Plano Detalhe

26/07/2019 20:24

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal traz bem-vinda ambiguidade narrativa

Fotos: Divulgação

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal traz bem-vinda ambiguidade narrativa

Por João Victor Wanderley

“Extremamente perversas, assustadoramente malvadas e vis”. Essas palavras proferidas pelo juiz Edward D. Cowart (John Malkovich) – e que dão o título original do filme – descrevem os crimes atribuídos a uma das figuras mais cruéis dos Estados Unidos. Entretanto, a fala é muito mais objetiva que o resto da obra, conduzida com provocante ambiguidade.

Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019) conta, a partir do ponto de vista de sua noiva, a história do Serial Killer que matou, ao menos, 30 mulheres na década de 1970.

Compreendendo 20 anos numa produção de quase duas horas, o roteiro de Michael Werwie é descompassado nas passagens de tempo: ora atropelado, ora cadenciado. Enquanto a segunda metade é quase toda dedicada ao julgamento mais importante para Ted (Zac Efron), os primeiros 55 minutos contemplam passagens que precisariam de mais calma da narrativa, como a construção de seu relacionamento com Elizabeth Kendall (Lily Collins), suas acusações, prisões e tentativas de fuga.

A faculdade de direito cursada pelo protagonista e seu romance com Liz são tratados com dolorosa superficialidade. O primeiro é definido através de uma única cena na biblioteca e de diálogos expositivos; já o outro é apresentado num clipe de “vídeos caseiros” que surge logo após o casal se conhecer. Falta peso em dois fatores relevantes da história – principalmente o segundo, que é a pedra fundamental da direção de Joe Berlinger.

(Zac Efron em um dos papéis mais interessantes de sua carreira / Imagem: Divulgação)

Adaptando o livro escrito pela própria Elizabeth Kendall, Berlinger constrói o filme a partir da visão de Liz e de como ela enxerga Ted, escolha que justifica a ausência de violência e permite que o diretor manipule o espectador com a ambiguidade de sua figura central. A Irresistível Face do Mal faz um esforço louvável para se distanciar dos demais exemplares de gênero, evitando explorar a brutalidade. Tudo é muito limpo e, principalmente, convidativo.

Poucos produtos tentam estabelecer humanidade num assassino real, o que é permitido aqui devido ao olhar incrédulo de uma pessoa apaixonada. Ted é quase sempre enquadrado sorridente, carinhoso, apaixonado e de gestos contidos, nunca matando. Apenas temos indicações de quando o crime acontecerá.

Berlinger utiliza a linguagem documental que tanto conhece para entregar o máximo de credibilidade possível. Aposta em câmeras de mão para estabelecer uma estética realista, reforçada quando “se apodera” das câmeras da imprensa para criar um contraponto, como se trouxesse material extra de outro cinegrafista.

Positivamente, pode-se destacar que a abordagem adotada é eficiente, capaz de criar dúvidas em quem não está familiarizado com os fatos. Eu, por exemplo, mesmo tendo algumas informações prévias (não muitas), me peguei questionando se havia a possibilidade de estar vendo uma falha da justiça. Consegui realmente me sentir como algumas das personagens, o que considero muito válido, já que a intenção narrativa foi bem executada.

Negativamente, dá pra dizer que a falta violência causa estranheza, já que estamos acompanhando um assassino impiedoso. Óbvio que o filme aparece como um complemento, um acréscimo aos materiais que já existem, não há necessidade de abrir mão do que o torna diferente de outras produções – além de ter coerência em ser como é –, mas fica a sensação de incompletude. É como se a biografia de Pelé não mostrar seus gols, ou como o recente Atentado ao Hotel Taj Mahal (2019) não mostrasse as mortes durante o atentado terrorista.

(A direção de arte aposta no amarelo durante parte do filme / Imagem: Divulgação)

Outra coisa que me incomoda é o filme utilizar alguns clichês como se desse piscadelas para o público que já conhece a história, como enfatizar Ted segurando uma faca na cozinha, mostra-lo observando a parceira muito concentrado antes de uma relação sexual ou fazer um cachorro latir para ele, indicando algo de errado. Tentativas de criar apreensão que não funcionam.

Zac Efron demonstra maturidade num papel um pouco diferente do resto de sua carreira. Ele ainda interpreta o cara bonito e carismático, que conquista as garotas com facilidade, mas há uma dualidade perversa, um cinismo acertado. Lily Collins faz o possível com o pouquíssimo material que tem. É um absurdo que o roteiro ofereça a uma personagem tão importante apenas a transição entre plenitude e devastação emocional.

Kaya Scodelario tem ainda menos para mostrar como Carole Ann Boone, vivendo outra mulher apaixonada. O resto do elenco é bem operacional:  Angela Sarafyan e Haley Joel Osment são apenas burocráticos como Joanna e Jerry; Jim Parsons se esforça como o promotor Larry Simpson, e até faz um bom trabalho vocal, mas ainda mantém os trejeitos de Sheldon Cooper da série The Big Bang Theory (2006 – 2019); já John Malkovich brilha mesmo em curta participação graças ao seu talento.

Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal é um interessante olhar alternativo sobre acontecimentos famosos. Traz um ponto de vista dúbio que provoca, mas que também limita uma exploração profunda das camadas presentes aqui. Entre tropeços e acertos, o saldo é positivo.

Nota 7/10

25/07/2019 05:00

Serial Killer, fantasia e comédia; veja as estreias nos cinemas de Natal

Fotos: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley

Serial Killer, fantasia e comédia; veja as estreias nos cinemas de Natal

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 25 a 31 de julho:

Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019): Ted Bundy foi um dos Serial killers mais perigosos dos anos 1970. Além assassino, era sequestrador, estuprador, ladrão e necrófilo. Sua namorada, Elizabeth Kloepfer, tornou-se uma de suas defensoras mais leais, recusando-se a acreditar na verdade. (16 anos, 108 minutos).

O Mistério do Gato Chinês (Kûkai, 2017): Durante a dinastia Tang, na China, um gato misterioso começa a atacar altos membros da Corte Imperial, deixando uma série de mortos. Dois homens muito diferentes, o poeta chinês Bai Letian e o monge japonês Kûkai decidem unir forças para descobrir o que existe por trás do animal místico. (14 anos, 129 minutos).

As Trapaceiras (The Hustle, 2019): Duas vigaristas, uma de baixo e a outra de alto nível, competem para conseguir extorquir a fortuna de um ingênuo prodígio da tecnologia. (12 anos, 93 minutos).

(Imagens: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley)

Continuam em cartaz:

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Amor à Segunda Vista (Mon Inconnue, 2019): Do dia para a noite, Raphael (François Civil) acorda em um universo paralelo onde nunca conheceu Olivia (Joséphine Japy), o amor da sua vida. Agora ele precisa reconquistar a sua esposa, mesmo sendo um completo estranho para ela. Enquanto Raphael tenta entender exatamente o que aconteceu, corre contra o tempo para não perdê-la. (12 anos, 117 minutos).

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

23/07/2019 05:00

La Casa de Papel – Parte 3: bem-vinda, resistência!

Fotos: Divulgação

La Casa de Papel – Parte 3: bem-vinda, resistência!

Por João Victor Wanderley

Símbolo da resistência italiana ao Fascismo instaurado na Segunda Guerra Mundial, a canção Bella Ciao ressurgiu ao ser adotada pela série La Casa de Papel (2017–2019). Entretanto, apesar de tomar seus protagonistas por vozes da resistência, a produção espanhola não havia abordado o tema de maneira minimamente adequada. Ao menos não até agora...

Após Rio (Miguel Herrán) ser capturado, Tóquio (Úrsula Corberó) pede ajuda ao Professor (Álvaro Morte). A equipe se reúne para libertar do amigo, mas precisará aplicar um golpe ainda mais ousado: roubar a reserva de ouro guardada no Banco da Espanha.

A história se passa dois anos depois do assalto anterior. Dessa forma, o primeiro episódio é dedicado a mostrar o que aconteceu com o grupo e onde cada um está. A distância entre eles é uma medida de segurança, mas também serve à narrativa dando peso ao sacrifício de se reencontrarem em prol de um deles.

Com o investimento feito pela Netflix, La Casa de Papel ganhou em valor de produção. Cenários fechados agora dividem espaço com diversas tomadas externas – reparem as imponentes imagens aéreas de Madri e o número considerável de figurantes. Além disso, as cenas internacionais chamam atenção com locações no Caribe, Ásia e Itália, por exemplo.

Por outro lado, a intervenção da empresa implica em adequações para tornar a obra universal, como a maior presença do inglês – visto nos nomes dos episódios, no I Love You escrito num telefone e nas músicas utilizadas pela montagem (ao menos as ouvidas pelos protagonistas ainda são europeias).

(Rio e Tóquio em ilha paradisíaca do Caribe / Imagem: Divulgação)

Também se percebe referências a filmes de alcance mundial, seja em breves citações – Tóquio saindo do mar igual a Ursula Andress em 007 Contra o Satânico Dr. No (1962) – ou em elementos relevantes da narrativa – o cofre que parece ter saído de um Missão: Impossível.

Com mais recursos e uma trama enxuta, a direção consegue entregar momentos eficientes de tensão. A edição tem papel fundamental ao construir uma montagem paralela com sucesso, administrando os conflitos, interrompendo-os em momentos estratégicos e pulando para outro núcleo.

Os flashbacks entram instantes antes para explicar quais serão os próximos passos, nos deixando em pé de igualdade com os protagonistas. Sabemos o que eles sabem e nos surpreendemos com seus imprevistos

A série apresenta novas personagens interessantes, embora poucas tenham a atenção devida. Palermo (Rodrigo De La Serna) é o novo líder do grupo e uma versão potencializada de Berlim (Pedro Alonso), trazendo maiores misoginia, agressividade e sociopatia. Porém, com o plano em prática, acaba perdendo espaço quando o roteiro decide dar atenção aos já conhecidos.

Do lado da polícia, o grande destaque fica por conta de Alicia Sierra (Najwa Nimri). Ardilosa, ousada e deliciosamente insana, a inspetora pensa à frente e se mostra uma adversária à altura para o Professor e Raquel Murillo (Itziar Ituño). Impressiona a atriz transforma uma mulher grávida numa figura tão ameaçadora. Normalmente utilizada em filmes e séries como limitador ou um ponto de vulnerabilidade, a gravidez faz de Alicia alguém ainda mais temível, quebrando qualquer ideia de docilidade que uma mãe pode transparecer.

(Palermo e Alicia são boas novidades na série / Imagens: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley)

Algumas mudanças bem-vindas alteram a dinâmica dentre os protagonistas. O Professor já não tem tanto controle – seja pela adversária ou pela urgência em pôr o plano em prática –; Nairóbi ganha mais espaço – e Alba Flores é uma atriz muito carismática –; Denver (Jaime Lorente), Mônica (Esther Acebo), Helsinque (Darko Peric ) e Raquel estão operacionais; Rio é pouco usado; e Tóquio é inteligentemente contida pelos roteiristas.

Úrsula Corberó confunde constantemente imposição com histeria, berrando ou reagindo feito mimada. Corresponde bem quando é agressiva, mas é terrível na tentativa de ser sexy. A atriz usa os mesmos trejeitos para transmitir sensualidade e inquietude: baixa um pouco a cabeça e olha para cima.

Sobre os roteiros, é preciso parabenizar a maneira inteligente de reaproveitar Berlim. Com a ideia do roubo ser concebida por ele anos antes, sua presença em diversos flashbacks soa coerente. Pedro Alonso é um ator tão competente e carismático que consegue transformar um homem asqueroso numa figura empática. Ambiguidade maravilhosa que vem da atuação charmosa.

Mas, de todos os acertos, me agrada muito o peso dado à ideia de resistência. Anteriormente, o “combate ao Sistema” parecia um discurso raso e mal elaborado, uma maneira de manipular a audiência como se os produtores tivessem receio de fazer o público criar identificação com figuras moralmente questionáveis.

Embora o Professor tenha dito o quanto o Estado enriquece os bancos e a população vive com dificuldade, nenhuma das ações vistas em tela corroborou seu discurso. Jamais foi mostrado uma intenção de partilha, de ajudar outros necessitados. E se a vida de cada um dos oito integrantes é motivação suficiente para justificar a criminalidade, não vemos isso ser determinante para a ideologia.

(O Professor e a icônica máscara de Dali, símbolos da resistência em La Casa de Papel (Imagem: Captura de Tela)

Em nenhum instante pareceu que o grupo fora recrutado por suas vidas sofridas, apenas por seus talentos. Logo, La Casa de Papel tentou vender uma retidão ideológica que jamais se sustentou. Não existiu vingança ao que o Sistema causou – sequer sabemos o que ele fez por merecer –, tão pouco um autêntico Robin Hood, apenas um filho que quer vingar o pai morto – que era ladrão – liderando outros criminosos em benefício próprio.

Porém, nessa parte 3, isso é mudado satisfatoriamente. Com Rio preso e sendo torturado, a resistência se faz quando a equipe se recusa a aceitar tamanha barbaridade; quando usa o dinheiro roubado do próprio Sistema para combatê-lo; quando dá parte da grana à sociedade – seja soltando 140 milhões de euros no ar, para camuflar a chegada ao alvo, ou entregando em mãos aos que ajudaram o plano de alguma maneira.

E, dessa vez, a relação entre população e mascarados é palpável. Diversas pessoas protestando diante do Banco da Espanha e confrontando as forças armadas. Também somos apresentados a reações de pessoas em todo o mundo, sensibilizadas pela representação do rouba à Casa da Moeda.

 Além disso, o discurso de empoderamento feminino é ainda mais firme, resistência ao citado patriarcado. Embora eu não goste de Tóquio, não dá para negar a força de sua representatividade. Uma mulher completamente livre e autossuficiente, que não baixa a cabeça para ninguém. Tal qual Nairóbi, que eleva a voz sempre que ouve algum absurdo machista, mostrando intolerância aos intolerantes.

La Casa de Papel – Parte 3 se aproveita do menor número de capítulos e entrega um produto mais eficiente. Levanta de fato a bandeira da resistência com maturidade e funciona como um entretenimento instigante. Facilmente, para mim, a melhor das partes até o momento.

Nota 8,5/10

OBS: Segue a interpretação de Pedro Alonso da música de abertura da série, presente nos créditos finais do último episódio.

19/07/2019 19:48

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Fotos: Divulgação

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Por João Victor Wanderley

Escrita por Cazuza e lançada em 1988, O Tempo Não Para traz a emblemática frase citada no título desse texto. Pode-se interpretar que “Eu vejo o futuro repetir o passado” refere-se à sociedade brasileira e à interrupção de sua evolução social, não faz sentido parecer moderno e propagar conceitos e costumes ultrapassados.

Obviamente não há relação entre a obra do poeta e o novo lançamento da Disney, mas me permito essa associação uma vez que a referida frase ecoou em minha cabeça após o término da sessão de O Rei Leão (The Lion King, 2019). Não que eu ache a mensagem ultrapassada, mas faltou um frescor que justificasse a existência do remake.

Após ser apresentado na Pedra do Reino como o futuro sucessor de seu pai, o rei Mufasa, Simba precisa aprender as responsabilidades reais, lidar com o amadurecimento e com seu ambicioso tio Scar, que almeja o trono.

Desde que começou a adaptar suas animações clássicas com atores reais, a Disney tem adotado mais sobriedade, maior proximidade com nossa realidade, e o diretor Jon Favreau transmite isso com sucesso aqui. Apesar de ainda ser uma animação, o nível de realismo da computação gráfica nos permite compreender como seria O Rei Leão caso filmado com bichos de verdade.

Logo, o grande mérito é o visual arrebatador. Os efeitos beiram à perfeição, salvo alguns poucos momentos que denunciam a virtualidade – como, eventualmente, a textura borrachuda de Zazu ou o tom de cinza do Pumba, que destoa do colorido encantador de onde vive. Antílopes, elefantes, suricatos e os próprios leões são completamente convincentes.

Sob o olhar de Caleb Deschanel, a fotografia equilibra bem a utilização da luz, seja no nascer do sol maravilhoso, na cor viva do ambiente ou em passagens menores, como na curta cena onde Rafiki é iluminado por vagalumes.

(Imagem: Capturas de Tela / Montagem: João Victor Wanderley)

Outra escolha que reforça a postura mais realista adotada aqui é o afastamento da atmosfera espetaculosa da obra original. Os animais não trazem as expressões humanas, agora se portam como bichos. Isso afeta, por exemplo, os números musicais, que se tornam mais acanhados. A sequência em que Scar canta para as hienas ilustra a sobriedade do projeto, sendo executada com mais objetividade e lógica dentro do universo proposto.

Porém, nada disso justifica a existência desse remake. Alimentar franquias e reviver filmes já estabelecidos é o caminho mais rápido para os estúdios lucrarem, principalmente quando resgatam obras consolidadas – a nostalgia dos fãs sempre será um atrativo mercadológico. Refilmagens noutra época não deveriam se sustentar apenas no imaginário coletivo e oferecer outros olhares.

É necessário ter acréscimo à história, complementar o material referenciado, algo realizado por Aladdin (2019) em sua nova abordagem de Jasmine, por exemplo. É preciso também encontrar a própria identidade e sair da sombra do material original, funcionar por si só. Isso não acontece, já que a atual versão é exatamente igual à anterior. São os mesmos discursos, os mesmos acontecimentos, na mesma ordem e da mesma forma, trazendo de novo apenas a tecnológica e o tom mais sério.

Analisando essa realidade pretendida, destaca-se um distanciamento emocional em relação ao potencial já conhecido da trama. Embora o número musical de Scar funcione bem dentro da proposta, os demais parecem engessados pelos limites autoimpostos. A liberdade artística no filme de 1994 permitia números imponentes, coloridos, envolventes; agora, mesmo sendo correta a abordagem, perde força e impacto, os números são apáticos.

As músicas ainda carregam acordes de grandiosidade que destoam das sequências nada inspiradas de “dança”, como quando Simba canta sobre ser rei: música demais para quase nada de coreografia. Talvez até fosse o caso de evitar fazer um novo musical, mas não entrarei nesse mérito. Não cabe a mim dizer o que um filme deveria ou poderia ser.

(Cena da Debandada / Imagem: Captura de Tela)

A sobriedade interfere também na carga dramática. Se os protagonistas não se parecem com humanos, não reagem como tal. Isso não é um problema por si, mas afeta diretamente momentos marcantes como a icônica cena de Mufasa, que empalidece pelo comportamento animal ser mais distante do nosso. Uma coerência que põe a frieza da lógica acima do calor emocional.

Já a abertura ao som de Circle of Life e a debandada são prejudicadas por acontecerem com o máximo de fidelidade. Se antes marcaram pelo vigor e pela representatividade narrativa, hoje impressionam muito mais pela similaridade com o real.

Muitos fãs poderão ter uma experiência mais emotiva que a minha, o que – em palpite – atribuo à memória afetiva que boa parte do público traz para o novo filme. Isso me faz perceber como os maiores méritos desta versão vêm, na verdade, da primeira. Sejam as cenas que reaproveitam a magistral trilha de Hans Zimmer, a ideia de ciclo, a relação paternal forte ou a figura onipresente de Mufasa, as melhores coisas que estão aqui vieram diretamente de 1994, “um museu de grandes novidades”.

A construção das personagens é boa. Se o primeiro Simba sempre me pareceu irritante, sem saber separar pretensão de egoísmo, o segundo me é bem mais palatável. Sai a arrogância e fica o deslumbre de um príncipe afobado. Vi com a dublagem original e gosto bastante dos trabalhos de JD McCrary e Donald Glover, que vivem, respectivamente, o protagonista em suas fases infantil e adulta.

Mufasa repete a áurea imponente e edificante do rei justo, reforçada pelo retorno de James Earl Jones na dublagem e pelos enquadramentos onde trazem o leão quase sempre bem iluminado, conferindo um brilho enobrecedor. Scar é uma figura menos cínica e com o desrespeito mais evidente. A voz de Chiwetel Ejiofor parece não encaixar com a figura projetada na tela, mesmo com o ator desempenhando uma boa atuação.

Mas os melhores trabalhos vocais ficam a cargo de Billy Eichner e Seth Rogen como os hilários Timão e Pumba. A dupla tem ótimo timing cômico, mandando piadas com naturalidade, além de apresentarem boa química juntos. Disparados o ponto mais eficiente do projeto. Destaco ainda Alfre Woodard como Sarabi – deveria ter mais tempo de tela – e Beyoncé como Nala, que empresta uma voz doce e aconchegante.

O Rei Leão entretém, evoca a nostalgia e encanta visualmente, mas é um eco de sua própria referência. Enquanto a obra inspiradora segue imortal, a nova é efêmera, sobrevivendo até pouco depois dos créditos finais. Se coloca como escapismo passageiro por se limitar a replicar algo sem trazer nada diferente, mas, paradoxalmente, se beneficia por ser fiel a um material excelente, capaz de nos manter minimamente interessados. Se Cazuza cantou que o Tempo Não Para, a Disney mostrou como é possível parar no tempo.

Nota 7/10

18/07/2019 05:00

Adaptação de O Rei Leão chega à Natal; veja a programação!

Fotos: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley

Adaptação de O Rei Leão chega à Natal; veja a programação!

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 18 a 24 de julho:

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Amor à Segunda Vista (Mon Inconnue, 2019): Do dia para a noite, Raphael (François Civil) acorda em um universo paralelo onde nunca conheceu Olivia (Joséphine Japy), o amor da sua vida. Agora ele precisa reconquistar a sua esposa, mesmo sendo um completo estranho para ela. Enquanto Raphael tenta entender exatamente o que aconteceu, corre contra o tempo para não perdê-la. (12 anos, 117 minutos).

(Imagens: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley)

Continuam em cartaz:

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

16/07/2019 18:09

Confira os indicados ao Emmy Awards 2019

Fotos: Divulgação

Confira os indicados ao Emmy Awards 2019

Principal premiação da televisão americana, o Emmy anunciou nesta terça-feira (16/07) os candidatos ao prêmio da cerimônia esse ano. O anúncio foi realizado pelos atores Ken Jeong, da série Community (2009 – 2015), e D'Arcy Carden, de The Good Place.

A cerimônia acontecerá em 22 de setembro. Confira abaixo os indicados nas principais categorias.

 

Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama

  • Gwendoline Christie - Game of Thrones
  • Lena Headey - Game of Thrones
  • Fiona Shaw - Killing Eve
  • Maisie Williams - Game of Thrones
  • Sophie Turner - Game of Thrones
  • Julia Garner - Ozark

Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama

  • Alfie Allen - Game of Thrones
  • Peter Dinklage - Game of Thrones
  • Nikolaj Coster-Waldau - Game of Thrones
  • Jonathan Banks - Better Call Saul
  • Giancarlo Esposito - Better Call Saul
  • Michael Kelly - House of Cards
  • Chris Sullivan - This Is Us

Melhor Atriz em Série de Drama

  • Emilia Clarke - Game of thrones
  • Jodie Comer - Killing Eve
  • Viola Davis - How To Get Away With Murder
  • Laura Linney - Ozark
  • Mandy Moore - This is Us
  • Sandra Oh - Killing Eve
  • Robin Wright - House of Cards

Melhor Ator em Série de Drama

  • Jason Bateman - Ozark
  • Sterling K. Brown - This is Us
  • Kit Harington - Game of Thrones
  • Bob Odenkirk - Better Call Saul
  • Billy Porter - Pose
  • Milo Ventimiglia - This is Us

Melhor Série de Drama

  • Better Call Saul
  • Bodyguard
  • Game of Thrones
  • Killing Eve
  • Ozark
  • Pose
  • Succession
  • This is Us

(Imagem: Divulgação)

Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia

  • Henry Winkler - Barry
  • Tony Shalhoub - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Alan Arkin - O Método Kominsky
  • Tony Hale - Veep
  • Stephen Root - Barry
  • Anthony Carrigan - Barry

Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Comédia

  • Kate McKinnon - Saturday Night Live
  • Alex Borstein - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Anna Chlumsky - Veep
  • Betty Gilpin - GLOW
  • Marin Hinkle - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Sarah Goldberg - Barry
  • Olivia Colman - Fleabag
  • Sian Clifford – Fleabag

Melhor Ator em Série de Comédia

  • Anthony Anderson - Black-ish
  • Don Cheadle - Black Monday
  • Ted Danson - The Good Place
  • Michael Douglas - O Método Kominsky
  • Bill Hader - Barry
  • Eugene Levy - Schitt's Creek

Melhor Atriz em Série de Comédia

  • Christina Applegate - Dead To Me
  • Rachel Brosnahan - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Julia Louis-Dreyfus - Veep
  • Natasha Lyonne - Boneca Russa
  • Catherine Ohara - Schitt's Creek
  • Phoebe Waller-Bridge - Fleabag

Melhor Série de Comédia

  • Barry
  • Fleabag
  • The Good Place
  • The Marvelous Mrs. Maisel
  • Boneca Russa
  • Veep
  • Schitt's Creek

(Imagem: Divulgação)

Melhor Programa de Variedades

  • The Daily Show with Trevor Noah
  • Full Frontal with Samantha Bee
  • Jimmy Kimmel Live!
  • Last Week Tonight with John Oliver
  • The Late Late Show with James Corden
  • The Late Show with Stephen Colbert

Melhor Reality Show de Competição

  • The Amazing Race
  • Ninja Warrior
  • Nailed It!
  • RuPaul's Drag Race
  • Top Chef
  • The Voice

Melhor Filme Para TV

  • Bandersnatch - Black Mirror
  • Brexit
  • DeadWood
  • Rei Lear
  • My Dinner with Hervé

Melhor Atriz em Série Limitada ou Filme Para TV

  • Amy Adams - Objetos Cortantes
  • Patricia Arquette - Escape at Dannemora
  • Aunjanue Ellis - Olhos que Condenam
  • Joey King - The Act
  • Niecy Nash - Olhos que Condenam
  • Michelle Williams - Fosse/Verdon

Melhor ator em série limitada ou filme para TV

  • Mahershala Ali - True Detective
  • Benicio del Toro - Escape at Dannemora
  • Hugh Grant - A Very English Scandal
  • Jared Harris - Chernobyl
  • Jharrel Jerome - Olhos que Condenam
  • Sam Rockwell - Fosse/Verdon

Melhor Minissérie

  • Chernobyl
  • Escape at Dannemora
  • Fosse/Verdon
  • Objetos Cortantes
  • Olhos que Condenam

(Imagem: Divulgação)

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