Plano Detalhe

12/07/2019 15:42

Atentado ao Hotel Taj Mahal é devastador

Atentado ao Hotel Taj Mahal é devastador

Por João Victor Wanderley

Em 26 de novembro de 2008, uma série de atentados terroristas sincronizados assolaram Mumbai, cidade de grande importância financeira para a Índia. Dentre os alvos estava o Taj Mahal Palace, hotel luxuoso que foi palco de uma chacina. É esta chacina que o diretor Anthony Maras retrata em seu potente filme de estreia.

Atentado ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, 2018) acompanha as horas impiedosas proporcionadas por fundamentalistas religiosos dispostos a destruir tudo aquilo que consideram responsável pelo declínio dos costumes locais.

Apesar da estreia, Maras demonstra sobriedade técnica muito grande. Criar uma obra sem protagonista definido, guiada pela tensão e pavor da situação retratada, requer domínio da cinematografia. A construção da atmosfera asfixiante é o resultado da competente parceria entre direção, montagem, fotografia e som.

A montagem de Peter McNulty e do próprio Maras apresenta focos narrativos paralelamente, recurso que instiga a curiosidade do espectador. Ora vemos os terroristas executando o plano; ora acompanhamos os funcionários tentando salvar o máximo possível de pessoas – em destaque o garçom Arjun (Dev Patel) e o chefe de cozinha Oberoi (Anupam Kher) –; e ora temos a ótica das vítimas, representadas por mais tempo pelo casal Zahra (Nazanin Boniadi) e David (Armie Hammer).

A fotografia de Nick Remy Matthews utiliza planos fechados que transmitem a sensação sufocante das personagens encurraladas. Já os planos abertos ilustram o isolamento dos sobreviventes, como quando um deles é mostrado no hall de entrada aparentemente vazio e, num dos cantos da tela, vemos um criminoso à espreita.

Nick Remy Matthews acerta nos enquadramentos significativos

Por fim, o som funciona como um agravante de suspense. O filme sabe utilizar a imponência dos tiros no ambiente fechado, mas usa melhor ainda o silêncio para construir expectativa. A trilha sonora de Volker Bertelmann é provocativa e instigante.

Brutal e impactante, a violência adotada choca sem ser sensacionalista. A câmera jamais segura um enquadramento o suficiente para banalizar a tragédia, pelo contrário. Ao mostrar um mínimo necessário e cortar para quem atira, toda a parte mais gráfica se forma em nossas cabeças. Ficamos angustiados pela união precisa entre o visto e o oculto, como se a direção fosse até o limite entre relatar o horror e cultuar o sádico.

A frieza dos criminosos é extremamente importante para dar peso às atrocidades. A tranquilidade transparece o controle da situação, além de acrescentar uma camada de crueldade assustadora.

Se a primeira metade é atordoante, a segunda traz um respiro necessário, tanto para a plateia quanto para a própria narrativa. É muito complicado manter um nível tão alto de incômodo e tensão durante tanto tempo, o que torna compreensível a escolha por segurar um pouco o ritmo. Porém, isso esfria a experiência.

Com os próximos momentos de apreensão mais distantes, as cenas que preenchem os espaços empalidecem, mesmo que tragam informações úteis como onde e quantas vítimas estão se mantendo a salvo.

Os funcionários do hotel salvram muitas vítimas em 2008, na Índia

Além disso, a produção acaba se tornando repetitiva ao adotar o mesmo esquema de ação e reação para diferentes personagens: alguns decidem sair de onde estão, encontram um obstáculo e acabam encurralados, presos ou mortos. Isso ocorre mais que o necessário e até rende situações idênticas com as mesmas pessoas. Atentado ao Hotel Taj Mahal seria beneficiado se fosse mais curto, cortando os excessos.

Um ponto interessante no roteiro escrito por John Collee, em parceria com Anthony Maras, é a maneira como retrata os criminosos. Apesar da firmeza nos atos destes, existe um resquício de humanidade vista no deslumbre pelo luxo e no contato com uma comida mais elaborada. Fica claro que os jovens sonham com uma vida mais confortável e, até por isso, sucumbem à manipulação religiosa.

Mas também não há tentativas de transformá-los em figuras empáticas, apenas se dispõe a mostrar que, por trás do horror praticado em nome de um ideal, há dúvida ou mesmo uma intensão enviesada de nobreza, como na cena em que Imran (Amandeep Singh) faz uma ligação telefônica de um dos quartos do hotel.

Por outro lado, para poder criar dramaticidade e impacto emocional, o roteiro faz algumas personagens tomarem atitudes estúpidas como sair de um local que já está seguro para procurar alguém, que não se tem ideia de onde esteja, ou sair pelos corredores com a tranquilidade de quem passeia num shopping seguro.

É compreensível que se pretenda manipular o drama em prol da narrativa, mas o sacrifício da lógica é questionável. De qualquer forma, é preciso dizer que os sacrifícios rendem grandes cenas.

Dev Patel em cena significativa sobre preconceito

Num determinado diálogo, uma rica mulher branca demonstra medo de Ajurn. No meio da pressão psicológica, ela expõe seu preconceito com o homem que acabara de salvar diversas vítimas. Em sua humildade, o garçom chega até a mulher e explica a importância cultural que carrega em sua vestimenta. É um momento que se distancia do pavor gráfico do atentado, mas que dialoga com a essência extremista.

Sem ter o conhecimento necessário, a mulher reduz um homem bom a um estereótipo que, posteriormente, se dissolve através da conversa. Essa generalização preconceituosa rima com a motivação dos terroristas, que culpam a cultura ocidental pela morte de seus valores culturais.

A cena me fez refletir sobre os rumos que a intolerância instalada no Brasil pode levar nossa sociedade polarizada. Seja por posicionamentos poíticos, religião ou individualidades, os brasileiros se alimentam de ódio irracional. A cada dia, estamos mais individualistas e fundamentalistas – seja na política, na religião ou em nossas ideologias –, o que é um absurdo numa sociedade democrática, num Estado laico.

Não existe ideia, crença ou verdade particular que deva se sobrepor ao bem-estar de uma comunidade. A vida e a liberdade de todos também são obrigações nossas. Trilhamos um caminho perigoso e algo precisa ser feito urgentemente.

Precisamos evitar que as rupturas sociais se traduzam em violência, um rumo sem volta. Isso se faz com diálogos, ouvindo mais, explicando melhor e respeitando – assim como na cena que me despertou tal reflexão. Toda reação exagerada nasce de alguma ação, seja ela igualmente exagerada ou não. Que nossas ideias conflitantes não se transformem numa imposição armada, truculenta e desumana...

Atentado ao Hotel Taj Mahal é difícil, dolorido e pesado, mas também encanta pela qualidade de seu cinema. Brutal e chocante, desperta a empatia a partir do pior que a humanidade pode oferecer: sua irracionalidade.

 

Nota 8,5/10

11/07/2019 14:00

Sessão Review #1

Fotos: Divulgação

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço, não é algo simples.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto e revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos sobre as obras que ficaram de fora do blog.

Breaking Bad – 1ª Temporada (2008)

A criação de Vince Gilligan é um minucioso estudo de personagem. Através da narrativa calma, a série encontra tempo hábil para construir uma história sólida. O que vemos é um homem sério, honesto e muito familiar sentir o peso de um diagnóstico de câncer e que, indignado com a ideia de deixar a família endividada, se perde no espaço cinzento entre o certo e o errado ao dedicar seus conhecimentos químicos na produção de Metanfetamina.

O roteiro preciso, a atuação brilhante de Bryan Cranston e a direção que domina a semiótica cinematográfica são elementos fundamentais para dar início a uma das desconstruções mais complexas de uma personagem.

A primeira temporada de Breaking Bad alimenta um dilema moral eficiente através da intensa transformação pessoal. Um primeiro passo bem mais coeso do que eu me lembrava. Nota 9/10

Capitão América – Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016)

De uma maneira geral, a maior parte dos filmes da Marvel são genéricos, seguindo fielmente a fórmula de sucesso do estúdio. Assim, quando surge um Guerra Civil, mesmo não fugindo muito à regra, vale a pena destacar pela proposta de desconstrução oferecida.

O filme não é apenas uma reunião de heróis trocando porrada, tem um envolvimento pessoal ao desencavar o passado de algumas das personagens. Traz a dualidade curiosa entre Steve Rogers e Tony Stark. Diante da proposta do Governo de monitorar os heróis, o Capitão se opõe ao Estado enquanto o Homem de Ferro baixa a cabeça – por peso na consciência. Essa inversão de papéis é bem-vinda, mesmo que tratada com superficialidade.

Os irmãos Russo dirigem com vigor. Câmeras de mão dão veracidade em muitos momentos, a utilização de cortes secos cria o caos das cenas de luta, que ainda contam com coreografias bem ensaiadas e com ótimos efeitos especiais. Capitão América – Guerra Civil traz motivações concretas e embates plausíveis, oferecendo uma pitada boa de substância. Nota 9/10

O Mecanismo – 2ª Temporada (2019)

Depois de uma primeira temporada visivelmente desequilibrada, onde um lado parecia ser mais vilanesco que o outro, O Mecanismo retorna com outra postura. Abrindo com o posicionamento de Ruffo (Selton Mello) sobre esquerda e direita se cegarem por suas ideologias, a produção equilibra o jogo. Agora, de fato, temos um mecanismo funcionando para promover toda a sujeira que banha nossa política.

A produção melhora a qualidade de seu som, corrigindo falhas que prejudicaram a compreensão de diálogos no ano anterior. As atuações também estão mais firmes, embora apenas o Ibrahim de Enrique Diaz brilhe. Diaz é carismático mesmo sendo completamente asqueroso.

Quanto à condução da trama, o roteiro gasta tempo demais na rivalidade de Ruffo e Ibrahim, se tornando algo mais policial. Enquanto isso, o esquema de corrupção envolvendo políticos e empreiteiros fica de lado, ressurgindo com vigor apenas quando remonta o processo de Impeachment de Janete, já ao fim.

A segunda temporada de O Mecanismo é melhor em relação à anterior, mas ainda tropeça na execução e nas prioridades narrativas que se impõe. Começa e termina bem, mas boa parte do meio cansa e desinteressa. Nota 7/10

Roman J. Israel (Roman J. Israel, Esq., 2017)

Com um início promissor, o filme escrito e dirigido por Dan Gilroy nos apresenta a um advogado brilhante no trato da lei, mas terrível no trato com gente. Acostumado a lidar com a papelada dos processos, Roman (Denzel Washington) decide assumir os negócios quando seu sócio – e rosto da empresa – enfrenta problemas de saúde.

A parceria é destinada a ajudar pessoas sem condições de uma boa defesa, mas está falida. A única maneira que Roman encontra de se sustentar e viabilizar uma ação coletiva que mudará os rumos da justiça é trabalhar numa grande empresa que enriqueceu e praticar uma advocacia que condena.

É nesse ponto que o filme se perde. Ao se ver tentado pelo lado financeiro, o protagonista simplesmente se distancia de sua moral e princípios e isos não é mostrado com coerência narrativa.

Mesmo com uma montagem ágil e bem executada, uma brilhante atuação de Denzel Washington e uma premissa instigante, Roman J. Israel perde fôlego, foco e coerência. Nota 6,5/10

Mistério no Mediterrâneo (Murder Mystery, 2019)

Costumo gostar dos projetos de Adam Sandler, de verdade. Sempre tive uma inclinação a me divertir com o tosco e ele é um ator que abraça a ideia. Só que seu último trabalho para a Netflix não condiz com isso.

O filme é chato, sem graça e muito cansativo, tudo isso porque se leva a sério demais. Além disso, Sandler está realmente tentando atuar – e até consegue se manter na personagem, só que ela não funciona. Ele se sustenta no filme quase todo com uma frustração quase papável.

Parece também não haver química entre ele e Jennifer Aniston, o que é estranho já que “funcionaram” em Esposa de Mentirinha (2011). Mistério no Mediterrâneo não faz rir, não intriga com o mistério do assassinato e nem tem o descompromisso que tanto gosto. Se sustenta apenas em poucas locações europeias bem fotografadas, cenas de ação razoáveis e na esperança que Sandler “estrague” algum momento para, enfim, salvar o filme. Mas isso não acontece... Nota 3/10

O Universo de Stranger Things (Beyond Stranger Things, 2017)

Lançado após o termino da segunda temporada de Stranger Things, essa série de sete episódios traz conversas com o elenco e os diretores de uma das produções mais aclamadas da atualidade. São reveladas algumas curiosidades das gravações, projeções sobre as personagens e informações do processo criativo, tudo conduzido com humor. Para quem se interessa por conversas de bastidores, é uma boa pedida. Sem Nota

11/07/2019 05:00

Nos cinemas, Atentado ao Hotel Taj Mahal estreia e Vingadores – Ultimato retorna

Fotos: Divulgação

Nos cinemas, Atentado ao Hotel Taj Mahal estreia e Vingadores – Ultimato retorna

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 11 a 17 de julho:

 

Atentado ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, 2018): Uma história real de humanidade e heroísmo, baseada nos ataques terroristas ao famoso Hotel Taj Mahal em Mumbai. O renomado chef Hemant Oberoi (Anupam Kher) e o garçom Arjun (Dev Patel) decidem arriscar suas vidas para proteger as demais vítimas. Em meio ao caos, um casal de hóspedes (Armie Hammer e Nazanin Boniadi) se vê forçado a lutar para salvar a vida de seu filho recém-nascido. (16 anos, 123 minutos).

Vingadores – Ultimato (Avengers – Endgame, 2019): O grande sucesso da Marvel retorna aos cinemas com cenas extras. Após os acontecimentos de Guerra Infinita (2018), Os Vingadores precisam se reerguer numa única esperança de resistência. (12 anos, 182 minutos).

Continuam em cartaz:

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Um Homem Fiel (L´homme Fidèle, 2018): Marianne deixa Abel por Paul, seu melhor amigo e pai de seu futuro filho. Oito anos depois, Paul morre. Abel e Marianne voltam a namorar, despertando sentimentos de ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, quanto na irmã de Paul, Eva, que ama Abel secretamente desde a infância. (14 anos, 75 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Aladdin (2019): Adaptação em formato live-action do clássico de animação da Disney, conta a história de um jovem humilde que descobre uma lâmpada mágica, com um gênio que pode lhe conceder desejos. Agora, o rapaz quer conquistar a moça por quem se apaixonou, mas ela é uma princesa que está prestes a noivar. (10 anos, 128 minutos).

08/07/2019 21:36

Stranger Things 3: evolução, referências e muita qualidade

Fotos: Netflix

Stranger Things 3: evolução, referências e muita qualidade

Por João Victor Wanderley

Se firmar como um sucesso já em sua estreia é difícil para uma série, qualquer passo seguinte será recebido com mais expectativas e maior exigência. Permanecer no topo é ainda mais complicado, já que manter o padrão de qualidade é um desafio para todo criador. É preciso tirar o chapéu para a Netflix e, principalmente, para os irmãos Matt e Ross Duffer, responsáveis por fazerem Stranger Things (2016 – 2019) ser o que é.

Nesse terceiro ano, uma brecha entre o nosso mundo e o Mundo Invertido é aberta, trazendo uma ameaça já conhecida e que procura por vingança. Novamente, a responsabilidade de salvar a humanidade está nas mãos dos moradores de Hawkins, liderados pela poderosa Eleven (Millie Bobby Brown) e seus amigos adolescentes.

A história retorna seis meses após os acontecimentos da temporada anterior e se inicia apresentando a nova dinâmica entre os protagonistas. Com o namoro quase obsessivo de Eleven e Mike (Finn Wolfhard), as idas e vindas de Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) e Dustin (Gaten Matarazzo) num acampamento de férias, o grupo tem uma crise de proximidade que se reflete em Will (Noah Schnapp), deslocado e sentindo o afastamento dos parceiros.

O desgaste provoca novas rupturas, que são muito bem aproveitadas pelos roteiros para dividir a trama em núcleos. Dessa maneira, conseguem utilizar bem o elenco principal, desenvolver suas personagens e entregar informações importantes em cada episódio, mostrando que a história está sempre andando para frente e que não perde tempo “cumprindo tabela”.

Assim, vemos Eleven e Max investigando o comportamento estranho de uma personagem; Dustin, Steve (Joe Keery) e Robin (Maya Hawke) tentando compreender uma mensagem criptografada; Joyce (Winona Ryder) e Jim Hopper (David Harbour) sondando uma pista sobre interferência magnética; Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) apurando uma notícia atípica; e Mike, Lucas e Will percebendo a ameaça que se aproxima. A estrutura narrativa se mostra dinâmica e eficiente ao administrar tantos arcos e ganha ainda mais peso quando todas essas linhas se cruzam.

Dustin, Steve e Robin lideram um dos núcleos de Stranger Things 3

Mas o que eu mais gosto nessa terceira temporada é a maneira de pontuar algumas temáticas relevantes. Numa camada histórica, o avanço do capitalismo com a chegada do shopping Starcourt sepulta o comércio local. Lojas fechadas ou mesmo vazias apesar de promoções agressivas, encontram eco nos protestos de insatisfação dos moradores.

Na camada pessoal, vemos mudanças em figuras já estabelecidas. Jim, longe das obrigações paternas há bastante tempo, encontra dificuldades ao lidar com o crescimento de Eleven. O xerife consegue se impor como figura de autoridade na cidade, mas se mostra totalmente sem jeito diante da garota. Mesmo assim, a relação dos dois é muito significativa, sendo bem construída desde o início, com ele tentando impor limites ao namoro da filha, e tendo seu ápice já no fim, num dos momentos mais lindos da série.

Mike e Lucas também passam por uma evolução sensível graças aos seus relacionamentos. Enquanto vê os amigos preocupados em sustentarem seus romances, Will sofre por ser o resquício final da infância no grupo, ainda com os dois pés na ingenuidade - a cena em que confronta Mike por querer apenas brincar é emblemática. Mas também é muito bacana perceber como esse amadurecimento é bem inicial, como mostrado na cena em que os garotos reagem apavorados diante de uma loja de lingerie.

Por fim, numa camada mais social, estão questões sobre o posicionamento da mulher na sociedade. Seja quando Max aconselha Eleven a respeitar às próprias vontades e não ver o mundo apenas pelos olhos dos homens – na curta cena em que começam a ler uma HQ da Mulher-Maravilha –, na lindíssima conversa entre Nancy e a mãe sobre as dificuldades de ser adulta numa sociedade machista ou no tocante diálogo entre Steve e Robin no banheiro do shopping, Stranger Things 3 mostra que, apesar de referenciar demais o passado, não esquece de olhar para os dilemas atuais.

Mulheres em destaque numa das séries mais populares da atualidade 

Quanto ao desenvolvimento da trama, o roteiro brinca até mesmo com os estereótipos dos filmes oitentistas ao resgatar um tipo de vilão que permeou os cinemas de aventura. Embora esse seja um ponto questionável, já que é um recurso genérico e mal explorado, sua recepção depende muito da forma como o espectador o vê. Eu, por exemplo, entendo que na intenção de referenciar, a equipe de escritores foi fiel até mesmo aos pontos fracos. O que vemos de genérico aqui é proposital, a série não tenta apenas homenagear, mas parecer um produto da década de 1980.

É preciso citar também a coragem da equipe em abrir mão de sua zona de conforto ao fazer escolhas audaciosas, que modificam a dinâmica no futuro. Resta saber se essa coragem irá se estender ou se esse passo será desfeito – e se, caso aconteça, será convincente.

A direção é muito competente ao brincar com diversos estilos. Consegue transitar da ingenuidade à violência – com cenas bem nojentas; quando envereda pelo o humor, é muito eficiente – e impressiona a capacidade de jogar piadas em momentos sérios e, ainda assim, conseguir manter a tensão –; constrói um suspense atmosférico, que se beneficia da trama apresentada em “peças de quebra-cabeças”; e ainda funciona bem como terror de ficção científica.

Os efeitos especiais estão melhores, misturando computação gráfica com efeitos práticos. Porém, em alguns momentos, o recurso virtual parece artificial, principalmente nas criaturas horrendas. Já a direção de arte e a fotografia são irretocáveis ao recriarem o verão dos anos 1980. Cores quentes e vibrantes vão desde o trato da imagem aos figurinos e objetos de cena.

Fotografia, figurino e direção de arte reconstruindo época

Quanto às referências, umas das coisas mais chamativas aqui, continuam sendo excelentes, seja no papel de ambientação através das músicas ou sessões de cinema – que exibem Dia dos Mortos (1985) e De Volta Para o Futuro (1985) –; inseridas como apoio narrativo – como O Exterminador do Futuro (1984) –, ou citação estética de obras mais recentes, como Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (1993).

O elenco segue excelente, como sempre. Todas as crianças são muito talentosas e mandam bem nas cenas mais intensas. Obviamente, a competência cênica de Millie Bobby Brown e o carisma gritante de Gaten Matarazzo são pontos adoráveis em Eleven e Dustin, mas é preciso destacar a pequena Priah Ferguson, que dá vida à hilária Erica.

Entre os adultos, o destaque é a química potente entre o Jim de David Harbour e a Joyce de Winona Ryder. Não sou muito fã do trabalho dela aqui, quase sempre acima do tom, mas é inegável como funciona ao lado do xerife. Vale citar também o Billy de Dacre Montgomery, que protagoniza uma cena emocionante no episódio final.

Stranger Things 3 é hilária, tocante, relevante, ameaçadora e ótima representação de um recorte histórico. Não se sustenta apenas do que cultua, mas de seus próprios e inegáveis talentos. Minha temporada preferida da série até agora.

 

Nota 10/10

05/07/2019 16:18

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido e... só!

Fotos: Sony

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido e... só!

Por João Victor Wanderley

ATENÇÃO! O TEXTO CONTÉM SPOILER DE VINGADORES – ULTIMATO

Não sou fã dessa proposta da Marvel de finalizar as fases de seu Universo Cinematográfico com aventuras que não sejam as protagonizadas pelos Vingadores. A escolha quebra a ideia de ciclo e remete a séries que depositam tudo no penúltimo capítulo, mas encerram as atividades com um epílogo menos atrativo, que empalidece o fim da jornada.

Além disso, o lançamento quase imediato de uma nova produção soa como imposição mercadológica que, queira ou não, diminui o peso do planejamento, já que um filme solo dificilmente será tão significativo quanto a reunião de todos os heróis mais emblemáticos da franquia.

Isso ficou ainda mais claro para mim no encerramento dessa terceira fase, com mais um lançamento logo no encalço do apoteótico Vingadores – Ultimato (2019), que se beneficiaria ainda mais sendo o grande encerramento. Um hiato maior até a próxima sequência ajudaria não só a retomada, mas o sucessor na construção de sua própria identidade.

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019) se passa pouco depois do sacrifício de Tony Stark (Robert Downey Jr.) para desfazer a tragédia provocada por Thanos (Josh Brolin). De volta à vida, Peter Parker (Tom Holland) quer apenas descansar e curtir as férias escolares, mas acaba envolvido noutra ameaça.

A morte do Homem de Ferro é sentida em todo o mundo, como mostrado nas diversas homenagens ao herói martirizado. Porém, o mais desolado é Peter, que perdeu novamente uma figura paterna e ainda precisa lidar com a vaga ideia de assumir a responsabilidade deixada pelo seu mentor.

Nesse ponto, o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers é feliz ao abordar bem o pesar do garoto. É perceptível seu desgaste emocional, já que afeta até seu “sentido aranha”, impedindo-o de identificar uma ameaça se aproximando.

Peter Parker inseguro após os eventos de Vingadores - Ultimato (Imagem: Sony)

Aliás, ainda nesse quesito emocional, acerta ao construir convincentemente uma personalidade juvenil, rendendo ótimas passagens de ambiguidade ideológica. Peter sabe que é importante manter o mundo em paz, ao mesmo tempo que lembra ter apenas 16 anos e que deseja ser um garoto comum.

Essa dualidade é muito bem construída na firmeza de sua persona mascarada, quando em perigo, e na fragilidade de sua postura diante de um interesse romântico. Seus diálogos com o Mysterio (Jake Gyllenhaal) sobre suas responsabilidades também ajudam aqui.

O filme é conduzido com muito humor e leveza, quase todas as piadas funcionam para mim. É como se a produção se assumisse uma comédia adolescente. O primeiro ato é convincente, até que um acontecimento específico muda toda a dinâmica da trama.

Esse ponto é particularmente complicado, já que sua eficiência depende muito da maneira como cada espectador irá recebê-lo. Para os que encaram Longe de Casa como um produto meramente escapista e abraça a proposta, o divisor de águas funciona, já que traz uma surpresa interessante e é um potencializador dramático.

Por outro lado, encarar a obra com o mínimo de exigência narrativa é perigoso, já que o grande Plot Twist, ou reviravolta, não se sustenta por si – e eu me enquadro nessa segunda opção.

A surpresa parte do recurso barato de chocar apenas por chocar. Funciona como elemento inesperado, mas não tem argumentação sólida que justifique tal escolha. É como construir toda uma história em torno de uma mentira mal escondida e rezar para que o público tenha preguiça o suficiente para não questionar o que vê.

Tom Holland e Zendaya têm ótima química em cena (Imagem: Sony)

Para justificar melhor meu ponto de vista, será preciso mais objetividade nas palavras, o que resultaria num spoiler pesado. Por isso, QUEM NÃO QUISER TER A EXPERIÊNCIA CINEMATOGRÁFICA ESTRAGADA, BASTA CONTINUAR APÓS A PRÓXIMA FOTO.

A própria estrutura narrativa nos permite suspeitar que algo está errado quando, mais ou menos na metade da jornada, tudo se encaminha para uma solução definitiva, ficando a sensação de “não acredito que seja só isso. Estou sentindo uma treta (shhh).”. Ao percebermos que existe uma armação e como ela funciona, temos sim um choque. Entretanto, ela é vaga e inconsistente, tudo não passa de uma vingancinha tola e mesquinha de um grupo de pessoas com a vaidade ferida, que agora quer redenção pessoal disfarçada de altruísmo.

Depois, toda a fragilidade do plano mostra que ele não é inteligente, apesar de tentar parecer. Mysterio viaja pelo mundo combatendo ameaças. Essas lutas resultam numa destruição massiva de prédios e cidades. Porém, quando descobrimos que tudo é mera encenação, uma grande ilusão holográfica permitida por uma tecnologia de altíssima qualidade, a pergunta que fica é: o que acontece em seguida, após os hologramas serem retirados?

É possível crer que muitos tenham sido enganados, embora não seja nada fácil conceber o amigo da vizinhança se pendurando em projeções de realidade aumentada ou sentir o peso real de um prédio – afinal, são PROJEÇÕES. E se a tal tecnologia provoca tudo isso na mente humana, como ela não foi desmascarada após os acontecimentos de Veneza, por exemplo? Após a retirada da tecnologia que distorcia a realidade, ninguém tentou se aproximar do local? Não foi feita nenhuma cobertura jornalística que percebesse a cidade milagrosamente restaurada? É uma relação simples de ação e reação completamente ignorada pelo roteiro.

A fotografia captura a beleza das locações (Imagem: Sony)

A direção de Jon Watts se mostra vistosa e dinâmica, apresentando fluidez na ação e estética apurada. A câmera ágil, aliada à montagem dinâmica e bem executada de Leigh Folsom Boyd e Dan Lebental, entrega enquadramentos interessantes, que buscam sempre mostrar a capacidade física e a velocidade do herói.

A fotografia de Matthew J. Lloyd traz muita luz, contrastando com a paleta pessimista de Ultimato, procura enquadrar a Europa de maneira encantadora e aposta em cores vivas e agradáveis, deixando tudo visualmente convidativo.

O elenco está mais sólido que em De Volta ao Lar (2017). Tom Holland é muito talentoso, tendo timing para a comédia, firmeza nas cenas dramáticas e domínio das inseguranças adolescentes. Também é o Peter Parker ideal, mesclando juventude, carisma e vigor físico.

Zendaya tem mais espaço como M.J.; Jacob Batalon segue fazendo de Ned um ótimo alívio cômico e Jake Gyllenhaal passa credibilidade como Mystério. Marisa Tomei e Jon Favreau têm pouco espaço, mas fazem ótimas participações como Tia May e Happy Hogan, respectivamente.

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido, bem filmado e visualmente bonito, mas erra significativamente num ponto muito importante. A Marvel deveria compreender que o desgaste do protagonista pode representar a plateia, se propondo umas férias bem-vindas para deixar o público respirar. Caso contrário, o que vier pela frente pode acabar com o mesmo gosto de escapismo vazio.

 

Nota 7,5/10

04/07/2019 05:00

Homem-Aranha: Longe de Casa estreia em Natal; veja a programação

Fotos: Sony

Homem-Aranha: Longe de Casa estreia em Natal; veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 4 a 10 de julho:

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Um Homem Fiel (L´homme Fidèle, 2019): Marianne deixa Abel por Paul, seu melhor amigo e pai de seu futuro filho. Oito anos depois, Paul morre. Abel e Marianne voltam a namorar, despertando sentimentos de ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, quanto na irmã de Paul, Eva, que ama Abel secretamente desde a infância. (14 anos, 75 minutos).

Continuam em cartaz:

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black - International, 2019): Sete anos após seu último lançamento, a franquia MIB: Homens de Preto retornam aos cinemas com seu mais novo exemplar, Internacional. Estrelado por Chris Hemsworth e Tessa Thompson (ambos de Vingadores – Ultimato, 2019), o filme acompanha os agentes H e M na maior e mais global ameaça à Organização MIB. (12 anos, 114 minutos).

Aladdin (2019): Adaptação em formato live-action do clássico de animação da Disney, conta a história de um jovem humilde que descobre uma lâmpada mágica, com um gênio que pode lhe conceder desejos. Agora, o rapaz quer conquistar a moça por quem se apaixonou, mas ela é uma princesa que está prestes a noivar. (10 anos, 128 minutos).

 

OBS: Os horários dos filmes podem ser conferidos nos sites dos cinemas

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