Plano Detalhe

O Iluminado: clássico resiste ao tempo

Fotos: Warner Bros.

O Iluminado: clássico resiste ao tempo

Por João Victor Wanderley

Doutor Sono estreia hoje em todo Brasil. Baseado na obra literária homônima de Stephen King, lançada em 2013, é continuação de O Iluminado (The Shining, 1980), feita pelo icônico Stanley Kubrick ao adaptar outro livro de King. Assim, é mais do que oportuno revisitar o clássico cinematográfico – ou, no meu caso, quitar a vergonhosa dívida que tinha comigo mesmo por nunca ter assistido ao filme de Kubrick.

Jack Torrance (Jack Nicholson) aceita ser responsável pelo Hotel Overloock durante o inverno, quando o estabelecimento fecha por cinco meses. Apenas acompanhado da esposa Wendy (Shelley Duvall) e do filho Danny (Danny Lloyd), Jack vê o trabalho como oportunidade para escrever seu tão desejado romance. Porém, a estadia se torna cada vez mais assustadora à medida que o inverno os isola.

O cinema de terror se popularizou muito com o passar dos anos ao abraçar os Jump Scares, técnica que consiste em assustar o espectador com elementos que surgem do nada ou são atiradas em direção à câmera. Embora as obras que se sustentem desse recurso não sejam vistas com bons olhos por parte da crítica especializada, não dá para negar o apreço que provoca no público.

Apesar de cumprirem suas propostas, os filmes que se apoiam exclusivamente na técnica limitam o gênero à sensações passageiras. Quando os revisitamos, o conhecimento prévio do que estar por vir interfere na experiência. Isso dificulta que produções como as da franquia Atividade Paranormal (2007), as derivadas da boneca Annabelle (2014) e a recente It - Capítulo 2 (2019), por exemplo, se tornem eficientes a longo prazo.

O que faz de O Iluminado ainda impactante hoje em dia é a opção por se agarrar ao atmosférico. Sem recorrer a sustos tolos, Kubrick trabalha o espectador por meio de um elemento muito mais marcante: a apreensão. E como ele faz isso? Através da construção e quebra de expectativa.

(Jack Nicholson como Jack Torrance, em seu declínio mental / Imagem: Warner Bros.)

Escrito pelo próprio cineasta, em parceria com Diane Johnson, o roteiro apresenta o contexto da trama já no início, quando Jack vai ao hotel para uma última entrevista. Lá, somos informados sobre como o estabelecimento fica isolado no inverno e sobre o surto que atingiu o responsável anterior.

Simultaneamente, na casa do protagonista, outros elementos são introduzidos: Danny demonstra uma “amizade imaginária” que lhe permite perturbadora capacidade premonitória; já Wendy, conversando com a médica que foi ver a criança, confessa que o marido tem um passado agressivo por causa de alcoolismo. Em poucos minutos, ficamos cientes de onde o filme quer chegar, nos restando aguardar o caminho a ser trilhado.

Logo no início de Lisbela e o Prisioneiro (2003), durante uma sessão de cinema, a personagem-título (Débora Falabella) diz: “A graça não é saber O QUE acontece. É saber COMO acontece e QUANDO acontece”. É óbvio que o conteúdo é sempre relevante e saber previamente pode prejudicar a experiência. Mas, em alguns casos, a jornada, de fato, é mais importante. O Iluminado é um desses.

A partir do momento em que sabemos exatamente aonde a trama pretende ir, ficamos apreensivos para ver como isso acontecerá, distorcendo a calmaria do que foi introduzido inicialmente. E a obra cria tensão e agonia ao prometer o que não se cumpre logo de cara.

Desde que a família fica sozinha e coisas estranhas acontecem, a gente se preparar para algo impactante. Aí o filme vai, vai, VAI... mas não chega! Kubrick é extremamente hábil no suspense, dilatando o que antecede o terror sem torna-lo maçante ou desinteressante. Ele constrói sua atmosfera sem pressa.

(A câmera que persegue Danny está sempre passos atrás, gerando expectativas / Imagem: Warner Bros.)

Aos poucos, vemos Jack perder a paciência e a sanidade; Danny vai tendo experiências desagradáveis à medida que o sobrenatural entra em contato e suas premonições se intensificam, mesmo que não compreendamos se são mensagens metafóricas do que está por vir ou se acontecerão daquela forma mostrada; a neve e a solidão do isolamento também pontuam essa evolução psicológica das personagens.

A tensão dilatada é acentuada através de som e da imagem. A ótima trilha sonora de Wendy Carlos e Rachel Elkind é deliciosamente incômoda, fantasmagórica, repleta de sussurros que se adaptam perfeitamente aos cenários. Cada passeio de Danny em seu triciclo é uma aflição à parte, isso porque a câmera o acompanha sempre alguns passos atrás. Cada corredor que surge e cada curva para um novo local são sucedidos por segundos preciosos de atraso até que a câmera chegue no garoto. E nesses segundos em que alimentamos a esperança de algo assustador, nada acontece. Até que...

Quando entramos de fato no clímax da trama, toda a expectativa quebrada vale a pena. Valorizamos verdadeiramente as situações de desespero. Cada grito, investida e interação com o sobrenatural ganha peso por não terem sido banalizados. E o sobrenatural é administrado com talento ao provocar dúvidas se o que estamos vendo é mesmo a verdade ou se trata de delírios das personagens.

A vastidão dos cenários é bem utilizada. A câmera flutuante, além de empregar ritmo com movimentos fluidos, valoriza a imponência do local ao se colocar, muitas vezes, mais próxima do chão e ao esbanjar planos abertos. A fotografia de John Alcott também consegue extrair claustrofobia de alguns ambientes mais apertados, como o quarto em que a família dorme e, principalmente, o banheiro da icônica cena do machado.

Em conjunto com a direção de arte de Leslie Tomkins, transforma o hotel em personagem cuja vida é traduzida nas cores muito bem definidas. Diversos aposentos trazem tonalidades de verde, laranja, azul e vermelho. O vermelho, aliás, está quase sempre presente nos figurinos de Danny e Wendy, como quem chama atenção para o perigo que eles irão correr.

(A direção e arte aposta em cores bem definidas para dar vida, e no vermelho para criar alerta / Imagens: Warner Bros.)

Porém, o ponto fraco da produção reside em duas atuações. Jack Nicholson é um monstro e entrega mais um trabalho firme e intenso. Embora exagere em alguns momentos, pesando a mão em certas reações, ele é impecável quando precisa realmente demonstrar descontrole. O mesmo não pode ser dito das fraquíssimas aparições de Danny Lloyd e Shelley Duvall.

Lloyd, em seu primeiro papel, demonstra ter decorado as falas, não passa convicção no que diz. Suas expressões de medo também não convencem. O recurso de mudar o tom de voz quando encarna o amigo imaginário é artificial e incômodo. Entretanto, dá pra relevar algumas coisas por se tratar de um papel difícil, sem falar que é a montagem de Ray Lovejoy que coloca o pequeno Danny nas situações mais assustadoras.

Reparem como ele jamais aparece no centro das cenas mais forte... Suas expressões são acrescentadas na montagem a partir da ideia de ação e reação: mostra o que deve assustar e corta para o garoto. Esse recurso supre a ausência do jovem ator nas passagens mais intensas, provavelmente colocado em outro ponto do set como medida de proteção, mas interfere diretamente em sua interpretação ao obriga-lo a reagir às coisas não vistas.

Já Duvall é um caso sem escapatória. A atriz passa uma imagem de fragilidade através de sua figura contida e muito magra, que atende bem à demanda da personagem. Mas quando precisa atuar, ela não se mostra preparada. A maneira como verbaliza seu texto não provoca reações, não convence quando é exigida em cenas mais fortes. Ao menos sua expressão de pavor e seus gritos funcionam.

O Iluminado sobreviveu muito bem aos anos. Sua maneira de quebrar expectativas e de entregar o esperado no momento exato nos prende à cadeira e provoca apreensão. Um terror muito mais eficiente que boa parte do que chega às telonas hoje. Vi o filme pela primeira vez recentemente e saí mexido, o que mostra a qualidade artística do projeto. Um bom terror é muito mais do que meros sustos...

Nota 8,5/10

Continuação do clássico O Iluminado chega aos cinemas; veja a programação

Fotos: Divulgação

Continuação do clássico O Iluminado chega aos cinemas; veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal entre 7 e 13 de novembro:


Estreias

Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019): Na infância, Danny Torrance conseguiu sobreviver a uma tentativa de homicídio por parte do pai, um escritor perturbado por espíritos malignos. Danny cresceu, agora ele é um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, se estabelece em uma pequena cidade onde consegue um emprego no hospício local e cria um vínculo telepático com uma menina, paciente da instituição.

(16 anos, 151 minutos)

Cadê Você, Bernadette? (Where´d You Go, Bernadette, 2019): Quem nunca sentiu vontade ligar o modo avião e sumir do mapa? Quando a vida de Bernadette (Cate Blanchett) começou a parecer sem rumo, ela resolveu fugir da sua zona de conforto e desaparecer misteriosamente, deixando tudo para trás. Agora, Bee (Emma Nelson), sua filha, precisará juntar todas as pistas para descobrir onde foi parar essa mulher que imaginava conhecer tão bem, mas que se transformou em um verdadeiro ponto de interrogação.

(14 Anos, 109 minutos)

Parasita (Gisaengchung, 2019): Todos os quatro membros da família Kim estão desempregados. Porém, uma obra do acaso faz com que o filho adolescente comece a dar aulas privadas de inglês à rica família Park. Fascinados com o estilo de vida luxuoso, os quatro bolam um plano para se infiltrar nos afazeres da casa burguesa. É o início de uma série de acontecimentos incontroláveis dos quais ninguém sairá ileso.

(16 anos, 132 minutos)

Meu Amigo Fela (2019): Uma nova perspectiva sobre o músico nigeriano Fela Kuti, a fim de contrapor a narrativa mais frequentemente retratada: como um excêntrico ídolo pop africano do gueto. No filme, a complexidade da vida de Fela é desvendada através dos olhos e conversas de seu amigo íntimo e biógrafo oficial, o afro-cubano Carlos Moore.

(14 anos, 94 minutos)

A Tabacaria (Der Trafikant, 2018): Franz é um rapaz de 17 anos que chega a Viena para trabalhar como aprendiz em uma tabacaria. Ali, ele conhece Sigmund Freud, um cliente frequente. Com o passar do tempo, os dois, apesar de origens muito distintas, desenvolvem uma amizade única. Quando Franz se apaixona perdidamente pela dançarina Anezka, ele busca os conselhos de seu amigo Sigmund, que, apesar de ser um renomado psicanalista, admite que o sexo feminino é um grande mistério para ele em termos românticos. A tensão política e social aumenta dramaticamente na Áustria, piorando com a chegada dos nazistas à capital. Franz, Sigmund e Anezka se perdem no meio do caos da cidade e cada um terá uma decisão difícil para tomar: ficar ou fugir de Viena?

(16 anos, 117 minutos)

André Rieu - Vamos Dançar?: Os concertos anuais de André Rieu em Maastricht, a sua cidade natal, atraem fãs de todos os cantos do mundo. A praça da cidade medieval é transformada num cenário espetacular para um concerto inesquecível cheio de humor, diversão e emoção para todas as idades – e, claro, com músicas magníficas! Especialmente neste ano, o maestro vai trazer a valsa à tona numa noite inesquecível de música e dança. As noites de verão são feitas para dançar, e esta é uma festa que não vai querer perder!

O espetáculo acontece em sessão única no dia 7 de novembro e será exibido pelo Cinépolis Natal Shopping às 20h00.

(Livre, 173 minutos)

Link Perdido (Missing Link, 2019): As lendas falam de uma espécie perdida, um elo entre os homens e feras. Há séculos ele se esconde, mas, finalmente, resolveu fazer contato e está pronto para ser encontrado. Conheça o Senhor Link, uma criatura enorme, de 2,5 metros e 300 kg, ou melhor, 280. Ele precisa chegar ao “outro lado do mundo” para encontrar seus primos e, nessa incrível jornada, contará com a ajuda de seu novo amigo, Sir Lionel Frost.

(10 anos, 93 minutos)

A História de Um Sonho - Todas as Casas do Timão (2018): A torcida Corinthiana, afamada por sua paixão sem limites que invade corações e territórios, tem por tradição fazer de qualquer lugar do planeta a sua morada. Do Oiapoque ao Chuí, no Brasil ou no Japão, “A Fiel” joga junto! Com a participação de jogadores, ídolos, comissão técnica, e torcedores “A História de um Sonho” traça a saga do Sport Clube Corinthians Paulista desde sua origem no terrão da várzea, passando pelos estádios em que fez história, como Maracanã, Morumbi, o então Palestra Itália, Vila Belmiro e Yokohama (entre outros), até a inauguração de uma das arenas mais modernas do mundo.

(Livre, 85 minutos)

Bate Coração (2019): Sandro é um homem conquistador e preconceituoso, acostumado a uma vida de luxo. Quando sofre um ataque cardíaco, precisa, urgentemente, de um coração novo e recebe o transplante da travesti Isadora, recém-falecida devido a um acidente. Enquanto se recupera e tenta conquistar a médica que realizou a cirurgia, Sandro precisa repensar o seu preconceito.

(12 anos, 94 minutos)


Continuam em cartaz

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio (Terminator - Dark Fate, 2019): 27 anos após os eventos de O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final, um novo e modificado Exterminador de metal líquido (Gabriel Luna) é enviado do futuro pela Skynet para exterminar Dani Ramos (Natalia Reyes), uma híbrida de ciborgue com humana (Mackenzie Davis) e seus amigos. Sarah Connor (Linda Hamilton) vai a seu auxílio, assim como o Exterminador original (Arnold Schwarzenegger), em uma luta pelo futuro

(14 anos, 128 minutos)

A Família Addams (The Addams Family, 2019): Prepare-se para estalar os dedos! A Família Addams está de volta às telonas na primeira animação de comédia sobre o clã mais excêntrico do pedaço. Engraçada, estranha e completamente icônica, a Família Addams redefine o que significa ser um bom vizinho.

(Livre, 86 minutos)

Maria do Caritó (2019): Cansada da vida solitária que leva, Maria (Lilia Cabral) sonha em encontrar um verdadeiro amor. Prometida pelo pai para ser entregue virgem a São Djalminha, um santo de quem ninguém nunca ouviu falar, só mesmo um milagre poderia ajudar. A única certeza que Maria tem é que, custe o que custar, ela precisa desencalhar e sair de uma vez desse Caritó.

(12 anos, 94 minutos)

Zumbilândia - Atire Duas Vezes (Zombieland 2 - Double Tap, 2019): Anos depois de se unirem para atravessar o início da epidemia zumbi nos Estados Unidos, Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) seguem buscando novos lugares para habitação e sobrevivência. Quando decidem ir até a Casa Branca, acabam encontrando outros sobreviventes e percebem que novos rumos podem ser explorados.

(16 anos, 99 minutos)

Malévola - Dona do Mal (Maleficent - Mistress of Evil, 2019): Na sequência do sucesso de bilheteria global de 2014, Malévola e sua afilhada Aurora começam a questionar os complexos laços familiares que as prendem, à medida que são puxadas em direções diferentes por casamentos, aliados inesperados e novas forças sombrias.

(10 anos, 118 minutos)

Coringa (Joker, 2019): Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante.

(16 anos, 121 minutos)


Programação especial e Pré-vendas Cinépolis

Final Mundial de League of Legends - 2019: No próximo dia 10 de novembro, as 9 horas da manhã, acontece em Paris a Final do Mundial de League of Legends. É a nona edição do torneio que define qual o melhor time de LoL do mundo. A decisão do torneio, que começou no dia 2 do mês passado e passou pela Alemanha e Espanha antes de chegar a França, será em uma série melhor de 5.

A final será transmitida pelo Cinépolis Natal Shopping. Os ingressos estão à venda

Pré-Venda Roberto Carlos em Jerusalém: Roberto Carlos, que está comemorando 60 anos de carreira, lança nos cinemas sua apresentação em Jerusalém. Com direção de Jayme Monjardim, o show gravado na Terra Santa é um espetáculo de amor, devoção e muitas emoções!

Roberto Carlos em Jerusalém será exibido no dia 2 de dezembro, às 21h30, tanto no Cinépolis Natal Shopping quanto no Cinépolis Partage Norte Shopping Natal. Os ingressos já estão à venda.

Pré-venda Star Wars - A Ascensão Skywalker (Star Wars - The Rise of Skywalker, 2019): Mais uma vez, os espectadores serão levados numa jornada épica em uma galáxia muito, muito distante. Na fascinante conclusão da saga Skywalker, novas lendas nascerão e a batalha final pela liberdade ainda está por vir.

A pré-estreia do filme acontece no dia 18 de dezembro e será exibida pelo Cinépolis Natal Shopping e pelo Cinépolis Partage Norte Shopping Natal.

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas.

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio: franquia retorna às origens

Fotos: Fox Film

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio: franquia retorna às origens

Por João Victor Wanderley

Pode-se dizer que James Cameron nasceu para Hollywood em 1984 com seu corajoso O Exterminador do Futuro. Até então responsável apenas pelo terrível Piranhas 2 - Assassinas Voadoras (1981), ele transformou uma mistura de Sci-fi, ação e Slasher, de baixíssimo orçamento, num fenômeno de bilheteria. A obra, que custou menos de 7 milhões de dólares, faturou mais de 78 milhões em tono do mundo.

O capítulo seguinte, O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (1991) se firmou como o ápice da franquia em formação, mas também marcou o afastamento do cineasta das continuações. Coincidência ou não, as sequências foram bastante controversas... Agora em 2019, Cameron retorna – como produtor – para devolver a série ao caminho interrompido em 1991.

Em O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio (Terminator - Dark Fate, 2019), Grace (Mackenzie Davis) é uma humana tecnologicamente aprimorada que vem do futuro para impedir que um Rev-9 (Gabriel Luna), máquina de última geração também vinda do futuro, mate Daniella Ramos (Natalia Reyes). Para isso, ela contará com a ajuda da lendária Sarah Connor (Linda Hamilton).

A franquia iniciada em 1984 centrava na personagem de Sarah. O modelo T-800 (Arnold Schwarzenegger) havia sido enviado ao passado para eliminá-la antes dela se tornar mãe de John Connor, homem que lideraria a resistência contra as máquinas que dominariam o mundo no futuro. No filme seguinte, a intensão era matar John (Edward Furlong) ainda adolescente.

A partir daí, o que sucedeu foram tentativas de expandir o universo proposto, com capítulos preocupados em mostrar o crescimento da Skynet, a humanidade já dominada e até mesmo uma linha temporal alternativa, jogada para reiniciar a série cinematográfica sem apagar o que ocorreu até então. Só que tais tentativas de expansão não foram bem recebidas por público e crítica.

(Mackenzie Davis foi ótima adição à franquia / Imagem: Fox Film)

Particularmente, nunca achei a franquia mais do que puro entretenimento, talvez isso tenha adoçando minha experiência ao longo dos anos. Afinal, nunca achei nenhum filme descartável – me reservo o benefício da dúvida, já que faz muito tempo que os assisti e, hoje, poderia mudar de opinião.

De qualquer forma, Destino Sombrio se assume como continuação e reboot. A presença de Sarah Connor liga os dois episódios iniciais ao recente, ignorando o que há no meio. Isso joga o novo projeto de volta às origens, o que é positivo e negativo ao mesmo tempo.

Se, por um lado, estamos novamente no jogo de caça e caçador, onde uma mulher indefesa é o objeto de desejo de um assassino impiedoso, por outro, vemos a história já contada diversas vezes. A sensação de déjà vu é, paradoxalmente, reconfortante e incômoda. O que nos entrega ao já conhecido é, justamente, a falta de criatividade.

O roteiro de David S. Goyer, Justin Rhodes e Billy Ray faz de Rev-9 uma reciclagem do icônico T-1000 (Robert Patrick), o inesquecível exterminador de metal líquido de O Julgamento Final. O novo vilão é de um material diferente, mas que funciona com a mesma lógica. Além disso, se entrega a algumas facilitações narrativas ao resolver alguns impasses, como a explicação para as mensagens que chegam para Sarah ou a solução para resolver o obstáculo do ato final.

Mas o roteiro também traz acertos. O México é inserido sem a visão distorcida que Rambo - Até o Fim (2019) traz, por exemplo. Aqui, há uma inversão positiva de valores, com uma pessoa realmente importante para o futuro da humanidade não sendo dos Estados Unidos, sendo de um país comumente tratado em Hollywood como um reduto de tráfico e criminalidade.

(Gabriel Luna é Rev-9, um exterminador bem similar ao T-1000 / Imagem: Fox Film)

O segundo é a consciência de um exemplar de gênero e jamais tentar ser o que não é. Não existe intensão de ser profundo ou reflexivo, tudo o que é apresentado em cena serve ao propósito de entreter, gerar ação impactante e de referenciar os próprios ícones. Ao abraçar a simplicidade narrativa, não dá brechas para esperar da obra mais do que ela tem a oferecer, o que se torna uma boa escolha.

Com um enredo talhado para a ação, cabe aos atores se adequarem à proposta. Mackenzie Davis apresenta vigor físico impressionante que a permite estar, sempre que possível, nas coreografias de luta. Ela entrega ímpeto e energia completamente adequados à personagem, além de ser convincente em seu lado mais humano.

Gabriel Luna também corresponde bem na fisicalidade e incorpora algo entre o sisudo dos vilões anteriores e o adaptável da tecnologia moderna, oferecendo mais expressões faciais e carisma. Natalia Reyes tem uma transição pouco convincente entre a mulher que não compreende o seu papel para a humanidade e a que aceita sua jornada, mas isso não é culpa dela. Está muito mais atrelado ao roteiro. No que pode fazer, a atriz demonstra carisma.

Mas o ponto alto fica por conta de Linda Hamilton e Arnold Schwarzenegger. Ela retorna ao papel 28 anos após sua última aparição como Sarah Conor e parece que nunca saiu dela. Completamente à vontade e vigorosa, a atriz ainda convence como uma mulher “porradeira” e dá credibilidade ao que é visto. Ainda mais amargurada, se dedica totalmente a aniquilar todo e qualquer exterminador que chegue por perto.

 Já ele aposta no carisma que criou como o T-800 e brinca com isso. Há mais espaço para humor, que funciona, além da possibilidade de apresentar alguma camada nova em sua personalidade. É preciso citar a boa química entre ambos, ver Hamilton e Schwarzenegger juntos novamente é muito legal.

(Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton dividem a tela novamente após 28 anos / Imagem: Fox Film)

A direção do longa ficou por conta de Tim Miller, responsável por Deadpool (2016). Miller é competente ao criar sequências dinâmicas e repletas de energia. A sequência que se inicia na fábrica e se estende na estrada é forte e impressionante. Porém, algumas delas se estendem demais, passando do limite entre longa e cansativa. O maior exemplo disso é a do avião, que contempla disputa entre aeronaves, queda livre e uma represa.

A montagem oscila entre imprimir um ritmo dinâmico e ser convulsiva ao ponto de interferir na compreensão. São poucos os momentos em que a cena se torna difícil de entender quem faz o quê e para onde se movimenta, mas estão lá. O trabalho poderia ser um pouco menos agitado. Só um pouco.

O som da produção é muito rico, preocupado com diversos elementos. Porém, as constantes cenas de lutas, explosões, tiros e batidas, com o passar do tempo, transformam o rico trabalho de mixagem e dição de som em algo barulhento. Isso pode afetar a experiência. Mesmo assim, se trata de uma ótima composição sonora.

Por fim, os efeitos visuais são capazes de momentos impressionantes – quando recriam as versões de Linda Hamilton e Edward Furlong de 1991 ou a liquidez do Rev-9 – e outros bem artificiais – quando substitui os atores por suas versões digitais.

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio aposta no lugar comum, no que já deu certo no passado. Embora seja pouco inspirado, resgata o que transformou a franquia em algo marcante. Atualiza o visual, cria espaço para explorar novas ideias e ainda homenageia o que é tão especial para os fãs. Pode ser uma versão inferior dos melhores momentos da cinesérie, mas é melhor do que boa parte do que já foi entregue.

Nota 7/10


O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio está sendo exibido pela Rede Cinépolis, com sessões tanto no Cinépolis Natal Shopping quanto no Cinépolis Partage Norte Shopping Natal. Confira os horários das sessões e compre seu ingresso.

He’s Back! Novo Exterminador do Futuro chega aos cinemas; veja a programação

Fotos: Divulgação

He’s Back! Novo Exterminador do Futuro chega aos cinemas; veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal entre 31 de outubro e 6 de novembro:


Estreias

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio (Terminator - Dark Fate, 2019): 27 anos após os eventos de O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final, um novo e modificado Exterminador de metal líquido (Gabriel Luna) é enviado do futuro pela Skynet para exterminar Dani Ramos (Natalia Reyes), uma híbrida de ciborgue com humana (Mackenzie Davis) e seus amigos. Sarah Connor (Linda Hamilton) vai a seu auxílio, assim como o Exterminador original (Arnold Schwarzenegger), em uma luta pelo futuro

(14 anos, 128 minutos)

A Família Addams (The Addams Family, 2019): Prepare-se para estalar os dedos! A Família Addams está de volta às telonas na primeira animação de comédia sobre o clã mais excêntrico do pedaço. Engraçada, estranha e completamente icônica, a Família Addams redefine o que significa ser um bom vizinho.

(Livre, 86 minutos)

Papicha (2019): Argélia, anos 1990. Nedjma, uma estudante de 18 anos apaixonada por design de moda, se recusa a deixar que os trágicos acontecimentos da Guerra Civil a impeçam de experimentar uma vida normal e sair à noite com sua amiga Wassila. À medida que o clima social se torna mais conservador, ela rejeita as novas proibições impostas pelos radicais e decide lutar por sua liberdade e independência apresentando um desfile de moda.

(14 anos, 106 minutos)

Maria do Caritó (2019): Cansada da vida solitária que leva, Maria (Lilia Cabral) sonha em encontrar um verdadeiro amor. Prometida pelo pai para ser entregue virgem a São Djalminha, um santo de quem ninguém nunca ouviu falar, só mesmo um milagre poderia ajudar. A única certeza que Maria tem é que, custe o que custar, ela precisa desencalhar e sair de uma vez desse Caritó.

(12 anos, 94 minutos)


Continuam em cartaz

Zumbilândia - Atire Duas Vezes (Zombieland 2 - Double Tap, 2019): Anos depois de se unirem para atravessar o início da epidemia zumbi nos Estados Unidos, Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) seguem buscando novos lugares para habitação e sobrevivência. Quando decidem ir até a Casa Branca, acabam encontrando outros sobreviventes e percebem que novos rumos podem ser explorados.

(16 anos, 99 minutos)

Rainha de Copas (Dronningen, 2019): Anne é uma advogada do direito das crianças e dos adolescentes. Acostumada a lidar com jovens complicados, ela não tem muitas dificuldades para estreitar laços com seu enteado Gustav, filho do primeiro casamento de seu marido Peter, que acaba de se mudar para sua casa. No entanto, a relação que deveria ser paternal se torna romântica, envolvendo Anna em uma situação complexa, arriscando a estabilidade tanto de sua vida pessoal quanto profissional.

(18 anos, 127 minutos)

Malévola - Dona do Mal (Maleficent - Mistress of Evil, 2019): Na sequência do sucesso de bilheteria global de 2014, Malévola e sua afilhada Aurora começam a questionar os complexos laços familiares que as prendem, à medida que são puxadas em direções diferentes por casamentos, aliados inesperados e novas forças sombrias.

(10 anos, 118 minutos)

Coringa (Joker, 2019): Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante.

(16 anos, 121 minutos)

Ela Disse, Ele Disse (2019): Rosa (Duda Matte) é uma menina estudiosa, Leo (Marcus Bessa) manda bem no futebol. Ela é pontual, ele está sempre atrasado. Ela detesta Júlia (Maisa), a menina mais popular do colégio, ele até que gosta dela. Os dois são alunos novos na escola e, além de aprender a lidar com os novos amigos e os problemas na família, descobrem que têm muito mais em comum do que imaginavam. Baseado na obra de sucesso de Thalita Rebouças, eles vão descobrir que crescer pode parecer complicado, mas no fundo, é a maior aventura.

(12 Anos, 87 minutos).


Programação especial e Pré-vendas Cinépolis

Pré-Venda Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019): Na infância, Danny Torrance conseguiu sobreviver a uma tentativa de homicídio por parte do pai, um escritor perturbado por espíritos malignos. Danny cresceu, agora ele é um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, ele se estabelece em uma pequena cidade, onde consegue um emprego no hospício local e cria um vínculo telepático com uma menina, paciente da instituição.

Baseado na obra de Stephen King, Doutor Sono estreia nos cinemas no dia 7 de novembro, mas os ingressos já estão à venda para sessões tanto no Cinépolis Natal Shopping quanto no Cinépolis Partage Norte Shopping Natal.

Pré-Venda André Rieu - Vamos Dançar?: Os concertos anuais de André Rieu em Maastricht, a sua cidade natal, atraem fãs de todos os cantos do mundo. A praça da cidade medieval é transformada num cenário espetacular para um concerto inesquecível cheio de humor, diversão e emoção para todas as idades – e, claro, com músicas magníficas! Especialmente neste ano, o maestro vai trazer a valsa à tona numa noite inesquecível de música e dança. As noites de verão são feitas para dançar, e esta é uma festa que não vai querer perder!

O espetáculo acontece no dia 7 de novembro e será exibido pelo Cinépolis Natal Shopping em sessão única, às 20h00.

Pré-venda Star Wars - A Ascensão Skywalker (Star Wars - The Rise of Skywalker, 2019): Mais uma vez, os espectadores serão levados numa jornada épica em uma galáxia muito, muito distante. Na fascinante conclusão da saga Skywalker, novas lendas nascerão e a batalha final pela liberdade ainda está por vir.

A pré-estreia do filme acontece no dia 18 de dezembro e será exibida pelo Cinépolis Natal Shopping e pelo Cinépolis Partage Norte Shopping Natal.

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas.

Sessão Review #6

Fotos: Divulgação

Sessão Review #6

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto ou revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos das obras que ficaram de fora do blog.


A Morte Te Dá Parabéns 2 (Happy Death Day 2U, 2019)

Após ter se livrado do loop temporal no filme anterior, que a jogava novamente no dia de seu aniversário sempre que era morta por um assassino mascarado, Tree (Jessica Rothe) se vê presa novamente no fatídico dia, mas algo está diferente. Com a interferência de Ryan (Phi Vu), que também percebeu estar num loop temporal, a jovem é jogada numa realidade alternativa, mas não tem certeza se pretende corrigir tudo desta vez.

O filme dá um passo à frente ao expandir as possibilidades criadas anteriormente. Além de encontrar um desdobramento narrativo alinhado à proposta original, traz algumas preocupações palpáveis como dar à protagonista um novo dilema. Embora tenha toda uma vida em sua “dimensão natural”, essa nova realidade oferece algo emocional muito valioso para ela, e isso gera um conflito interessante.

 O humor segue ainda mais afiado, com uma morbidez bem-vinda que rende piadas inusitadas e divertidas. Outra coisa que é positiva é a maneira que a produção tem de não se levar à sério, isso permite uma autorreferência debochada que implica também em se ridicularizar e em não levar sua pseudociência como algo de grande substância. Por fim, Jessica Rothe continua muito apta a carregar a produção, mostrando ótimo timing cômico e boa capacidade dramática nas poucas cenas mais exigentes.

A Morte Te Dá Parabéns 2 é leve, descompromissado, divertido e deliciosamente absurdo. Para quem procura escapismo, é um prato cheio!

Nota 7,5/10


Entre Nós (2013)

Sete amigos escritores escrevem cartas para eles mesmos, mas essas cartas só podem ser abertas 10 anos depois. Passado período combinado, eles se reencontram e se deparam com as diversas mudanças causadas pelo tempo.

Escrito por Paulo Morelli, que dirige o filme ao lado do filho Pedro, o roteiro é bem decepcionante na construção de sua história. Filmes desse tipo dependem muito da força dos diálogos, já que a trama se passa num cenário limitado e a proposta é mesmo mostra a interação do grupo.

Logo, os diálogos precisam ser dinâmicos, inteligentes e capazes de usar os detalhes para construir as personagens através das sutilezas, das nuances. Não é o que ocorre aqui. Entre Felipe (Caio Blat), dono do arco dramático melhor desenvolvido, e Lúcia (Carolina Dieckmann), a personagem mais inexpressiva, existe um grupo de figuras a estereótipos rasteiros.

Todos são rasos, superficiais, identificados por suas características mais fortes: tem o crítico chato, a divertida magoada, o cara triste, a mulher livre e segura... O problema é que quase nada acontece para dar complexidade ao grupo, todos são apenas o que sugerem suas características mais marcantes. O filme sequer se dá o trabalho de incluir discussões ou passagens literárias, o que é estranho já que todos são escritores.

Mesmo com um elenco bom, Entre Nós é mal escrito, cansativo e desinteressante. O potencial reflexivos e de humanização é deixado de lado para que a produção se entregue às escolhas fáceis. O resultado é entediante.

Nota 4/10


Um Contratempo (Contratiempo, 2016)

Dorian (Mario Casas) é um empresário de sucesso que está sendo acusado de assassinar sua amante, Laura (Bárbara Lennie), mas ele jura ser inocente. Sua versão da história, porém, é bastante questionável.

O roteiro, assinado pelo diretor Oriol Paulo, é instigante e ambíguo. O fato de ser narrado em primeira pessoa, pelo protagonista, nos faz tentar compreender a versão contada e ter empatia. Mas também nos deixa receosos, já que apenas temos a sua versão. Fica a dúvida se estamos diante de um narrador confiável.

Algumas facilitações narrativas surgem e podem soar como falhas, mas há inteligência o suficiente aqui para reverter alguns desses “problemas” de forma coerente. Diversas reviravoltas acontecem no decorrer do filme e isso causa boas surpresas, mas também esbarra no que considero o problema mais grave da produção.

Na tentativa de surpreender, algumas escolhas parecem estar ali apenas para impactar, causar choque pelo choque. Isso tira o peso do suspense bem construído na maior parte e fica ainda mais acentuado quando uma determinada escolha é tomada, ferindo a “regra” estabelecida pela lógica daquele universo. Um momento que realmente me afasta do filme.

De qualquer forma, Um Contratempo é envolvente, ágil, bem conduzido, conta com boas atuações – principalmente de Ana Wagener –, e, acima de tudo, intrigante.

Nota 7,5/10


The Crown – 1ª Temporada (2016)

A produção original Netflix conta a história da Rainha Elizabeth II (Claire Foy). Nessa primeira temporada, acompanhamos o processo de amadurecimento da monarca e como a Coroa interfere diretamente em sua vida pessoal.

Criada por Peter Morgan, que é um roteirista experiente e de ótimos trabalhos, e com os dois primeiros episódios dirigidos pelo ótimo Stephen Daldry, a série traz uma grande parcela de problemas que, à primeira vista, podem soar artificiais: um casal irritado porquê é obrigada a morar num palácio, uma família refém de tradições milenares, um marido frustrado porque não pode fazer nada sem permissão do parlamento...

Entretanto, tudo o que parece irrelevante para um público não conectado com a realeza, na verdade, serve para humanizar uma figura socialmente inalcançável. A pessoalidade perdida diante da tradição, dos deveres e dos comportamentos que, supostamente, são esperados pelos súditos.

É forte ver como, aos poucos, o casamento de Elizabeth e Philip (Matt Smith) se torna amargo, como a Coroa está sempre entre eles e ofuscando a mulher que a carrega. Essa distância é brilhantemente mostrada nas diversas cenas onde Philip brinca com os filhos e Elizabeth apenas se reserva o direito de espioná-los, por alguns segundos, de longe, afastada por janelas ou corredores enormes. O cargo ocupado por ela a impede de ter uma vida comum e saciar vontades próprias, o que também abala sua relação com a irmã Margaret (Vanessa Kirby).

Direção de arte, figurino e maquiagem são irretocáveis, criando época com muito luxo e bom gosto. O roteiro é inteligente, repleto de diálogos fortes, nuances ricas e personagens bem construídas. Todo o elenco foi muito bem escolhido, mas o destaque é mesmo Claire Foy. É fascinante como ela consegue transformar uma pessoa “sem brilho próprio” em alguém carismático e interessante, sem falar que sua postura sempre contida, até quando está irritada, é excelente.

A primeira temporada de The Crown demorou um pouco a me prender, mas me deixou completamente imerso e interessado naquelas pessoas e em suas vidas.

Nota 9/10

O Cinema Brasileiro é mesmo ruim?

O Cinema Brasileiro é mesmo ruim?

Por João Victor Wanderley

Recentemente me deparei com um texto de Sérgio Trindade que me despertou vontade de debater, de trocar uma ideia. O texto, intitulado O Cinema Brasileiro é Ruim, trazia reflexões sobre a visão do autor em relação à pratica cinematográfica realizada aqui no país. Toda leitura que faça pensar é valorosa, concorde o leitor com ela ou não.

Desde então, fiquei com a reflexão na cabeça e senti a necessidade escrever. Discordo categoricamente do que li, mas não venho aqui rebater apenas por rebater, não se trata de medir certo ou errado. Apenas acredito que discutir sobre o tema seja realmente importante. Por isso, respeitosamente, ofereço uma ótica diferente.

“Sou crítico dos filmes nacionais porque os assisto e os acho ruins”, diz Trindade num trecho. O que me chama atenção nessa frase é justamente a subjetividade do gostar. É comum que a gente associe qualidade de um filme à nossa apreciação, à nossa experiência. Logo, se gostamos é porque é bom. Eu não concordo com esse pensamento.

Gostar é algo muito pessoal, está ligado à nossa capacidade empática com a obra, a maneira como ela nos cativa. Já “ser bom” está diretamente ligado aos seus atributos técnicos, aos recursos escolhidos para construir a narrativa. Sendo mais claro: O bom filme é aquele feito com domínio técnico, utilização inteligente de recursos (atuação, direção, roteiro, fotografia, etc...) para contar histórias, mas uma obra que atende bem esses quesitos não será, necessariamente, capaz de nos cativar.

(2011 - Uma Odisseia no Expaço X O Noviço Rebelde. Nem sempre gostamos do que é bom)

Stanley Kubrick fez de 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) uma das obras mais aclamadas de Hollywood. Grande direção, belos efeitos especiais, um tema intrigante e provocador. Esse é um exemplo de filme bom que eu não gosto. Acho arrastado e cansativo – embora sua lentidão tenha lógica –, não consigo me conectar com ele.

Por outro lado, e para citar um brasileiro, é provável que eu tenha mais empatia e carinho por O Noviço Rebelde (1997), protagonizado por Renato Aragão. Mesmo se tratando de uma obra extremamente problemática, com atuações exageradas, roteiro bobo e direção apática, traz alguma coisa que me faz sorrir, e isso desperta empatia em mim.

Quando presumimos que um filme brasileiro é ruim só por ser daqui, estamos sendo levados por vozes de outras experiências, que consideraram bem mais o “gostar”. Não que exista algo errado em não gostar de um filme nosso. Cada um sabe exatamente o que lhe agrada e o que não. Mas cada produção é diferente, não se pode dizer que todos são ruins só porque falam a mesma língua.

Isso me leva à próxima citação de Trindade: “Os nossos cineastas e os nossos intelectuais dizem que o público brasileiro boicota os filmes produzidos aqui.”. Não me atrevo a dizer que há um boicote. Boicote é algo consciente. Não imagino um movimento contrário ao cinema nacional, mas não nego que haja resistência.

Replicar que produções nacionais são ruins ajuda nessa resistência. A produção nacional sempre encontrou dificuldades, o que rendeu trabalhos de baixíssimo orçamento – o gênero da pornochanchada, com forte teor erótico, acabou contribuindo também com essa imagem, já que o país sempre adorou conservadorismo... Quando se tem em mente que algo não é bom, qualquer coisa boa que saia de lá será ignorada.

(Lisbela e o Prisioneiro é dos filmes mais lindos que eu já vi)

De fato, algumas obras são ruins: Bezerra de Menezes - O Diário de Um Espírito (2008), S.O.S.: Mulheres ao Mar (2014) e Até que a Sorte nos Separe (2012) – e todos encontram uma parcela respeitável de fãs. Mas muita coisa boa também aparece: Tropa de Elite (2007), Lisbela e o Prisioneiro (2003) e Bacurau (2019) – e, obviamente, esses também têm seus detratores.

Outro ponto a ser levantado é o valor cobrado pelos estabelecimentos. Hoje, não se assiste um filme por menos de R$ 22,00, a não ser que o cliente participe de alguma promoção ou faça parte de algum grupo beneficiado pela meia entrada. Portanto, quando se vai ao cinema disposto a pagar tão caro, o espectador prefere investir em algo de mais fácil empatia e que lhe dê um retorno mais claro – como os que usam melhor as dimensões da tela gigante ou o som potente. Pagar caro para ver um drama apoiado em diálogos pode não ser atraente para muitos.

Mas, que fique registrado, já me deparei com salas cheias em sessões de obras brasileiras em eventos como Projeta Brasil, que dedica um dia inteiro ao cinema nacional a um preço ótimo – se não me engano, o último preço registrado foi de R$ 4,00. Tive a oportunidade de ver, por exemplo, Muito Gelo e Dois Dedos D’Água (2006), Romance (2008) e Saneamento Básico - O Filme (2007), todos com as salas lotadas. Diferente do ótimo 2 Coelhos (2012), que devia ter umas 15 pessoas quando vi numa sessão normal.

Por fim, não dá para negar a presença pesada de Hollywood na ocupação das salas de projeção. Eu comparo esse fenômeno com o futebol: uma criança potiguar que cresce vendo o Corinthians pela TV, não vê transmissão dos jogos de ABC e América e nem vai ao estádio, dificilmente não se tornará torcedor do time paulista. Claro que isso não é uma regra, mas é a tendência.

Com a sétima arte é igual. Trindade fala: “Há quem aponte falta de recursos técnicos e a concorrência nociva do cinema norte-americano, outra rematada asneira.”. Vários filmes brasileiros não chegam às telonas. Outros até chegam, mas é atípico que permaneçam em cartaz por mais de uma ou duas semanas. Enquanto isso, franquias como Velozes & Furiosos e o Universo Cinematográfico Marvel, que atendem as demandas financeiras do comércio, ocupam diversas salas por diversas semanas.

(Vingadores - Ultimato arrecadou mais de 2,7 bilhões de dólares no mundo)

Vingadores – Ultimato (2019) chegou a ser exibido em 80% das salas brasileiras. Isso é um número monstruoso. Aqui em Natal, entre as duas primeiras semanas de exibição, uma rede reservou todas as sessões em um dia de feriado nacional, TODAS! Eu entendo a dinâmica capitalista e sei que a empresa lucra em eventos assim – e até a permite apostar em filme de menos apelo comercial, como faz toda semana –, mas é muito difícil algo semelhante acontecer com nossas produções .

Ainda em Natal, Bacurau e Divaldo - O Mensageiro da Paz (2019) conseguiram a proeza de se sustentarem em cartaz por muitas semanas, mas são pontos fora da curva. O primeiro já chegou badalado pela vitória em Cannes, respeitado festival internacional; o segundo tem um público cativo muito forte, trata de uma personalidade religiosa importante. Tirando eles, não me recordo de outro exemplar nacional que tenha se saído tão bem e que não pertença a essas séries de comédia lucrativas como De Pernas Para o Ar e Minha Mãe é Uma Peça.

Sem falar que a demanda de Hollywood interfere diretamente na nossa maneira de ver cinema. Assistir a tantos filmes produzidos a ritmo industrial e, muitas vezes, superficiais afeta nosso discernimento. Fator que justifica outra frase de Trindade: “O maior inimigo do cinema brasileiro é querer ser brasileiro demais, é querer capturar, como direi?, o Brasil como ele é (seja lá o que isso signifique) e mostrá-lo pra nós mesmos e para o mundo.”.

Cinema é diversão, lazer e escapismo. Mas também é arte, é voz, identificação e protesto. Achar que nossos filmes são “brasileiros demais” é sinal de uma identidade visual perdida. Não se faz cinema apenas nos EUA. França, Espanha, Japão e Argentina, por exemplo, têm características próprias muito fortes e as preservam. Não podemos abrir mão das nossas.

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Natal tem noite chuvosa com trovões e relâmpagos