Plano Detalhe

23/06/2019 10:00

Democracia em Vertigem: cinema que encanta, realidade que apavora

Fotos: Capturas de Tela

Democracia em Vertigem: cinema que encanta, realidade que apavora

É impossível dizer que, sem a atual ruptura ideológica de nossa sociedade, o recente lançamento original Netflix teria a repercussão que está tendo. Num país apaixonado por entretenimento escapista, que pouco faz para reconhecer o cinema nacional e é machista, é difícil acreditar que um documentário brasileiro dirigido por uma mulher, ganharia tanta voz.

Felizmente – ou não –, a disputa travada em terras tupiniquins acabou deixando uma parcela representativa da população mais interessada em política, o que permitiu maior visibilidade a obras desse tipo.

Dirigido pela sensível Petra Costa, Democracia em Vertigem (2019) é um recorte histórico assustador e dolorido do atual momento vivido pelo Brasil.

Acompanhando a ascensão e declínio do governo “petista”, o filme costura registros que vão desde a eleição de Lula, em 2003, até à vitória de Jair Bolsonaro nas urnas. A diretora não faz questão de esconder sua filosofia de esquerda, pelo contrário. Sua ideologia é apontada algumas vezes no decorrer da obra e funciona como um filtro para a abordagem séria que é proposta aqui. Por exemplo, quando comenta a participação do ex-presidente Lula nos depoimentos à Lava Jato, a própria Petra deixa claro jamais ter se convencido das acusações, mas também não toma o acusado por inocente em momento algum.

Essa é uma estratégia que permite aos espectadores sensatos diferenciarem opiniões – como os relatos da mãe da diretora sobre as conquistas do PT – e fatos – como a motivação frágil para concretizar o Impeachment de Dilma e o envolvimento de Michel Temer nos bastidores.

Por outro lado, quando opta por dar espaço ao forte discurso feito por Lula antes de se apresentar à prisão e mostrá-lo nos braços do povo, permite que opositores mais fervorosos ignorem que aquelas imagens refletem a popularidade do político e as tomem como publicidade partidária.

Imagem histórica da popularidade de Luiz Inácio "Lula" da Silva

De qualquer forma, o filme não está preocupado em melhorar a imagem da esquerda ou manchar a da direita, mas em questionar alguns movimentos políticos sob a luz da democracia. Tanto que não omite as repercussões contrárias ao ex-governo. Na mesma medida que mostra a tristeza de um dos lados, mostra as comemorações efusivas do outro.

Democracia em Vertigem também tenta compreender, através de alguns depoimentos, o que fez o PT se enfraquecer tanto perante o poder político e, principalmente, à população, colocando alguns dedos em feridas ainda não cicatrizadas.

Dona de uma capacidade singular de contar histórias, Petra tem o dom de universalizar momentos íntimos e pessoais, quem teve a oportunidade de assistir o tocante Elena (2012) compreende bem o que estou falando.

Aqui, a diretora constrói uma história em duas escalas distintas. A mesma ruptura que divide o país também separa sua família. Do lado que apoia as recentes mudanças do Poder, os avós que enriqueceram por serem sócios de uma importante empreiteira; do que se opõe, os pais militantes da esquerda que foram presos durante a Ditadura Militar.

Mesmo com uma voz amena, a cineasta consegue provocar incômodos através do texto forte e reflexivo, seja pela leitura corporal que faz de Michel Temer no dia da posse de Dilma – remetendo a um aparente desconforto dele, desapercebido pela população – ou pelas palavras colocadas ao fim do documentário, que causam uma angustia apavorante:

Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?

Simbologia: a dificuldade de preservar o lema de um país que sucumbe aos interesses particulares dos governantes.

A seleção de imagens consegue causar arrepios através de atrocidades como Jair Bolsonaro, num ato completamente desumano, provocar Dilma ao enaltecer seu torturador, Carlos Brilhante Ustra; ou mostrando entusiasmado as fotos dos presidentes do período de Ditadura, pendurados em seu gabinete.

Também conseguem ser simbólicas ao executar enquadramentos de efeito, como os planos do Congresso Nacional que dão imponência às torres, quando quer mostrar a força dos políticos, ou que as diminuem, refletindo a corrupção que oprime.

Dois momentos específicos foram particularmente significativos para mim. No primeiro, um funcionário limpando, com a mão, a bandeira brasileira no carpete do Senado e, em seguida, usando um objeto para reforçar a visibilidade das palavras “Ordem e Progresso”. No segundo, uma das responsáveis pela limpeza do Palácio do Planalto lamentando não poder limpar a sujeira do país com um pano, além de demonstrar uma profunda – e honesta – confusão sobre a existência da democracia.

Democracia em Vertigem é um soco no estômago. Mostra a inversão de valores perigosa que atinge a nação e que busca justificar o injustificável através do eco ignorante de quem berra mais alto. É cinema da mais alta qualidade, mostrando com beleza e sofisticação o reflexo torpe de uma nação coberta com poeira da corrupção.

 

Nota 10/10

21/06/2019 19:41

Toy Story 4 fala com a alma

Fotos: Divulgação

Toy Story 4 fala com a alma

“Mas o que faz o Woody especial é que ele nunca desiste de você!”

Estamos em 2019 e eu já passo dos 30, mas toda vez que ouço essa frase dita por Andy no final da então trilogia Toy Story (1995 – 2010), é como se eu voltasse instantaneamente à minha infância. Cresci “ao lado” de Andy e, assim como ele, tinha o cowboy mais corajoso do mundo e toda sua trupe como meus melhores amigos.

Era impensável, então, aceitar que algo mais pudesse sair dessa lembrança tão especial. Eis que, mais uma vez, a Pixar ensina a olhar sob nova ótica, mostra que o fim para uns pode ser um começo para outros.

Em Toy Story 4 (2019), a pequena Bonnie é responsável por toda a turma de Woody, que já não ocupa mais a posição de preferido. Quando a garota cria o Garfinho e desenvolve uma forte relação emocional com ele, o xerife se impõe o dever de proteger o novo brinquedo para fazer a menina feliz. Porém, durante uma viagem, valores consolidados começam a ser questionados.

Uma das grandes dificuldades da produção era encontrar uma história. Com o desfecho do capítulo anterior, pouco se tinha a acrescentar à franquia. Nesse sentido, o eficiente roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom é feliz ao trabalhar em cima do que representa o último gesto de Andy, passar os brinquedos à frente e contemplar outras crianças.

A abordagem escolhida não só reforça toda a essência de devoção dos protagonistas como dialoga com a sensação de pertencimento deles. Reparem como a inversão de valores aqui é significativa: não são as crianças que têm brinquedos, mas os brinquedos que têm crianças. Essa ideia reforça a ligação dos bonecos a partir de suas funções existenciais, eles precisam servir aos humanos e compreendem isso perfeitamente.

Assim, quando vemos Woody superar sua autoestima ferida após ser deixado de lado, entendemos como é importante pra ele, acima de qualquer coisa, manter Bonnie feliz, mesmo sabendo que ela vai crescer e, eventualmente, perder o interesse pela brincadeira. Mas até lá, é sua obrigação servir à imaginação da garota.

Woody explica a Garfinho o quanto Bonnie o ama

Isso fortalece ainda mais a jornada interior do protagonista, que, pela primeira vez, questiona o próprio propósito. Vemos como o xerife está perdido e deslocado, a falta que sente de Andy faz dele uma figura incompleta. Perder a relevância rapidamente é muito doloroso para quem sempre foi leal e jamais abriu mão de um único parceiro.

O conflito ganha força quando sua amiga Betty reaparece completamente independente. É lindo ver duas filosofias tão fortes em cheque. De um lado, total devoção a uma única pessoa; do outro, a ciência de poder fazer a diferença para muitos outros. Nesse ponto, é genial que o filme dê à Betty algumas marcas físicas. Enquanto os curativos escondem traumas sofridos, também representam a abdicação da vontade própria e o impulso de buscar novas relações.

É reflexivo que parte da história se desenvolva dentro de um antiquário, criando um diálogo muito forte com Toy Story 2. No filme de 1999, Woody era restaurado para virar peça de colecinador. Se lá existia algum valor emocional, mesmo que a intensão fosse guardá-lo numa vitrine ou mostruário, aqui apenas resta o esquecimento, ideia que fere o ego dos que ainda sonham ser úteis.

Nesse contexto, a ambiguidade de Gabby Gabby se torna compreensível e tocante. Apesar de ser conceitualmente similar ao Minerador e a Lotso, antagonistas anteriores, seu arco dramático é capaz de dobrar o mais frio coração adulto na plateia. Em determinado diálogo, nos emociona perceber o quão importante é a sensação de pertencimento – como evidenciado na cena do parque já próxima ao fim.

Uma das novas atrações, Garfinho traz uma importante mensagem de incentivo à criatividade. Em sua inocente ignorância dos valores impostos pela sociedade, as crianças brincam e ressignificam coisas corriqueiras na vida de um adulto, como uma caixa de papelão ou um controle remoto.

Assim, se o novato é, para muitos, apenas um garfo descartável destinado ao lixo, Bonnie o enxerga com muito mais apreço, transformando-o no que for necessário à sua imaginação. Um cowboy será sempre cowboy, assim como um astronauta será sempre um astronauta. Mas o Garfinho será o que ela quiser que ele seja! É quase uma metalinguagem se considerarmos que a Pixar faz o mesmo com seus protagonistas. Brinquedos que, para os espectadores, assumem os papéis indicados por suas interpretações.

Bonnie e seu mais novo brinquedo

O filme ainda traz um visual arrebatador, onde é perceptível a textura da computação gráfica. Ao bater o olho rapidamente, é fácil distinguir a pele humana das superfícies de plástico, pelúcia e porcelana, por exemplo. O humor funciona bem demais, muito graças às novas personagens.

Os bonecos de ventríloquo são genais ao não trazerem firmeza em suas juntas e ao não terem voz própria. Além disso, funcionam demais quando a produção insiste em dar pitadas de terror. Também preciso destacar a dupla Patinho e Coelhinho, dois brinquedos completamente insanos; a hilária Isa Risadinha; e o intenso Duke Caboom – impressionante como a série consegue criar esses idiotas adoráveis!

Entrei na sessão com a certeza de que não havia necessidade de outra aventura, mas percebi que estava sendo tão egoísta quanto o fundo de uma caixa esquecida ou uma prateleira empoeirada de um antiquário. Enquanto um certo xerife tiver coisas positivas à dizer, sempre haverá gerações dispostas a ouvir. E eu estarei lá, mesmo que seja para ver estranhos se divertirem com meus amigos de longa data.

Toy Story 4 é forte o suficiente para abraçar nossa alma e sussurrar palavras de carinho aos nossos corações. É capaz de me fazer chorar já nos minutos iniciais e de me tirar da sala com uma felicidade revigorante; de piscar o olho para os Andys e Bonnies da minha geração enquanto se preocupa em criar novos vínculos afetivos; capaz de, pra nos manter sorrindo, percorrer pelo infinito e além!

 

Nota 10/10

Eu, claramente eufórico com minha criança interior!

20/06/2019 13:06

Um tal de Rubens

Fotos: Mastrangelo Reino/Folhapress

Um tal de Rubens

A primeira opinião sobre cinema que me importou na vida – e importará sempre – é a do meu pai. Ele nunca foi um crítico especializado e jamais teve pretensões para tal, mas sempre foi um consumidor apaixonado. Uma pessoa que não se impõe limites para o que deve assistir, capaz de começar o dia chorando de rir com as tolices de Adam Sandler e terminar completamente emocionado com a sensibilidade de Giuseppe Tornatore. Foi meu pai que me apresentou a magia que é o cinema, o prazer de ver uma história ser contada enquanto é representada bem na nossa frente.

Quando comecei a buscar mais sobre o cinema, meu pai também me abriu essa porta ao, por exemplo, fazer assinatura da revista brasileira SET e, de vez em quando, ao trazer textos que ele mesmo imprimia no trabalho para que eu pudesse ler em casa. Muitos deles assinados por um tal de Rubens...

O avanço da tecnologia permite hoje uma troca de informações com muito mais rapidez, encurtando a enorme distância territorial do país. Graças a essa tecnologia, eu, do conforto de minha casa, consigo ter acesso à adequação linguística do portal cearense Cinema com Rapadura, às críticas muito bem fundamentadas do belo-horizontino Pablo Villaça, os vídeos eficientes do brasiliense Tiago Belotti e a sensibilidade analítica de Sihan Felix, que reside aqui em Natal.

Mas nem sempre foi assim. Até pouco tempo mesmo, informações sobre cinema eram conseguidas através de leitura ou quando a TV abria espaço para o tema. Num país onde se lê pouco, conseguir inserir um olhar crítico sobre um assunto que, para muitos, não passa de um entretenimento escapista é um feito incrível.

E foi assim que eu compreendi o alcance do tal Rubens. Rubens Ewald Filho foi um pioneiro, um desbravador. Um homem com um conhecimento enciclopédico da sétima arte, que tocou muitas gerações e nutriu ainda mais a sede por conhecimento. Nos mostrou que compreender um filme é muito mais que conhecer o currículo de seus envolvidos, que existe diversos “porquês” em cada enquadramento, cor ou som escolhido numa cena.

Ele também foi muito importante ao mostrar que ser crítico não tem nada a ver com arrogância e nem com estar certo ou errado, mas ter capacidade de identificar a objetividade lógica por trás de obras que dialogam com nossa subjetividade, de ver a razão que constrói nossa emoção, de ler o audiovisual.

Rubens nos deixou ontem, aos 74 anos de idade. Ele é mais lembrado como o “cara do Oscar”, o comentarista da transmissão da TNT, mas é muito mais que isso... É o profissional que sempre respeitou os filmes que despertavam sentimentos honestos – mesmo tecnicamente problemáticos – e que, de certa maneira, deixou algo na sensibilidade de Sihan, na eficiência de Tiago, no fundamento de Pablo, na adequação do Cinema com Rapadura e na paixão do meu pai. Uma referência que carrego comigo e que alcança muitos críticos hoje, saibam eles ou não.

20/06/2019 01:22

Toy Story 4 estreia em Natal! Veja a programação.

Fotos: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley

Toy Story 4 estreia em Natal! Veja a programação.

Confira agora os destaques e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 20 a 26 de junho:

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Gloria Bell (2018): Gloria (Julianne Moore) é uma divorciada de espírito livre que passa os dias trabalhando num escritório tradicional e conservador. À noite, se solta dançando nas muitas discotecas de Los Angeles e conhece Arnold (John Turturro). Envolvida num inesperado novo amor, Gloria se vê diante de todas as alegrias e complicações do começo de um romance. (16 anos, 102 minutos).

Casal Improvável (Long Shot, 2019): Solitário, sem emprego, autodestrutivo e fracassado, o jornalista Fred Flarsky (Seth Rogen) se esforça para tentar mudar os rumos de sua vida. Ele passa a perseguir a antiga babá Charlotte Field (Charlize Theron), que hoje se tornou uma das mulheres mais poderosas do mundo. (16 anos, 125 minutos).

Continuam em cartaz:

MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black: International, 2019): Sete anos após seu último lançamento, a franquia MIB: Homens de Preto retornam aos cinemas com seu mais novo exemplar, Internacional. Estrelado por Chris Hemsworth e Tessa Thompson (ambos de Vingadores – Ultimato, 2019), o filme acompanha os agentes H e M na maior e mais global ameaça à Organização MIB. (12 anos, 114 minutos).

X-Men - Fênix Negra (Dark Phoenix, 2019): Durante uma missão de resgate no espaço, Jean Grey (Sophie Turner) quase morre ao ser atingida por uma misteriosa força cósmica. Ao voltar para casa, essa força se torna mais poderosa e mais instável. Lutando com essa entidade dentro dela, Jean desencadeia seus poderes de maneiras que ela não pode compreender nem conter. (12 anos, 113 minutos).

Aladdin (2019): Adaptação em formato live-action do clássico de animação da Disney, conta a história de um jovem humilde que descobre uma lâmpada mágica, com um gênio que pode lhe conceder desejos. Agora, o rapaz quer conquistar a moça por quem se apaixonou, mas ela é uma princesa que está prestes a noivar. (10 anos, 128 minutos).

Patrulha Canina - Super Filhotes (Paw Patrol - Mighty Pups, 2019): Quando o seu mais recente esquema dá errado, o Prefeito Humdinger e seu sobrinho Harold acidentalmente desviam um meteoro, colocando-o em rota de colisão com a Baía da Aventura. A energia dourada do meteoro dá superpoderes à Patrulha Canina! (Livre, 90 minutos).

Rocketman (2019): Embalado pelas maiores canções de Elton John (Taron Egerton), o musical conta a história universal de como um garoto do interior se transformou em uma das figuras mais icônicas da cultura pop. (16 anos, 121 minutos).

Juntos Para Sempre (A Dog's Journey, 2019): Depois de muitas vidas e aprendizados, Bailey vive tranquilamente com Hanna. Um dia, Gloria, uma aspirante a cantora, aparece sem avisar na vida dos dois com uma notícia surpreendente: Hanna tem uma neta chamada Clarity. Com o tempo, o cãozinho percebe como a menina é negligenciada pela mãe e decide que seu objetivo nesta vida é cuidar dela e protegê-la incondicionalmente. (12 anos, 109 minutos).

Vingadores – Ultimato (Avengers - Endgame, 2019): Após os acontecimentos de Guerra Infinita (2018), os Vingadores precisam se reerguer numa única esperança de resistência. (12 anos, 181 minutos).

OBS: Os horários dos filmes podem ser conferidos nos sites dos cinemas

18/06/2019 21:51

Dark – 1ª Temporada: tropeça onde não pode, mas acerta onde precisa

Fotos: Capturas de Tela

Dark – 1ª Temporada: tropeça onde não pode, mas acerta onde precisa

ESSE TEXTO NÃO CONTÉM SPOILER

Suspense, mistério, drama e ficção científica. É com esses elementos que Dark (2017) consegue provocar o espectador que acompanha a intrigante produção alemã. Às vésperas de seu retorno à Netflix, decidi tirá-la da fila de espera.

A primeira temporada começa em 2019, na pequena cidade de Winden. Quando dois garotos desaparecem, a rotina do local é quebrada pelos fantasmas do passado, já que algo semelhante havia acontecido 33 anos antes. A partir daí, a série aborda a história do lugar em três anos diferentes: 2019, 1986 e 1953.

O episódio inicial mostra a seguinte frase de Albert Einstein: “A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma ilusão”. Em seguida, uma narração desenvolve a ideia de que o tempo percorre em linearidade e simultaneidade. Logo de cara, Dark deixa evidente que tratará a percepção de tempo como um fator crucial de sua trama.

Estabelecer uma história firme com uma pauta tão complexa e imprecisa é um desafio gigante. Assim, é necessário compreender o trabalho dos roteiristas sob duas óticas: a temática e a narrativa.

Viagem no tempo é, por si, um assunto controverso, um campo de pura especulação. Por isso, estabelecer as teorias e se prender a elas é o caminho mais sensato. Aqui, se uma fenda no espaço-tempo é aberta, não significa que as pessoas transitarão livremente entre passado e futuro, mas para pontos específicos – levando em consideração o “quando” se está no momento da partida.

Assim, a série adota uma filosofia própria que serve também como um dificultador interessante. A “fronteira temporal” permite apenas transitar entre os pontos A, B e C. Além disso, os paradoxos temporais são utilizados a favor do enredo, o que corrobora com as ideias de linearidade e simultaneidade.

Presente, passado e futuro estão interligados em Dark

Imaginem, por exemplo, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Em determinado momento, Harry (Daniel Radcliffe) está em perigo na floresta quando alguém o salva. Ele acredita que foi o espírito de seu pai que o ajudou.

O filme segue e Harry acaba viajando para o passado, indo parar no mesmo momento da floresta. Após esperar e ver que seu pai não apareceu, ele mesmo executa a magia para salvar sua versão anterior. Isso é um paradoxo! Harry só viajou no tempo porquê sobreviveu, e só sobreviveu porquê conseguiu viajar no tempo. Esse tipo de situação acontece frequentemente em Dark, mostrando o domínio dos escritores sobre a temática.

Por outro lado, o roteiro peca na condução narrativa. Na expectativa de criar um clima de suspense e mistério, a série levanta muitos questionamentos e demora demais a oferecer alguma contrapartida válida. Os quatro episódios iniciais fazem muito suspense por pouca coisa e apenas o terceiro, Passado e Presente, entrega algo para sanar nossa necessidade por respostas.

Isso não seria um problema por si, desde que todos os arcos fossem devidamente encaminhados. Mesmo existindo muitas personagens – e muitas versões delas -, os episódios gastam 50 minutos para dar um (ou quase isso) passo à frente.

O que sobra é um apanhado de informações vomitadas desenfreadamente para ganhar um tempo que já existia, mas que fora desperdiçado quando a trama foi esticada. Reparem como Regina (Deborah Kaufmann), a administradora do hotel, precisa apenas de uma ligação telefônica para nos dizer que está com dívidas, que teme perder o estabelecimento e como os desaparecimentos contribuem para afastar clientes.

Reparem também como algumas personagens demoram a reaparecer – como Claudia (Julika Jenkins) – ou simplesmente somem – como Elisabeth (Carlotta von Falkenhayn), a filha mais nova de Charlotte (Karoline Eichhorn).

Uma coisa que me irrita bastante aqui é a necessidade de explicar demais informações que já estão claras. Quando duas pessoas conversam sobre a ciência envolvida e são excessivamente didáticos, existe um acerto. Não podemos exigir que a audiência venha com um conhecimento prévio para compreender o que é mostrado. Porém, quando a própria direção decide martelar coisas mais triviais, é como se ela não confiasse na capacidade intelectual do público.

Várias vezes a tela é dividida para ladear versões de uma mesma pessoa, reforçando suas aparências em cada ano. Isso é totalmente desnecessário, já que os atores são muito parecidos e seus nomes são constantemente repetidos. Não precisa a direção insistir nesse recurso sempre que possível.

Ines Kahnwald: à esquerda em 1986 (Anne Ratte-Polle) e à direita em 2019 (Angela Winkler) 

Além disso, todas as músicas que tocam, livros que surgem e conversas corriqueiras acabam por remeter ao tempo de alguma forma. É como se a série tentasse dizer “olhem como eu sou esperta, viram essa piadoca aqui?”, ou fizesse questão de que encontrássemos easter eggs, escancarando seus esconderijos.

Outro problema é a facilidade de desvendar alguns dos mistérios esticados, como as identidades de um dos corpos que aparece em 2019 e de um dos homens encapuzados.

Felizmente, a partir do quinto episódio, a série entra nos eixos e flui com muita naturalidade, ganha novo fôlego. As personagens ganham mais peso, mais profundidade emocional; a dinâmica entre perguntas e respostas fica mais equilibrada, com algumas respostas legais sendo apresentadas.

A estética da produção é apurada. Com a fotografia mantendo praticamente a mesma paleta de cores para cada um dos anos, cabe à direção de arte criar uma divisão através dos figurinos e objetos de cena. É legal também ver como amarelo, vermelho e verde são recorrentes, especialmente a primeira. O amarelo está sempre chamando atenção para elementos importantes (o casaco de Jonas, a fita e a camisa no corpo achado em 2019 ou a toalha que envolve Helge (Hermann Beyer) em sua primeira aparição.

O clima chuvoso também ajuda a dar um tom de suspense, reforçando a frieza emocional da história que está sendo contada. Todas as personagens parecem distantes, mesmo vivendo em comunidade e apreensivos com o que ocorre. Vale ressaltar a claustrofobia das sequências na caverna, sempre dialogando com a angustia de quem passa por ela.

Se a primeira temporada de Dark erra no básico de contar uma história e é inconstante em seu ritmo, acerta demais ao usar uma teoria bem estruturada de viagem no tempo e em aglomerar seus melhores momentos do meio para o fim. Um suspense intrigante e misterioso que aguça bem a curiosidade quando decide mergulhar de cabeça no que se propõe. Um belo exemplo de que acertar aonde precisa é mais importante do que errar onde não pode.

 

Nota 8/10

18/06/2019 11:57

Inscrições abertas para a 6ª Mostra de Cinema de Gostoso

Inscrições abertas para a 6ª Mostra de Cinema de Gostoso

Iniciadas ontem (17/06), as inscrições para a 6ª Mostra de Cinema de Gostoso seguem abertas até dia 23 de agosto, através da página do festival. O evento é uma realização da Heco Produções e do CDHEC – Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania, com direção geral e curadoria de Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld.

Localizado em São Miguel do Gostoso, RN, o festival terá palco principal ao ar livre na Praia do Maceió, onde acontecem as sessões da Mostra Competitiva. Os filmes serão exibidos em projeção com resolução 2k e som 5.1. O espaço também terá área de convivência, com praça de alimentação e espaço para comerciantes locais.

Ao longo de cinco dias, o público poderá assistir aos mais recentes lançamentos cinematográficos brasileiros. Serão exibidos mais de 60 filmes de todo o país, entre as mostras Competitiva, Panorama, Infantil e Sessões Especiais. Os filmes da Mostra Competitiva concorrem ao Troféu Luís da Câmara Cascudo, concedido pelo voto popular aos melhores curta e longa-metragem.

Também será concedido o Prêmio da Crítica, a partir da votação de jornalistas e críticos de cinema presentes à Mostra. Debates com produtores, diretores e atores dos filmes exibidos e um seminário sobre o mercado audiovisual fazem parte da programação e é toda gratuita.

A Mostra de Cinema de Gostoso mobiliza os moradores da cidade, que participam ativamente do evento. A curadoria do festival leva em conta a realidade local e a eficácia dos filmes em dialogar com a população. A soma desses fatores faz com que as sessões estejam sempre lotadas por um público que, até então, mantinha um contato distante com a produção cultural de outras regiões do país.

Com esse conjunto de ações, a Mostra conquistou um espaço significativo no calendário cultural do Nordeste como uma importante referência de difusão audiovisual e, neste ano, acontece de 8 a 12 de novembro.

Mostra de Cinema de Gostoso / Divulgação

Cursos de Formação

Meses antes do início da Mostra, serão oferecidos cursos de formação técnica e audiovisual para jovens de São Miguel do Gostoso. Desde 2013 foram ministradas 37 oficinas e produzidos 15 curtas-metragens, todos exibidos nas edições da Mostra de Cinema de Gostoso e em diversos festivais no país.

Como resultado dessa experiência, o grupo de alunos criou em 2015 o Coletivo Nós do Audiovisual, com o objetivo de ampliar as possibilidades de realização de novos projetos, de forma autônoma, apontando para a profissionalização no setor audiovisual do estado.

Em 2019 serão realizadas novamente uma série de oficinas, que incluem Linguagem Audiovisual, Roteiro, Produção, Montagem e a realização de quatro Curtas-metragens. A 6ª Mostra de Cinema de Gostoso tem o patrocínio do Grupo Banco Mundial, Governo Cidadão, Governo do Rio Grande do Norte – Secretaria de Turismo (SETUR) e apoio da Prefeitura Municipal de São Miguel do Gostoso e SEBRAE RN.

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