não se concretiza.

A utilização dos clichês cria tensão, que é quebrada em seguida pela fuga do óbvio. Utilização efetiva do suspense como a expectativa criada durante um momento determinado, não relacionado ao desfecho desse momento.

Por fim, a direção aposta num visual que corrobora com o compromisso de fidelidade com a realidade. Os atores escolhidos para interpretarem os criminosos não só entregam atuações excelentes como surgem muito parecidos com suas contrapartidas verídicas. Basta uma breve pesquisa na internet que logo se percebe o esmero técnico.

O limite entre ficção e realidade é constantemente provocado, gerando momentos como a cena em que Charles Manson debocha de sua biografia escrita por Vincent Bugliosi e Curt Gentry. Reparem, por exemplo, o diálogo sobre relógios...

Já na marcha que acontece em Atlanta, a produção mescla imagens reais com outras que emulam a estética de película da época, como se tentassem parecer verdadeiras ou – e isso é apenas um palpite – denunciassem ser encenações do material original.

A segunda temporada de Mindhunter mantém a qualidade estética, a narrativa complexa e a condução que aflige sem chocar com violência gráfica. A série escapa do lugar comum ao contar um tipo de história já conhecida sob uma ótica singular.

Nota 10/10

*O conteúdo deste blog não representa necessariamente a opinião do portal.