Historiando

Paulo Freire não é salvação – e nem danação

Paulo Freire não é salvação – e nem danação

Confesso que li pouco sobre Paulo Freire, o pensador da educação mais citado e pouco lido.

Dos livros que ele escreveu conheço Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia, Pedagogia da Esperança e Política e Educação.

Dos livros escritos sobre ele ou sobre sua obra li apenas O educador: um perfil de Paulo Freire (Sérgio Haddad) e Paulo Freire mais do que nunca: uma biografia filosófica (Walter Kohan).

Também li muita coisa escrita sobre ele – contra e a favor – na internet.

É pouco, muito pouco mesmo, mas o suficiente para não tratá-lo como divindade ou como demônio e o necessário para não tomá-lo como o Santo Graal da educação brasileira.

Certamente li bem mais do críticos intransigentes do intelectual pernambucano e bem menos do que estudiosos verdadeiros – verdadeiros e não ocasionais e mitificadores e mistificadores.

O problema da educação, para Paulo Freire, é político. Para ele, tomado por uma visão marxista da história, a educação não deve servir para ascender socialmente, pois isto não serve à revolução marxista. Não são poucas as passagens em suas obras nas quais ele expõe isso. Obter riqueza é algo nocivo e somente favorece à classe dos opressores, pois o desfavorecido social que almeje ascensão irá pertencer ao grupo que deve ser combatido.

Pedagogia do Oprimido não aponta muitos assuntos que ocuparam a cabeça dos reformistas da educação durante o século XX: provas, padrões de ensino, currículo escolar, papel dos pais na educação, como organizar as escolas, que matérias devem ser estudadas em cada série, o modo mais efetivo de educar crianças pobres em todos os níveis. Constitui-se num tratado político utópico que conclama a todos a lutar pelo fim da hegemonia do capitalismo e, na sequência, criar uma sociedade igualitária.

Não por nada, apesar de a esmagadora maioria dos especialistas em Freire dizerem – não sei se com ou sem razão – que a educação brasileira não é norteada pelos ideais e ideias dele, elas estão presentes em vários projetos políticos pedagógicos de não poucas instituições escolares brasileiras, notadamente as públicas.

Para Paulo Freire, os opressores pretendem “transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime”, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os domine." Por isso, ele não parece muito preocupado em dialogar com os mais tradicionais pensadores e educadores do Ocidente, todos ou a maioria imersos no mundo que ele pretende combater e mesmo destruir. Rousseau, Piaget, Dewey, Montessori e outros passam ao largo em sua obra. A preocupação dele é com revolucionários (?!) políticos como Marx, Lênin, Guevara, Fidel Castro, e alguns intelectuais orgânicos do movimento socialista, a saber, Sartre, Debray, Marcuse, Althusser, entre outros. E assim é porque a inquietação dele não está na sala de aula propriamente dita, mas na contradição opressores e oprimidos presente na sociedade ocidental, mais particularmente no mundo capitalista, só havendo um meio de superar este conflito, a revolução. Para isso, caberá aos oprimidos desenvolverem uma pedagogia que os levem à sociedade igualitária e, portanto, livre.

O trecho mais citado nas nossas escolas é este: “Na medida em que esta visão ‘bancária’ anula o poder criador dos educandos ou o minimiza, estimulando sua ingenuidade e não sua criticidade satisfaz aos interesses dos opressores: para estes, o fundamental não é o desnudamento do mundo, a sua transformação. O seu ‘humanitarismo’, e não humanismo está em preservar a situação de que são beneficiários e que lhes possibilita a manutenção de sua falsa generosidade(...). Por isto mesmo é que reagem, até instintivamente, contra qualquer tentativa de uma educação estimulante do pensar autêntico, que não se deixa emaranhar pelas vozes parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto a outro, ou um problema a outro.”

Pincei algumas passagens de Pedagogia do Oprimido porque elas expõem com nitidez o objetivo da obra. No entanto, as ideias não estão somente lá, estão em outras obras do arrojado pedagogo e educador brasileiro, pois em toda ela o seu intento é maldizer uma educação que serve para respaldar a atuação política e social de uma classe que, supostamente, subjuga outra.

Em toda a obra de Paulo Freire uma muleta se faz presente: pensar autêntico.

Mas o que seria pensar autêntico?

Para fazer emergir o pensamento autêntico, Paulo Freire traz à cena a famigerada visão bancária, que representa uma visão antidialógica, burguesa e capitalista. Contra ela, Freire assesta as baterias para demoli-la e substituí-la pelo pensamento autêntico, a saber, aquele que promete atacar as bases da sociedade de opressores e oprimidos.

Manter a coisa como está é garantir que as elites dominadoras continuem manipulando e “inoculando nos indivíduos o apetite burguês do êxito pessoal”, e tal “manipulação se faz ora diretamente por estas elites, ora indiretamente, através dos líderes populistas. Estes líderes, como salienta Weffort, medeiam as relações entre as elites oligárquicas e as massas populares.”

Para prática bancária, o essencial é apenas atenuar esta situação, devendo-se manter “as consciências imersas nela”, enquanto para “a educação problematizadora, enquanto um fazer humanista e libertador, o importante está em que os homens submetidos à dominação lutem por sua emancipação.”

Emancipar-se do sistema capitalista, do desejo de fazer parte do mercado de trabalho para desfrutar de benesses advindas do aumento de renda é algo a ser repudiado e combatido. O jovem que obteve de fato sua emancipação é agente ativo da revolução socialista e não deseja nada além de contribuir para esta: “O ‘homem novo’, em tal caso, para os oprimidos, não é o homem a nascer da superação da contradição, com a transformação da velha situação concreta opressora, que cede seu lugar a uma nova, de libertação. Para eles, o novo homem são eles mesmos, tornando-se opressores de outros. A sua visão do homem novo é uma visão individualista. A sua aderência ao opressor não lhes possibilita a consciência de si como pessoa, nem a consciência de classe oprimida. (...) querem a reforma agrária, não para libertar-se, mas para passar a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados. Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo.” Logo, o indivíduo realmente livre e consciente, para Freire, é o que serve ao coletivo e que anula sua individualidade diante dos postulados coletivistas, e porque não dizer socialistas.

E arremata o pensador da educação que pensa a educação como espaço para fomentar a revolução: “A manipulação, na teoria da ação antidialógica, tal como a conquista a que serve, tem de anestesiar as massas populares para que não pensem”, pois se elas pensarem “associam à sua emersão, à sua presença no processo histórico, um pensar crítico sobre este mesmo processo, sobre sua realidade, então sua ameaça se concretiza na revolução”. A este pensar certo Freire chama “de ‘consciência revolucionária’ ou de ‘consciência de classe’, (...) indispensável à revolução, que não se faz sem ele.”

O “pensar certo”, repito, é somente aquele que serve a causa coletivista, não havendo liberdade para o indivíduo se retirar do processo revolucionário, dado que ele (indivíduo) só existe, como afirmamos acima, se servir ao coletivo. Aquele que deseja fazê-lo é porque ainda carrega consigo o opressor, convertendo-se em inimigo a ser disciplinado.

Valorizar a convivência entre os contrários não é exatamente o que mais move Paulo Freire, afinal o essencial é fazer a revolução, como é possível destacar nesta passagem: “Na verdade, porém, por paradoxal que possa parecer, na resposta dos oprimidos à violência dos opressores é que vamos encontrar o gesto de amor. Consciente ou inconscientemente, o ato de rebelião dos oprimidos, que é sempre tão ou quase tão violento quanto a violência que os cria, este ato dos oprimidos, sim, pode inaugurar o amor. Enquanto a violência dos opressores faz dos oprimidos homens proibidos de ser, a resposta destes à violência daqueles se encontra infundida do anseio de busca do direito de ser. Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão. Por isto é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores. Estes, enquanto classe que oprime, nem libertam, nem se libertam.”

Paulo Freire justifica a violência a ser utilizada pelos oprimidos e a legitima como expressão de amor, como se fosse algo até natural numa ideia de que este grupo o faz para defender e assegurar sua existência. Neste sentido, o educador pernambucano iguala-se a outro luminar revolucionário de esquerda brasileira, o baiano Carlos Marighela, que, no seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano, justifica atos de violência e ódio dirigidos a certas classes e instituições.

Ambos apregoam uma violência e um ódio libertadores. Para Freire, no entanto, a violência é fundadora do amor e com ela traz a verdadeira liberdade.

Lembro de uma sentença de Delfim Neto, ex-ministro dos governos Costa e Silva, Médici e Figueiredo, proferida em 1989, na esteira da queda do Muro de Berlim: “Vejo muita gente dizendo que não precisamos mais estudar o marxismo. Eu discordo e digo isso onde vou. Para mim, agora que o comunismo está ruindo é que devemos estudá-lo, para saber exatamente onde estão os erros.”

Quem critica Paulo Freire diz que nada existe nele que possa nos levar a chamá-lo de educador e pedagogo. Eu discordo da sentença. Ele não é da escola de pensamento que eu siga e propõe muitos caminhos pelos quais eu jamais iria, mas não deixo de reconhecer arrojo no que ele escreve.

Venerá-lo ou amaldiçoá-lo, como fazem críticos e seguidores cegos, não resolve nada.

É preciso lê-lo, até para saber por que não devemos segui-lo.

Moro e o jornalismo brasileiro

Moro e o jornalismo brasileiro

Segunda última (26), o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, esteve no Programa Roda Viva, da TV Cultura.

Roda Viva, que já foi o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira, tem mostrado sinais de desgaste, não pelo seu formato mas pela forma como a bancada de jornalistas, atualmente comandada por Vera Magalhães tem desperdiçado oportunidades de fazer as perguntas certas e que interessem efetivamente ao público.

Penso que o Presidente Jair Bolsonaro é refém dos ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Guedes, apesar de responsável pela política econômica do governo e o seu fiador junto ao capital nacional e internacional, não desperta tanto a atenção do grande público. Além disso, há oferta generosa de ótimos economistas de perfil semelhante no mercado.

O mercado seria abalado com a saída de Guedes, mas se a escolha do Presidente para substituí-lo for de um economista liberal, o assanhamento logo se acalmaria.

A saída de Moro do ministério seria um solavanco considerável, pela aura de herói na qual ele está envolto, porquanto ele simbolizar a luta contra a corrupção dos graúdos da república.

A grande mídia já demitiu Moro mais de dez vezes em um ano (https://diariodopoder.com.br/imprensa-demitiu-moro-mais-de-dez-vezes-em-1-ano/). Em todas foi desmentida. E desmentida e desmoralizada, fica sem saber o que perguntar a ele, como ficou demonstrado no último Roda Viva.

Praticamente um bloco ou um bloco e meio do programa foi desperdiçado com os jornalistas questionando o Ministro sobre a sua suposta submissão ao Presidente. Os jornalistas não pareciam interessados em saber muita coisa sobre o Ministério por ele comandado, mas em constrangê-lo e fazê-lo entrar em confronto com o Presidente, sem sucesso.

Assisto com frequência ao Roda Viva e nunca vi a bancada pressionar tanto um Ministro para que ele confirmasse ou refutasse submissão ao Presidente, nem quando Fernando Henrique foi acusado de comprar a emenda da reeleição ou Lula comandava o mensalão ou Lula e Dilma patrocinavam ditaduras com o dinheiro do Brasil.

A mídia tradicional tem perdido progressivamente credibilidade, em grande medida pela própria postura de construir narrativas sem dar bola para os fatos.

Moro no Roda Viva

Moro no Roda Viva

Não assisti ao vivo ao Roda Viva com Glenn Greennwald.

Dia seguinte vi no YouTube.

Depois fui ver o que corria nas redes sociais.

Bolsonaristas criticavam o desempenho do norte-americano e petistas o elogiavam.

Não assisti ao vivo ao Roda Viva com Sérgio Moro, ontem.

Há pouco vi no YouTube.

Depois fui ver o que corria nas redes sociais.

Bolsonaristas elogiam o desempenho do ministro da justiça e petistas o criticam.

Nada fora do script.

As duas faunas são incapazes de pensar, entretanto gritam como se elaborassem os mais sofisticados argumentos.

Eu, burro de carteirinha, só consigo sorrir.

É o remédio.

Dá licença, o tédio me aguarda.

Sem torcer ou retorcer os fatos, constato que o ex-juiz e atual ministro da justiça é feito de teflon, nada de ruim parece colar nele.

Meus sertanejos avós paternos e maternos diriam que o homem é feito de massa de pão, quanto mais batem mais ele cresce.

Neolilberalismo e neoliberais

Neolilberalismo e neoliberais

Roberto de Oliveira Campos, ex-embaixador, ex-ministro, ex-senador e ex-deputado federal e um dos maiores entusiastas do liberalismo, concedeu, nos anos 1990, ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, uma entrevista na qual dizia não conhecer o neoliberalismo e sim neoliberais.

Segundo Campos, o neoliberalismo é apenas um produto do liberalismo econômico neoclássico, uma redefinição do liberalismo clássico, influenciado pelas teorias econômicas neoclássicas. Logo não há uma escola neoliberal e sim uma escola liberal. Sendo assim, concluiu, o que existe por aí são apenas pessoas que aderiram ao pensamento liberal e não um pensamento neoliberal propriamente dito.

A origem do neoliberalismo deve ser remetida à Escola Austríaca, mais precisamente aos economistas Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek (este discípulo daquele), que formularam o pensamento econômico a partir da Lei de Say e da teoria marginalista, contestadas pelo britânico John Maynard Keynes, contemporâneo de ambos.

O pensamento de Lorde Acton, de Adam Smith e de Jean B. Say foram fundamentais na construção e no desenvolvimento do pensamento de Hayek, pois enfatizava a importância central da moralidade no desenvolvimento de uma civilização avançada.

Para Hayek, uma economia próspera e o desenvolvimento da lei como um processo evolucionário requerem uma sólida ordem moral. Sem isso não haverá uma sociedade saudável, próspera e livre.

A economia mundial experimentou praticamente duas décadas de crescimento contínuo. O lastro de tal crescimento está nos princípios liberais esboçados por Smith, Ricardo, Say, os neoclássicos, Hayek, Mises, Friedman, etc.

O modelo, é verdade, tem suas limitações, mas garantiu crescimento econômico, superou uma sucessão de crises e legou à periferia do capitalismo um lugar de destaque no cenário mundial, com China, Índia, Rússia e Brasil (BRIC) apitando alto sobre os destinos do mundo econômico.

Quando a crise econômica engolfou os Estados Unidos e a Europa, na virada do século/milênio, não faltaram os que euforicamente apontaram a dura realidade.

Como por encanto, esquecemos que o subdesenvolvimento não é uma doença crônica, nem a periferia do capitalismo é o saco de pancadas do mundo desenvolvido.

As teorias terceiro-mundistas serviram durante anos para difundir uma tristeza generalizada contra o desenvolvimento e o risco que seria viver num mundo globalizado. Os seus formuladores e simpatizantes vibram quando há sinais de crise no ar. É o momento em que vêm à cena os Antônios Conselheiros, intelectuais agitam as teorias marxianas não inteiramente desenvolvidas sobre os ciclos econômicos e abundam os seminários e os fóruns alternativos que proclamam o fim do sistema e a emergência de um outro, mais justo e humano, no qual não haverá pobreza, pois a justiça social irá desabrochar e enraizar-se fortemente.

Os mesmos profetas do caos não piam quando a economia mundial vai bem, apenas usufruem das benesses do capitalismo explorador e injusto e torcem para que o trem saia do trilho, pois só assim poderão tornar audível a cantilena tosca e atrasada que adoram difundir.

Na América Latina, dizia Campos, o liberalismo nunca deu o ar da graça, porque os governos desejam “um capitalismo sem lucros, um socialismo sem disciplina e investimento sem investidores estrangeiros”.

Lula, Dilma, Mantega, Mercadante, Mirian Belchior e os do governo tucano, como José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato e outros de alta ou baixa plumagem e democratas do ex-PFL (Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, José Agripino) não eram, não são e nunca serão liberais em política, tampouco em economia. O mesmo se pode dizer de Temer e mesmo de Bolsonaro, forjado na defesa de corporações.

Como essa turma sabe que a história e a política são nutridas por versões, houve em dado momento adesão ao propalado Consenso de Washington apenas por conveniência tática.

Tornaram-se liberais na aparência e intervencionistas na essência, fizeram com o sistema que diziam combater uma aliança conjuntural, oportunista, momentânea e arriscaram, diria Campos, por amor ao passado, perderem o presente e comprometerem o futuro.

Democracia exige pluralidade

Democracia exige pluralidade

Inexiste democracia de pensamento único.

Também não se faz e tampouco se fortalece no pensamento binário.

Democracia exige pluralidade de ideias e de pensamento, liberdade de expressão, tolerância e aceitação das diferenças.

Sem isso, é autoritarismo.

É difícil avaliar um governo, qualquer governo com isenção.

Somos sempre parte interessada e, por isso, parciais.

Como cidadãos, porém, temos o dever moral de denunciarmos e combatermos os erros dos governos e dos partidos políticos, sejam eles quais forem.

Infelizmente, dada a radicalização patente e/ou latente em que vivemos no Brasil, tal postura não ocorre.

Bolsonaristas sentam a pua nas agremiações de esquerda e cegam para as derrapadas do governo.

Esquerdistas batem sem dó e piedade no governo e calam-se quando os erros são de aliados.

Dias desses o jornalista Leandro Fortes foi festejado ao escrever que pouco a pouco os bolsonaristas “estão desaparecendo”, mas permanecem “em silêncio, à beira do abismo. Não estão arrependidos, o arrependimento requer uma força moral distante da maior parte dos eleitores do Bozo. Estão apenas paralisados diante da sucessiva quebra de expectativas relacionadas ao admirável mundo novo que se anunciava”.

A tal força moral ausente nas hostes bolsonaristas também não está presente nos rincões de parcela significativa dos eleitores esquerdistas, ou será que tudo o que foi apurado no Mensalão e pela Lava Jato está no terreno da ilusão de ótica?

O gado que pasta num campo é tão numeroso quanto o gado que pasta no campo contrário.

Um e outro se apresentam como críticos, mas só têm olhos para ver o que ocorre no pasto do adversário e observam bovinamente as artimanhas de amigos e correligionários.

Enquanto assim for, o coronel nascido no sindicato e o capitão do exército estarão suficientemente nutridos para tanger a boiada e o país viverá no binarismo político sufocante.

Sair do maniqueísmo bolso-lulista é condição necessária para a democracia brasileira se fortalecer e se alimentar da seiva do pluralismo.

Adam Smith, um clássico do pensamento econômico

Adam Smith, um clássico do pensamento econômico

Há anos demonizado por quem nunca o leu, o escocês Adam Smith foi o criador de uma obra monumental e dos alicerces do pensamento econômico. Qualquer que seja a corrente do pensamento econômico, ele estará lá, na base. Por isso é um pensador que, como poucos, ultrapassa a barreira do tempo.

Smith, amigo de David Hume, com quem aprendeu muito sobre Filosofia, sofisticando os argumentos, foi um dos principais pensadores do século XVIII, professor inicialmente de Lógica e depois de Filosofia Moral, tendo escrito uma obra de referência sobre o tema, “Teoria dos Sentimentos Morais”, que o alçou à condição de estrela de primeira grandeza no mundo intelectual.

A Filosofia Moral era uma disciplina de concepção extremamente abrangente naquele tempo, pois englobava Teologia Natural, Economia Política, Ética e Jurisprudência.

Intelectualmente reconhecido, fez sucesso também por uma personalidade marcada pela distração.

Na década de 1760 passou uma temporada na França, onde começou a trabalhar no esboço de um tratado de economia política – assunto de suas aulas e bastante discutido com David Hume – que revolucionou o pensamento econômico e foi a sua grande obra.

A “A Riqueza das Nações” foi concebida quase que como um libelo contra as políticas comerciais britânicas, que, segundo ele, enfraqueciam as colônias, desviavam a energia da nação e afundavam em rivalidade os países da Europa.

A obra foi também pensada como uma espécie de contraponto ao trabalho de François Quesnay, principal expoente da fisiocracia e outro monstro do pensamento econômico, a quem Smith teria dedicado o livro.

Quesnay, médico de Mme. Pompadour e doutor da corte de Luís XV, era o maior pensador econômico francês e responsável pela elaboração de um esquema de explicação para o funcionamento da economia denominado de “tableau économique”, proposta que se  opunha à ideia de que a riqueza de um país estava associada ao acúmulo de ouro e prata.

Para o francês, a riqueza econômica originava-se da produção e espalhava-se pelo país.

As ideias de Quesnay, segundo Smith, beiravam à perfeição, mas traziam consigo um entrave para o correto entendimento acerca dos motivos pelos quais um país enriquece, a saber, a ideia de que apenas o trabalhador agrícola produz a verdadeira riqueza e que os trabalhadores da indústria e do comércio alteravam de forma estéril a sua forma.

Precursor dos princípios liberais econômicos, Quesnay falhou enormemente ao descrever o setor industrial como desempenhando apenas uma manipulação estéril da natureza.

Não considerar que o trabalho em qualquer setor poderia produzir riqueza foi o erro que lançou Quesnay à vala comum dos que dão contribuição para o desenvolvimento da ciência, mas que não adquirem o status de ícones do pensamento científico.

Perceber o erro do mestre e corrigi-lo de maneira sublime foi o diferencial de Smith, o ato que o alçou à condição de quase divindade do pensamento econômico.   

Os pensadores que lançaram as bases do liberalismo clássico apontavam a sociedade como algo de extrema utilidade. Para eles, o homem tinha, por mais individualista que fosse, um espírito gregário e uma necessidade premente de segurança coletiva. E, acima de tudo, em se tratando de questões referentes à produção e à distribuição de riqueza, percebia as vantagens econômicas da distribuição do trabalho. Tais pressupostos não seriam possíveis se os homens não vivessem em sociedade.

A divisão do trabalho ocupava (e ocupa) um lugar de destaque na doutrina liberal clássica. Sua posição estava (e está) centrada na suposição de que o egoísmo é inato ao homem e na ideia de que os homens, principalmente os de negócios, deveriam (devem) ser livres para dar asas às suas pulsões egoístas.

A pressuposição de que os homens são egoístas foi levantada no alvorecer da modernidade pelo pensador inglês Thomas Hobbes. Para ele, se não houvessem mecanismos coercitivos, os homens se lançariam uns sobre os outros num estado de guerra que a todos exterminaria. Para Hobbes, nesse estado, a vida do homem seria “solitária, pobre, torpe, bestial e curta”. Havia, porém, uma forma de a isso escapar, dizia o pensador inglês – a instauração de um poder absoluto ao qual todo homem deveria obediência em troca de proteção contra a ameaça representada por outros homens.

As pretensões de liberdade preconizadas pelos liberais clássicos chocavam-se com os ensinamentos de Hobbes.

Adam Smith resolveu com maestria o enigma hobbesiano. Sem negar a existência da competição e da rivalidade geradas pelo egoísmo inato e irrestrito dos homens, ele advogava que as relações de competição eram benéficas para os indivíduos e para a sociedade.

Adam Smith disse que os indivíduos esforçam-se “continuamente para encontrar o emprego mais vantajoso para o capital, seja ele qual for (...)”. Todo indivíduo que não tiver capital, buscará uma ocupação remunerada que lhe traga o maior retorno monetário possível. Logo, afirmava o mestre escocês, se capitalistas (ele não usa o termo, quem o faz sou eu) e trabalhadores ficassem entregues às leis que regulam o funcionamento do mercado, o interesse de cada um levá-los-ia a empregar seu capital ou seu trabalho onde este fosse mais produtivo e mais rendoso. Por isso Adam Smith era contrário a toda e qualquer forma de intervenção – na forma de autoridade, lei, etc – que estabelecesse o que deveria ser produzido.

Sendo assim, os produtores das mais diversas e variadas mercadorias devem, ensinava Smith, concorrer no mercado e disputar a preferência e o dinheiro dos consumidores. Aquele que oferecer o melhor produto pelo preço mais baixo atrairá os consumidores. “Não é da benevolência”, afirmou com autoridade o criador da Ciência Econômica, “do açougueiro, do cervejeiro, do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com o seu próprio interesse”, pois é o interesse próprio, fruto do egoísmo, que levará cada capitalista a aprimorar a qualidade de suas mercadorias. Vender o melhor pelo menor preço possível significará o aumento das vendas e, consequentemente, o aumento dos lucros.

Ler Adam Smith com mais atenção nos livraria do ranço que o define como defensor, a soldo, dos capitalistas britânicos.

Apesar de ser em todos os sentidos um grande livro, “A Riqueza das Nações” não é propriamente uma obra original, visto que toma emprestada uma visão de mundo de uma longa lista de pensadores, tais como Petty, Locke, Turgot, Quesnay, Hume e vários outros. Mas onde todos estes lançaram impressões esparsas sobre temáticas econômicas, Smith refletiu amplamente, lançando luzes sobre todo o cenário econômico – descrevendo da especialização do trabalho numa fábrica de alfinetes aos últimos distúrbios nas colônias americanas, assunto ao qual Smith recorreu a Benjamin Franklin.

Para Smith, as treze colônias, uma nação formidável “que, sem dúvida, prometia se transformar na maior e mais formidável do mundo”, iriam desempenhar papel de destaque em futuro não muito distante.

O livro é a um só tempo denso e revolucionário. Denso porque escrito para expor uma doutrina eficiente para dirigir um império – e não simplesmente para fomentar discussões acadêmicas. Revolucionário porque em pleno processo inicial de consolidação e expansão do capitalismo, não se mostra como um apologista do burguês empreendedor, mas como um admirador do seu trabalho embora desconfiado de seus motivos, sendo a sua preocupação maior promover a riqueza pela nação inteira, só possível com a produção das mercadorias que todas as pessoas da sociedade consomem.

De certa forma, a necessidade de produzir mercadorias em grande número e de boa qualidade inibirá as forças centrífugas da sociedade, pois é do egoísmo que nascerá a coesão social, ou seja, é do interesse individual que são atendidos os interesses do grupo, sem necessidade de qualquer autoridade política.

Como isso seria possível?

Para o pensador escocês, haveria uma mão invisível responsável por orientar as paixões e as vontades individuais na direção de algo benéfico “para o interesse da sociedade inteira”. É dessa proposição que ele formula os pressupostos das leis do mercado, parte integrante de leis maiores que causam a prosperidade ou a queda da sociedade.

As leis de mercado nos apontam que a influência de algum costume numa dada estrutura social traz resultados previsíveis. O egoísmo individual em um ambiente tomado por indivíduos motivados leva à competição – o que significa a produção das mercadorias que a sociedade quer, nas quantidades que exige e nos preços que está apta a pagar.

Isso ocorre porque o interesse e o egoísmo dos indivíduos agem como um poder orientador para dirigir os homens a qualquer trabalho que a sociedade esteja disposta a recompensar. Também porque a competição entre os indivíduos egoístas agiria como um fator regulador, amainando os efeitos nocivos, para a sociedade, do egoísmo individual. Como cada indivíduo quer tirar vantagem de seu companheiro de cobiça, aquele que perder o interesse próprio logo descobrirá que outros competidores ocuparam o lugar dele. O que a primeira vista poderia significar o caos renderia um quadro de harmonia social. Desobedecer a esses imperativos significa, conforme Smith, a ruína econômica.

No período em que Adam Smith escreveu “A Riqueza das Nações”, o mundo social e econômico funcionava dessa forma, visto que o ambiente econômico era de grande competição, com vários pequenos produtores se enfrentando num mercado extremamente atomizado. Um mundo bem diferente do de hoje.

Ainda assim, as ideias de Smith, escritas para explicar o mundo do século XVIII, ainda podem ser aplicadas, com ajustes, no mundo atual.   

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