Kolberg Luna

14/09/2019 22:37

Vaias no Maracanã. Episódio II (Raí)

Vaias no Maracanã. Episódio II (Raí)

O outro episódio lembrado pelo blog - complementando a postagem anterior - é a sonora vaia recebida por Raí, em 1998.

Assim como Julinho Botelho, personagem do primeiro episódio, Raí também foi vendido para a Europa após a Copa do Mundo. Em 1994, seu destino foi o Paris Saint Germain/FRA. Tornou-se ídolo na França e retornou ao São Paulo em 1998, no primeiro semestre. Em sua reestreia, foi campeão paulista marcando um gol em cima do Corinthians no mesmo dia em que desembarcou no Brasil. Não havia participado mais da seleção desde 1994 e recebeu uma oportunidade para jogar num último amistoso próximo a convocação para a Copa de 1998. O Raí estava muito bem no PSG, a Copa era na França e foi convocado para jogar contra a Argentina, no Maracanã. No banco de reservas, Edmundo, que não aceitava essa condição. Adversário e terreno inóspito, além do “Animal” babando no banco esperando a oportunidade para, literalmente, atacar a presa. Esse foi o contexto de sua reestreia na seleção brasileira.

Raí, que iniciou a Copa de 1994 como capitão e usou a camisa 10, recebeu a camisa 7 para participar do amistoso, enquanto a 10 era dada a Denílson.   

A seleção perdeu por 1x0, com um gol de Claudio “El Piojo” López e a torcida descontou a raiva em cima do irmão de Sócrates, que ainda teve que ouvir o coro bairrista de “Raí, pede pra sair” e a própria torcida gritar “olé” enquanto a Argentina trocava passes.

Esta partida tem duas curiosidades. Foi a primeira e única vez que Ronaldo jogou pela seleção brasileira no Maracanã; e que ele e Romário jogaram juntos pelo escrete nacional, no Maracanã. 

Na ilustração da postagem vemos o momento do gol argentino e o vídeo onde a torcida apupa o jogador Raí.

FICHA TÉCNICA:

Brasil 0 x 1 Argentina

Data: 29.04.1998

Local: Maracanã

Árbitro: Alain Sars (FRA)

Público: 95797

Gols: Claudio López (84’).

Brasil: Taffarel; Cafu, Junior Baiano, Aldair (Cleber) e Roberto Carlos; Zé Elias, Cesar Sampaio, Raí (Leonardo) e Denilson (Edmundo); Ronaldo e Romário. Técnico: Zagallo

Argentina: Germán Burgos; Nelson Vivas, Robero Ayala, Nestor Sensini e Gabriel Zanetti; Matias Almeyda, Juan Verón, Ariel Ortega (Marcelo Delgado) e Diego Simeone; Cláudio Lópes (Mauricio Pineda) e Gabriel Batistuta. Técnico: Daniel Passarela

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: https://www.foxsports.com.br/videos/359691843857-rai-fala-sobre-vaias-no-maracana-em-98-pior-momento-da-minha-carreira; https://www.youtube.com/watch?v=wDv1uSsvnf8

10/09/2019 16:14

Vaias no Maracanã. Episódio I (Julinho Botelho)

Vaias no Maracanã. Episódio I (Julinho Botelho)

O jogador de futebol profissional sabe que a relação com o torcedor é uma linha tênue entre o ódio e a paixão. O torcedor é passional e não poupa o jogador em mau momento ou por ser uma opção do treinador, mas que não é a dele (do torcedor).

O blog lembrará esta semana de dois jogadores e de episódios em tempos bem distintos – 1959 e 1998 – com o mesmo palco: o Maracanã.

No primeiro deles, o personagem é Julinho Botelho que foi do inferno ao céu. Após fazer uma excelente Copa do Mundo de 1954, foi contratado pela Fiorentina/ITA, onde ficou até 1958, sendo, até hoje, um dos ídolos em Florença mesmo após sua morte em 2003. Foi convocado para a Copa/1958, mas pediu dispensa por não achar justo ocupar um lugar de um jogador que estava atuando no Brasil. Para o seu lugar foi chamado Garrincha. O outro ponta-direita foi Joel.  Em maio/1959, tendo retornado da Itália e jogando pelo Palmeiras/SP, Julinho é chamado, junto com Mané, para um amistoso contra a Inglaterra. Garrincha tinha chegado da Suécia, era unanimidade nacional. O torcedor era louco para vê-lo jogar. Julinho estava “voando baixo” no Palestra, mas não vestia a camisa canarinho desde 1954. Vicente Feola, o treinador, chamou Nilton Santos para dividir a decisão e saber com quem iniciava o jogo. Optaram por começar com Julinho e deixar Mané para “fazer o carnaval” no segundo tempo, com o English Team cansado. Quando o alto-falante anunciou Julinho na ponta-direita o que se ouviu foi uma sonora vaia de 120 mil vozes. Nelson Rodrigues assim narrou: “uma vaia pavorosa. A humilhação pública e cruel de um grande atleta”.

Julinho sentiu o nó na garganta. Não esperava essa recepção do povo brasileiro na sua volta a seleção nacional. Os demais jogadores, sentindo o momento difícil, levantaram a moral dele. Foi para o jogo, partiu para cima dos ingleses e aos 5min começou a calar o público ao abrir o placar. Aos 32min, deixou três ingleses “na saudade” e cruzou para Henrique entrar com bola e tudo. Durante o jogo, o ponta-direita fez outras tantas jogadas, empolgando o torcedor e fazendo esquecer aquele que era considerado “a alegria do povo”, que sequer entrou no jogo. Numa partida em que Pelé estava mal, Botelho saiu aplaudido de pé e foi escolhido o melhor em campo, naquela que foi considerada a maior partida da vida dele.

Na foto que ilustra a postagem, a capa da revista Manchete Esportiva em que Julinho, com a camisa 7 da seleção brasileira, comemora o seu gol. 

FICHA TÉCNICA:

Brasil 2 x 0 Inglaterra

Data: 13.05.1959

Local: Maracanã

Árbitro: Juan Brozzi (ARG)

Público: 117.230

Gols: Julinho (5’) e Henrique Frade (32’)

Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando Peçanha e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Julinho Botelho, Henrique Frade, Pelé e Canhoteiro. Técnico: Vicente Feola

Inglaterra: Alan Kopkinson; Donald Howe, James Armfield, Derek Clayton e Billy Wright; Ronald Flowers e Norman Deeley; Peter Broadbent, Bobby Charlton, John Haynes e Albert Douglas. Técnico: Walter Winterbotton

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Grandes Jogos do Maracanã (Roberto Assaf e Roger Garcia); A sombra das chuteiras imortais (Nelson Rodrigues)

08/09/2019 13:42

Cidinho "Bola Nossa"

Cidinho "Bola Nossa"

Em Belo Horizonte, nos anos 60, o árbitro Alcebíades Magalhães Dias ficou conhecido no mundo do futebol como “Cidinho Bola Nossa”. Ele dizia que, na vida, somente uma coisa ele fez melhor do que apitar: torcer pelo Atlético Mineiro.

O apelido surgiu num jogo, no Mineirão, entre o Atlético e o América Mineiro. Após uma dividida na linha lateral, o zagueiro Afonso, do “Galo”, indeciso, pergunta ao árbitro de quem era a bola. De primeira, Alcebíades respondeu: “- Bola nossa, Afonso. Anda! Bola nossa!!!”.

Alcebíades “Bola Nossa” Magalhães Dias, morreu em 2007, aos 93 anos, tendo em seu curriculum inúmeras ameaças de morte e de linchamento e saído corrido de diversos estádios. Sempre negou a história, mas com um sorriso maroto nos lábios.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “O outro lado do futebol” (Teodoro de Castro Lino).

04/09/2019 07:46

Bill Shankly. A lenda do Liverpool

Bill Shankly. A lenda do Liverpool

No mês de março/2019, a Revista France Football divulgou relação com os 50 melhores técnicos de futebol da história. Na relação apenas um brasileiro: Telê Santana. Vários conhecidos, muitos atuais, outros de décadas passadas, mas que não foram esquecidos pela imprensa francesa. Entre eles, William “Bill” Shankly, escocês que foi jogador de futebol de 1929 a 1949 na Escócia e Inglaterra, defendeu a seleção escocesa de 1938 a 1949, foi treinador a partir de 1949 e que identificou-se com o Liverpool, onde permaneceu 15 temporadas consecutivas entre 1959 a 1974. Foi o responsável pelo título da Liga Inglesa e a Copa UEFA, ambos na temporada 72/73. Ganhou três títulos ingleses, uma Copa da UEFA e duas Copas da Inglaterra. Há uma estátua sua no Estádio Anfield, em Liverpool, com os dizeres “O homem que fez sua gente feliz”. Estilo autoritário e impetuoso, ele foi quem mudou o uniforme da equipe, deixando-o todo vermelho. Era temido e estimado, e suas frases e psicologia são famosas.

Numa partida em Anfield, lançou o goleiro prata da casa Tommy Lawrence, que tremia só de olhar para o treinador. A dez minutos do fim do jogo, deixou uma bola fugir-lhe das mãos, passar por entre as suas pernas e entrar no gol, “engolindo um frango”. Encerrada a partida, corre cabisbaixo para o vestiário e dá de frente com Bil Shankly. Com as pernas tremendo e receio nos olhos, pede desculpa ao treinador e eles têm o breve diálogo:

- “Nunca devia ter aberto as pernas para aquela bola, Mr”.

- “A culpa não é tua, filho. A tua mãe é que nunca devia ter aberto as pernas”.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “As melhores histórias do futebol mundial” (Sérgio Pereira)

01/09/2019 10:56

01.09.1976. O primeiro jogo do Flamengo sem Geraldo

01.09.1976. O primeiro jogo do Flamengo sem Geraldo

No ano de 1976, ABC e América eram os representantes potiguares no Campeonato Nacional e dividiram o Grupo F com Flamengo/RJ, Volta Redonda/RJ, Santa Cruz/PE, Sport/PE, Náutico/PE, Flamengo/PI e Sampaio Correia/MA.

Era a estreia do Flamengo na competição, jogando no Maracanã, diante de sua torcida. Noite de quarta-feira, 1º de setembro. A primeira partida sem Geraldo, “o Assobiador”. Ausente no jogo e na vida há exatos sete dias. O Flamengo entrou em campo com o uniforme de listras horizontais em preto e vermelho e os calções pretos, como havia feito em 1955, na primeira partida após a morte do presidente Gilberto Cardoso, cujo coração parou em plena campanha do tricampeonato (1953/54/55). Antes, o grupo havia decidido que para este jogo não haveria concentração na véspera para evitar a tristeza coletiva.

Nas arquibancadas, as bandeiras do Flamengo não foram desfraldadas. E as faixas, dobradas, a permitir que somente o preto ficasse à mostra em sinal de luto. 

A partida foi mostrada ao vivo para o Estado do Rio Grande do Norte pela TV Universitária – Canal 5 – uma novidade para a época. O ABC, com esquema tático defensivo, e o Flamengo, abalado emocionalmente com a perda do jogador Geraldo, fizeram partida monótona e sem criatividade, conforme contou o Diário de Natal. Aos 6 minutos de jogo, numa saída errada de Drailton, Zico lançou Paulinho em profundidade, tendo este cruzado para a área e encontrado o mesmo Zico, que abriu o placar. Aos 31 minutos, o segundo gol do Flamengo, quando Luisinho Lemos passou por três adversários e tocou para Zico marcar novamente.

O maior jogador da história do Flamengo homenageava o seu melhor amigo no futebol da melhor forma: vencendo o jogo e com dois gols.

Na foto que ilustra a postagem vemos o momento do minuto de silêncio que precedeu a partida, com Zico e Luisinho Lemos cabisbaixos. Ao fundo, o árbitro e o volante Drailton (ABC).

FICHA TÉCNICA

FLAMENGO 2 x 0 ABC FC

Data: 01.09.1976

Local: Maracanã

Árbitro: Jarbas de Castro Pedra

Público: 22.494

Renda: Cr$ 344.453,00 (trezentos e quarenta e quatro mil, quatrocentos e cinquenta e três cruzeiros)

Gols: Zico (6’ e 31’)

FLAMENGO: Cantarelli; Toninho, Rondinelle, Jaime e Júnior; Merica, Tadeu e Luiz Paulo (Julinho); Paulinho, Luisinho Lemos e Zico. Técnico: Carlos Froner

ABC: Hélio Show; Fidélis, Pradera, Wagner e Vuca; Drailton, Maranhão e Danilo Menezes (Amauri); Noé Soares, Joel Maneca (Raimundinho) e Xisté. Técnico: João Avelino

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: Revista Placar; Diário de Natal; Jornal dos Sports.

28/08/2019 21:00

O uniforme da seleção brasileira e os inéditos meiões cinzas

O uniforme da seleção brasileira e os inéditos meiões cinzas

A história do uniforme da seleção brasileira é um capítulo à parte na fabulosa narrativa do escrete nacional. Do que era o modelo original, com camisas brancas, até a atual mística da “amarelinha” cultuada por todo o mundo que gosta de futebol, a construção desse padrão não se prendeu tão somente a estética, mas uma boa dose de misticismo e maldição. Porém, é comum a análise do conjunto camisa e calção, onde várias foram as combinações existentes ao longo de 21 Copas do Mundo (1930 a 2018): camisa branca e calção azul, camisa e calção azul, camisa e calção branco, camisa azul e calção branco, camisa amarela e calção branco e camisa amarela e calção azul. 

Todavia, um componente é esquecido quando se fala no uniforme da seleção brasileira: os meiões. E nem sempre de branco ou azul estiveram calçados os nossos craques em Copas do Mundo. É bem verdade que o branco predomina há muito tempo, para sermos mais precisos, desde 1950. A partir daí poucas variações com o azul, a opção “B” do uniforme, embora já tenha sido a cor principal, em 1938. A curiosidade é a introdução de outras cores que não compõem a bandeira nacional e que foram usadas em meiões da esquadra nacional. Nas Copas de 1930 e 1934, o uniforme era a camisa branca, calção azul e meiões pretos. Essa foi a indumentária nas duas partidas de 1930 e na solitária derrota de 1934. Depois de 1934, o branco e o azul imperaram nos pés mágicos das diversas composições da equipe nas Copas do Mundo seguintes, à exceção de dois jogos em 1970. No México, a seleção entrou em campo contra a Inglaterra (num dos jogos mais espetaculares de todas as Copas) e contra o Peru (treinado por Didi) com camisa amarela, calção azul e meiões cinzas. Isto mesmo: meiões cinzas. 

Talvez a superstição de Zagallo possa explicar as razões de uma cor tão diferente das que ostentam a nossa bandeira – mas que é a cor dos meiões do Botafogo – tenha sido escolhida para calçar a seleção nestes jogos.  

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