P-47 Aviação e História

O que se sabe sobre a possibilidade de Saint-Exupéry ter visitado o RN (Parte 2)

O que se sabe sobre a possibilidade de Saint-Exupéry ter visitado o RN (Parte 2)

O início da década de 1930 é empolgante para a aeronavegação. Temos os zeppelins cruzando os céus e inúmeros pioneiros quebrando records. Jean Mermoz, provavelmente o francês mais famoso, entra para a história em 13 de maio, ao realizar com sucesso a primeira travessia com correio aéreo entre a França e América do Sul, com escala entre Dakar e Natal, a bordo do Conde de La Vaux.

O feito colocaria não apenas Memoz e seus companheiros Jean Dabry e Léopold Gimie no hall da fama, mas toda a Aéropostale, o que justificaria a presença de Exupéry em Natal como gerente da empresa na América do Sul e era esperado desde o anúncio do feito. Entretanto, nosso personagem estava envolvido em uma triste missão de resgate.

Travessia de Mermoz de 1930 (Acervo do autor)

Na madrugada do dia 10 de maio, um avião da Aéropostale decola de Buenos Aires, sob forte mau tempo, com objetivo de ir a Montevideo e esperar a aeronave de Jean Mermoz, que uniria pela primeira vez França e América do Sul pelo ar. O voo do piloto Elysée Négrin e do mecânico René Pruneta cai no Rio da Prata, levando a bordo dois passageiros, Alberto de Barros e Carlos Oliveira, deixando apenas este último como sobrevivente. Este trágico acidente foi o motivo que impediu Exupéry de estar em Natal para recepcionar Mermoz.

Nos anos seguintes, uma nova reviravolta empresarial mexeria com o escritor-piloto, com a liquidação da Aéropostale, processo este que durou quase dois anos, até 1933, quando surge a Air France. Em 1932, Exupéry já tinha sido contratado para ser piloto de testes da Latécoère que continuava a fabricar aeronaves, em Toulose, na França. Cumprindo esta tarefa, em 21 de dezembro de 1933, ele sofre um grave acidente na baía de Saint-Rapahael, quase fatal e que lhe cobrou a aposentaria. Ele ainda tentou entrar na Air France, contudo, foi recusado.

Em 1936, a Air France celebra a centésiama travessia sobre o Atlântico Sul produzindo um documentário, com participação de Saint-Exupéry. O filme promocional poderia ser uma chance dele estar em Natal, no entanto, não aparece em nenhuma imagem por aqui.

Já no ano de 1938, ele é convidado a participar de um raid entre os EUA e o Uruguai, que tinha Natal no plano de vôo. Infelizmente, mais uma vez ele é impedido de pousar aqui, pois em 4 de março sofre grave acidente sobre a Guatemala, na América Central, onde fica hospitalizado por vários dias antes de retornar à América do Norte.

A década de 1940 é marcada por seus feitos como escritor e suas idas e vindas entre a Europa e a América. Logo nos primeiros anos, se voluntaria como piloto para atuar na Segunda Guerra Mundial, sem deixar de se dedicar a literatura. Em 1942, escreveu o manuscrito Piloto de Guerra e em 1943, no dia 6 de de abril de 1943, publica em inglês e francês o “Le Petit Prince”, editado pela Reynal & Hitchcock.

Em 31 de julho de 1944, às 8h35, o comandante Antoine de Saint-Exupéry decolou a bordo do Lightning P38 (F5B) nº 223, do campo de Borgo, para realizar uma missão fotográfica na área de Grenoble - Annecy. Às 13 horas, ele não voltou, as chamadas de rádio ficaram sem resposta e os radares alertados procuraram por ele em vão. Em 8 de setembro, Antoine de Saint-Exupéry foi oficialmente declarado desaparecido. Em 3 de novembro, ele foi citado postumamente para a Ordem da Força Aérea "por suas melhores qualidades de ousadia e habilidade durante os meses de junho e julho de 1944".

Relatos

Em 1973, o autor do livro “O Meu Pé de Laranja Lima”, José Mauro de Vasconcello, em entrevista a Revista Manchete revelou que seu pai era mecânico da Air France em Natal, e ele quando criança – 10 ou 11 anos – teve contato com Jean Mermoz e cita “talvez tenha conhecido Exupéry nessa época de 1930”, sem ter certeza.

Já no ano de 1974, uma reportagem d´O Poti reproduziu um texto do jornalista  Jean-Gerard Fleury, que acompanhava a atividade da Air France, em que o protagonista teria dito que conhecia Natal, vindo a bordo de navios. Mas aqui esbarramos na falta de provas sólidas. Seria apenas mais um francês na cidade.

Existe ainda, a famosa entrevista do jornalista Nilo de Oliveira Pereira, que se perdeu no tempo e na história. Nela, o próprio Exupéry teria falado da cidade potiguar. Não foi encontrada nesta pesquisa.

Ainda nos anos 1950, surge em Natal um movimento na tentativa de homenagear Exupéry, que foi liderado pelo Diários Associados, Diário de Natal. Não vingou. E em 1960, surge a informação de uma foto de Exupéry onde hoje é a Praia do Meio. Se existiu, se perdeu.

Por fim, fica a conclusão da ausência de evidências sobre a vinda de Exupéry ao Rio Grande do Norte.

 

Links Relacionados:

O que se sabe sobre a possibilidade de Saint-Exupéry ter visitado o RN (Parte 1)

Primeira travessia com correio aéreo entre a França e América do Sul

O que se sabe sobre a possibilidade de Saint-Exupéry ter visitado o RN (Parte I)

O que se sabe sobre a possibilidade de Saint-Exupéry ter visitado o RN (Parte I)

Passando pelo Centro de Natal nos deparamos com um muro decorado com imagens de personalidades locais, como Câmara Cascudo, Nísia Florestas, Auta de Sousa, entre outras. Uma das figuras retratadas é do escritor Antoine Saint-Exupéry, que há muitos anos se fala – ou se debate – sobre sua passagem por Natal, entre os anos 1920 e 1930.

Em meados dos anos 2000, cogitou-se inclusive uma homangem a ele nas margens do rio Potengi, onde a Prefeitura colocaria uma estátua dele aprecieando o pôr do sol. Desde a década de 1950, criou-se no imagnário popular essa estória e que sua visita ao Rio Grande do Norte teria influenciado no simbolismo do livro  “O Pequeno Princípe”, tido como a obra literária mais lida e com maior número de edições traduzidas no mundo.

As areias das dunas, o formato de elefante do território do estado e até mesmo o baobá da avenida São José, em Lagoa Seca, seriam exemplos dessa influência.

Pois bem, adianto que este post será mais longo, pois a pesquisa demandou tempo – até mais do que imaginávamos – e apurou muita coisa. Trata-se de um artigo de opinião, o que também exige mais espaço deste periódico e por isso será dividido em duas partes. Na primeira, aboremos aspectos da década de 1920 e em seguida de 1930-1940.

Para traçar esta linha temporal, o blog se baseou em biografias do escritor e registros históricos. Relatos orais foram levados em consideração desde que apresentassem alguma evidência, a exemplo de documentos, fotos ou matérias de jornais.

Vale ressaltar que sobre a presença ou não dele em terras potiguares no quesito aviação seria simbólico, tendo em vista que por Natal passaram inúmeros aviadores pioneiros e famosos pelos feitos para aeronáutica. No tocante a literatura, a situação mudaria de figura devido a importância da obra, já destacada e que influência a cidade poderia ter na imaginação do autor, quem sabe ao ponto de interferir em um outro parágrafo, como se especula.

Como a presença dos franceses, no campo de aviação de Parnamirim conta a partir de 1927 e se estende até 1940, a presença de Exupéry em terra potiguar teria que ser neste mesmo período. Um ano antes, em outubro de 1926, o senhor Didier Daurat, contrata nosso personagem como piloto, com a missão de desbravar novas rotas do récem explorado correio aéreo, estudando um caminho entre Toulouse, na França, até Alicante, na Espanha. Em 15 de dezembro do mesmo ano, a bordo de um Breguet XIV, ele realiza seu primeiro transporte de correio, entre as regiões francesas de Toulouse e Perpignan. Bem loge do Rio Grande do Norte.

Em 1925, a empresa Latécoere inicia o reconhecimento de áreas na América do Sul para transporte de correio aéreo, mas nada ainda definitivo, se retringindo à Argentina e o Sul-sudeste brasileiro. Enquato que um serviço regular entre Casablanca e Dakar já era explorado, sendo uma ramificação do trecho Toulouse-Casablanca. Contudo, não existia uma rota sobre o Atlântico Sul, portando, sem chance de Exupéry ter cruzado o lago até o RN, nos primeiros anos da década.

Aeronave Breguet XIV (Foto: Acervo do autor)

O ano 1927 é muito importante para a história da aviação e Natal. Em outubro, pousa o primeiro avião de rodas no Campo de Parnamirim, trazendo os corajosos Joseph Le Brix e Dieudonné Costes, após um raid sobre o oceano Atlântico Sul, a bordo do Nungesser e Coli. Quatro meses antes, em maio, o americano Charles Lindbergh fazia o primeiro voo sem escalas entre Estados Unidos e França, a bordo do Spirit of St. Louis. Em abril deste ano ocorre um fato importante, surge a empresa Compagnie Générale Aéropostale que adquire a Latécoère, passando a ser comandada por Marcel Bouiloux-Lafont.

Equanto isso, em outubro de 1927, Saint-Exupéry desembarcava em Cab Juby, no litoral do Marrocos, onde fora noemado chefe da seção da escala, considerada essencial na rota Casablanca-Dakar. Apesar de Dakar ser um dos pontos mais próximos até Natal, cerca de 3.100 km, os aviões daquele período não tinham autonomia e como chefe da seção, sua missão era ajudar os pilotos da rota continental, operando raramente sua própria aeronave.

Exupéry com a equipe de Cab Juby (Foto: Acervo do autor)

Já em 1929, após dois anos no Norte da África, o funcionário da Aéropostale é nomeado gerente do escritório na Argentina, tendo forte atuação na manutenção da rota Santiago-Assunção-Rio de Janeiro. Além disso, tinha a tarefa de viabilizar uma nova rota pelo extremo sul da América. Sua missão era ainda mais administrativa, sendo responsável por gerenciar o pessoal e o equipamento, monitorar as condições dos aeroportos e pistas, recrutar pilotos e resolver da melhor forma os problemas operacionais.

Muitos pesquisadores defendem que foi neste período, devido a função, que ele visitou Natal. Pórem, sem registro oficial e com limitada atuação ao sul do Brasil. Comum ouvir de pessoas de mais idade que fulano ou sicrano teriam visto e até conversado com Exupéry por aqui. Porém, sua passagem seria meramente mais um piloto, sem ser reconhecido, pois estava uma década longe de ser o famoso autor de O Pequeno Princípe, publica apenas em 1943.

Outro ponto que merece ser citado é a impossibilidade dele ter passado por Natal sem ter passado pelo Rio de Janeiro, Salvador e Recife, levando em consideração a baixa autonomia das aeronaves, então, em pelo menos um desses locais deveria constar algum documento. A quem defenda que ele teria vindo de navio, como tantos outros, mas mesmo assim fica díficil a comprovação sem algum registro.

O fim da década de 1920 coloca em xeque a possibilidade da visita do piloto-escritor, por enquanto. Vamos saber ainda o que aconteceu nos anos seguintes.

Continua... A Parte II será postada no dia 26/03, às 19h00.

Operação Gratidão: Aviões da FAB transportam insumos para o RN

Operação Gratidão: Aviões da FAB transportam insumos para o RN

C-105 "Amazonas" na pista da BANT (Foto: Pedro Vitorino)

A Base Aérea de Natal (BANT) recebeu na noite da segunda-feira, 22, uma aeronave C-105 “Amazonas”, da Força Aérea Brasileira (FAB), que trouxe cilindros de oxigêncio e aparelhos concentradores para o Rio Grande do Norte. Os insumos foram doados pelo estado do Amazonas e fizeram parte da Operação Gratidão.

Na parte da tarde, um C-130 “Hércules” já havia pousado vindo do Rio de Janeiro. A BANT tem se tornado um dos principas pontos de entrada de insumos e assistência à pacientes por conta da pandemia da Covid-19 no estado.

C-105 "Amazonas" na pista da BANT (Foto: Pedro Vitorino)

C-130 "Hércules" (Foto: Pedro Vitorino)

(Áudio) Piloto comunica controle aéreo sobre ejeção de tripulante em 2020

(Áudio) Piloto comunica controle aéreo sobre ejeção de tripulante em 2020

Em 3 de março de 2020, o tripulante de um A-29 “Super Tucano” do esqudrão Joker, sediado na Base Aérea de Natal (Bant), se ejetou sobre o litoral norte do Rio Grande do Norte, na praia de Genipabu, a 20 km da capital. Momentos após, o fato ganhou espaço nas redes sociais e se tornou assunto na mídia, tendo sido publicado aqui.

Passado um ano, o episódio nunca foi devidamente esclarecido pela Força Aérea Brasileira (FAB), um fato pitoresco tendo em vista que houve a ejeção e a aeronave permaneceu em vôo, com o piloto pousando a mesma em segurança, mesmo sem parte do canopi.

Com exclusividade, o blog teve acesso ao diálogo mantido entre o piloto e o controle aéreo, bem como o resgate que se deu em seguida. A princípio, o piloto da aeronave ejetora continuou o vôo, informando a situação de emergência, altitude e posição. Diante da situação, o controle libera o espaço aéreo, redirecionando um C-95 que estava na área.

Pede ainda que a outra aeronave A-29, que vinha de ala, continue no local na tentativa de avistar o paraquedas no ar ou na água. O piloto obedece e informa ter visual do militar na água a 20 metros da praia, momentos antes dele ser resgatado por um homem em um caiaque. A informação é repassada ao resgate SAR, que seria feito por um helicóptero H-36 “Caracal” que retornava de uma missão.

O blog P-47 procurou a Aeronáutica e obteve a seguinte reposta do Centro de Comunicação Social (Cecomsaer):

A respeito da ocorrência envolvendo aeronave militar no dia 3 de março de 2020, por se tratar de informação de caráter estratégico e segundo a Norma do Sistema do Comando da Aeronáutica (NSCA 3-6) sobre o grau de sigilo de informações, o Relatório de Ação Inicial, o Relatório Preliminar e o Relatório Final recebem o grau de sigilo mínimo de “reservado”, independentemente das circunstâncias da ocorrência, obedecida a legislação em vigor.

Links relacionados:

79 anos da criação da Base Aérea de Natal

79 anos da criação da Base Aérea de Natal

Há 79 anos, por meio do Decreto-Lei nº 4.142, em 2 de março de 1942, era criada a Base Aérea de Natal (BANT), que viria a ser instalada efetivamente no início de agosto do mesmo ano. O seu primeiro comandante foi o major Carlos Souto.

A base integrou a força de defesa aliada na Segunda Guerra Mundial, sendo instalada ao lado da base norte americana, no Rio Grande do Norte. Ao longo dos anos, foi responsável pela defesa do nordeste e formação do quadro de pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB). Saiba mais.

Segue texto do decreto de criação:

DECRETO-LEI Nº 4.142, DE 2 DE MARÇO DE 1942

Cria a Base Aérea de Natal, Estado do Rio Grande do Norte.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando das atribuições que lhe confere o art. 180 da Constituição,

     DECRETA:

     Art. 1º Fica criada uma Base Aérea em Natal, Estado do Rio Grande do Norte, guarnecida inicialmente com um Corpo de Base Aérea de 3ª classe.

     Art. 2º Os elementos que se tornem necessários para a constituição desse corpo de Base Aérea serão recrutados e transferidos de outras Unidades da F.A.B.

     Art. 3º A Companhia de Infantaria de Guarda sediada em Natal passa a fazer parte do efetivo desta Base Aérea.

     Art. 4º Revogam-se as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 2 de março de 1942, 121º da Independência e 54º da República.

GETÚLIO VARGAS
J. P. Salgado Filho

Os americanos invadiriam o nordeste na Segunda Guerra Mundial?

Os americanos invadiriam o nordeste na Segunda Guerra Mundial?

De tempos em tempos aparece um vídeo com reportagem do programa Fantástico sobre um suposto plano de invasão do Exército dos Estados Unidos ao Nordeste do Brasil, como ponto de defesa durante a Segunda Guerra Mundial. A matéria aponta até mesmo a praia de Genipabu como ponto de desembarque, segundo documentos da época. (Link do vídeo)

Mas enfim, os americanos realmente iriam invadir Natal?

Antes de responder a pergunta, vale apontar alguns fatos ligados ao tema e que vão na contramão desta tese. Desde o século XIX, os EUA criaram políticas de isolamento em relação a outros continentes e fortalecimento de um bloco puramente americano. A Doutrina Monroe foi um exemplo disto, com o lema: “América para os americanos”.

Isso se tornou ainda mais evidente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os “yankees” tiveram que ir lutar na Europa, com pouco ou nenhum apoio das nações do próprio continente – O Brasil teve um breve envolvimento no conflito, mas é tema para outra postagem no futuro – ceifando inúmeras vidas.

Já na década de 1930, com as tensões aumentando na “Velho Continente”, os EUA decidem tomar algumas medidas, como conferências interamericanas com países da América Latina e do Sul, a criação da Carta do Atlântico junto da Inglaterra e uma tentativa de aproximação econômica com as nações do continente. No encontro de líderes de 1936, realizada em Buenos Aires e denominada como, Conferência Interamericana de Consolidação da Paz, é discutido o tema de uma guerra como a Primeira que envolvesse outros continentes, selando um pacto de apoio entre as nações americanas.

Ou seja, no discurso, se uma nação do continente fosse atacada por uma de outro, as demais prestariam apoio. O que foi ratificado em 1938, em Cuba, e depois em 1942, no Rio de Janeiro, após o ataque a Pearl Harbor, no Havaí.

Apenas com esses argumentos, fica claro que os EUA nunca precisariam invadir o Brasil, se o presidente brasileiro, Getúlio Vargas, não colocasse em dúvida suas intenções. Com o golpe de 1937, o ditador entrou no radar das famosas agências, como o Federal Bureau of Investigation (FBI) e o Escritório de Inteligência – equivalente da CIA atual –, principalmente por questões ideológicas e a forte relação comercial que o Brasil tinha com a Alemanha. Vale ressaltar que uma parte dos nossos militares eram germanófilos, inclusive viabilizavam a compra de armamento nazista.

Neste cenário, surge a necessidade de industrialização nacional, cujo ponto de partida seria uma siderúrgica. O Governo Vargas tinha um grande desafio, a começar pelo tamanho da obra, o custo e o acesso a tecnologia. Então, é criada a Comissão Executiva do Plano Siderúrgico para discutir o futuro da indústria e viabilizar capital estrangeiro. Um dos países que sinalizam positivamente é a Alemanha de Adolf Hitler, ainda em 1939. Mas no mesmo ano, a guerra estoura com a invasão da Polônia e os investidores recuam.

Ao mesmo tempo, a Comissão continua a trabalhar e encontra um banco norte-americano disposto a financiar a obra, porém, também recua devido ao risco de uma guerra mundial. Então, em 11 de junho de 1940, Getúlio Vargas entra para a história com um discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais, atracado no porto do Rio de Janeiro, faz um discurso criticando os países liberais e defendendo a intervenção do Estado na economia. Apesar de não citar nominalmente, fica subentendido em determinado trecho a exaltação dele pelos feitos do nazismo, que há poucos dias tinha invadido a França.

“É preciso reconhecer o direito de nações fortes que se impõe pela organização baseada no sentimento de pátria e sustenta-se pela convicção da própria superioridade”, chegou a dizer.

A siderurgia nos EUA já estava totalmente estabelecida e tinha condição de apoiar uma instalação “verde e amarela”. E depois da fala de Vargas, os americanos despertaram para a necessidade urgente de uma aproximação definitiva, para eliminar qualquer receio de uma presença dos países do Eixo na América, tendo o Brasil como porta de entrada.

Os papéis são preparados e assinados, em um acordo que mudou a história do Brasil, do Nordeste e de Natal. Em troca do recurso financeiro, cedemos território para a construção de bases aéreas, ou melhor, “aeroportos”. Ainda na década de 1930, os americanos notaram a importância de Natal e precisavam de um ponto seguro e com condições climáticas razoáveis que permitissem a atividade aérea constante. As justificativas para utilizar a cidade eram civis, contudo, existia uma motivação velada, a qual incluía o plano de fornecer material bélico aos ingleses, que lutavam no norte da África e necessitavam de uma rota segura. A cidade era perfeita, pois possuía as condições naturais desejadas, o contato da população com a tecnologia aeronáutica, uma certa estrutura de campo de pouso e para a construção civil; mão de obra barata e abundante.

Contudo, o Brasil era uma nação soberana e não permitiria a interferência militar de outra nação, ainda mais em tempos de guerra, pois desde 1938 havia conflitos entre nações da Europa e Ásia. A solução foi um acordo que permitiu a instalação de aeroportos no território brasileiro e em troca, o Governo Vargas teve acesso a recursos e meios para implantar a siderúrgica de Volta Redonda, denominada posteriormente de Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Esse feito colocou o Brasil ao lado dos Aliados, pois já em janeiro de 1942 rompe relações com a Alemanha, em agosto do mesmo ano declara guerra e em 28 de janeiro de 1943, na Conferência do Potengi, em Natal, oficializa o envio de tropas para lutar no front. Resumindo, anos e anos de namoro com Hitler, acabou em questão de meses por causa do dinheiro para a CSN.

Foto do encontro dos presidentes em Natal, no ano de 1943 (Acervo do autor)

As Agências

Este tema da invasão americana ganhou muita repercussão nos anos 1990, quando alguns documentos referentes a Natal foram desclassificados como sigilosos pelo governo norte-americano, e mais ainda em 2017 com mais liberação de informação.

Nos anos 1930, os serviços de inteligência decidiram traçar diversos perfis de autoridades, artistas, pessoas influentes e militares brasileiros. A verdadeira espionagem em nosso solo. Os relatórios vão de textos enormes a simples citações, incluindo alemães e italianos que morassem nas cidades, a exemplo de famílias natalenses alvos dessa espionagem.

Por sua proximidade com o Norte da África, a base de Parnamirim Field foi considerada, segundo documentos do Departamento de Guerra dos EUA, "um dos quatro pontos estratégicos mais importantes do mundo", comparada ao Estreito de Gibraltar, o canal de Suez e Dardanellos (todos no Mediterrâneo).
O estudo de 1941, antes mesmo do Brasil largar a sua "neutralidade" e aderir aos aliados. A grande preocupação era um avanço alemão no Norte da África e uma possível tomada militar do nordeste brasileiro – o que se sabe hoje ser quase impossível com os recursos da época. Então, havia sim um plano de invasão americano para ocupação em nosso território, se algo desse errado.

Proximidade do Nordeste do Brasil com a África despertava atenção das nações inimigas

Os documentos mostram uma preocupação conosco ainda na Guerra Fria, em um deles a agência afirma que Brasil e EUA "devem representar os últimos bastiões da liberdade, reafirmando a tradição histórica de aliados leais e sinceros".

Fonte:

  • Organização dos Estados Americanos
  • Arquivo exibe "guerra ignorada' no Brasil, Folha de São Paulo, 1998.
  • 1942: O Brasil e sua Guerra quase desconhecida, João Barone, 2013.
  • A Engenharia Norte Americana em Natal, Leonardo Dantas, 2018.
  • Relações Militares: Brasil - EUA 1939/1943, Giovanni Latfalla, 2019

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