Historiando

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado)

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado)

Vez por outra ouço colegas e amigos deblaterar contra empresários, financistas, especuladores e toda a fauna que ganha ou tenta ganhar dinheiro no mercado.

O funcionamento do capitalismo exige a livre iniciativa, possivelmente o seu principal pilar.

Isso não significa que o mercado seja deixado inteiramente livre para funcionar.

Um certo grau de regulação existe para abrandar seus defeitos e para maximizar seus muitos benefícios.

Certa feita, ouvi uma conversa entre dois colegas que maldiziam a especulação financeira, como se ela fosse, em si mesma, um mal.

A especulação é um elemento indissociável da vida humana – no campo econômico, político, cultural, etc.

Quando o homem inventou os negócios, o dinheiro e o sistema de créditos, a especulação sofisticou-se.

Na economia, especuladores atuam principalmente no setor financeiro, “apostando” quais vão ser os movimento do mercado.

Quando o especulador atua nos mercados futuros e derivativos, o homem comum associa-o a um jogador compulsivo e não como um agente de gestão de riscos, que atua para azeitar a máquina econômica e, portanto, para melhorar o seu funcionamento.

O homem comum que abomina a especulação é o que muda os seus investimentos para ganhar um pouco mais ao final de um certo período, transferindo recursos de uma caderneta de poupança para um fundo de renda fixa ou deste para uma carteira de ações.

Também especula quando pesquisa na internet em busca em busca de passagens de aviões mais baratas, antecipando a compra porque suspeita que haverá aumento do valor mais à frente. Ou quando compra um carro a prazo, paga juros e usufruiu o seu uso, porque o benefício do bem-estar é maior que o custo do financiamento.

Não há santos no mercado.

Podem faltar oportunidades para que a inocência seja descartada.

O renascimento do DEM

O renascimento do DEM

Vez por outra ouço e leio que o presidente Jair Bolsonaro age como um louco, que é irracional e por aí vai.

Há de tudo nas ações de Bolsonaro, menos irracionalidade.

Bolsonaro age racionalmente, com método.

Política não se faz no palco.

Ela é quase toda feita nos bastidores.

No palco são passadas mensagens e sinalizações para aliados, para adversários e para o público/povo.

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O que Bolsonaro faz, ao contestar o isolamento horizontal e pregar a introdução do isolamento vertical, é preparar o terreno pra responsabilizar prefeitos e governadores pela crise econômica pós-crise sanitária.

Nicolau Maquiavel disse que um “homem esquece mais facilmente a morte do pai do que a perda do patrimônio” e que, por vezes, a sua ambição pode ser “tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.”

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Ao bater no então ministro da saúde, Henrique Mandetta, Bolsonaro pretende tirar de cena um potencial rival política que correria na mesma raia eleitoral dele em 2022.

O DEM controla o Congresso Nacional, com Rodrigo Maia presidindo a câmara de deputados e Davi Alcolumbre, o senado. Ambos praticamente manietam o governo Bolsonaro, mas não garantem ao partido a possibilidade de chegar ao Planalto, sonho acalentado e nunca concretizado.

“Mandetta é um técnico competente”, muita gente disse sobre o ex-ministro.

Mandetta estava numa função técnica, mas era da cota política do DEM (ex-PFL) e agiu, em grande medida, como político, gabaritando-se como nome nacional, o primeiro do PFL/DEM desde Luiz Eduardo Magalhães, que morreu presidente da câmara de deputados, em 1998, ao final do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Luiz Eduardo Magalhães era o nome do então PFL para concorrer à presidência da república em 2002, com alguém do PSDB como companheiro de chapa.

A morte precoce dele deixou o PFL órfão e só agora surge nome nacional para possivelmente concorrer ao Planalto em 2022.

É o melhor momento do DEM nas últimas duas décadas.

O partido certamente escalou Rodrigo Maia, Davi A e Ronaldo Caiado para chutar as canelas de Bolsonaro, enquanto Mandetta passava a imagem de técnico e estadista.

Se Mandetta colar como nome nacional, será nome do campo conservador como alternativa a Bolsonaro.

O grupo de Bolsonaro sabe disso e desgastou o ex-ministro da saúde, fazendo-o sair menor do que estava.  

A desconstrução ainda não foi completada.

Se representar ameaça política, à demissão seguir-se-ão, lançada nas mais variadas mídias, por bolsonaristas e esquerdistas, denúncias contra ele.

É do jogo.

Não há saúde sem esgotamento sanitário

Não há saúde sem esgotamento sanitário

De tempos em tempos, o Brasil tem de encarar o espelho e, quase sempre, a imagem que vê não é das melhores.

Está sendo assim neste momento, quando não só o país mas o mundo foi posto em xeque por um vírus.

Queremos ser grandes e desenvolvidos, no entanto não nos esforçamos muito para isso.

De nada adianta se proclamar grande e rico, porque grandeza e riqueza não são construídas com retórica, mas com trabalho e distribuição de riqueza.

O nosso ufanismo jeca uma vez mais precisa sair de cena para que encaremos a dura realidade: as nossas Escolas (do ensino médio ao superior) são um desastre, os nossos hospitais estão abandonados pelo poder público, as nossas cidades estão mergulhadas em fezes e urina e grande parte de nossa população mora e come mal.

Tudo isso já era sabido, o coronavírus apenas arregaçou, afinal não é segredo para quase ninguém que grande parte das nossas residências não têm fossa séptica; as saneadas jogam os seus efluentes, sem tratamento, em rios e no mar.

O rio Potengi, que divide Natal ao meio, é uma prova da irresponsabilidade criminosa de prefeitos e governadores.

O coronavírus tem tudo para fazer história por aqui por sua entrada triunfal em cena.

Mas, vamos e venhamos, se formos pensar em regularidade, os coliformes fecais são mais longevos e efetivos e têm batido um bolão.

Os fatores para a sua efetividade podem ser indicados por dois fatores: legislação leniente e ignorância e imediatismo da população e dos governantes.

Os indicadores de qualidade de vida no Brasil, nos últimos cento e vinte anos, mostram que evoluímos – e muito – em vários aspectos, exceto em um.

Os números não deixam dúvidas: a coleta e tratamento de esgoto permanece, digamos, estacionados. Mais de 50% da população ainda não tem acesso ao benefício.

Não é preciso ser gênio para saber que a falta de esgotamento sanitário contribui significativamente para a proliferação de doenças, que, segundo dados oficiais, são responsáveis pela internação de mais de setecentas mil pessoas por ano.

O investimento no setor certamente traria mais benefícios para a saúde do que a construção de hospitais, a compra de equipamentos sofisticados e a contratação de médicos e enfermeiros.

A ignorância da população sobre o assunto alimenta a fome de prefeitos e governadores por investimentos mais vistosos e menos benéficos para o povo, levando-os a gastar mais em obras que serão menos efetivas e eficazes do que enterrar canos e montar estações de tratamento de efluentes.

A chegada ao palco do coronavírus mostra que em muitas residências do país faltam banheiro, água tratada e rede de esgoto para coletar e tratar fezes e urina.

Um dia, talvez, saíamos da m...

Renda mínima nasce como pauta liberal

Renda mínima nasce como pauta liberal

Marina Silva e Jair Bolsonaro, adversários políticos e ideológicos, apresentaram durante a campanha eleitoral de 2018 proposta de renda mínima.

Quem não conhece o tema talvez estranhe que dois candidatos considerados de direita pela esquerda descolada tivessem em sua plataforma eleitoral um conceito que ela julgava monopólio seu.

A tchurma ficaria de cabelos eriçados se soubessem que a proposta talvez tem relação direta com os responsáveis pelo programa econômico dos dois candidatos acima citados – Eduardo Gianetti e Paulo Guedes, dois economistas liberais de intensidade diferente.

O debate sobre o tema no Brasil é feito de maneira torta, quando não equivocada e mesmo mentirosa, pois o PSDB e o PT e toda a tchurma assumem a paternidade da proposta, quando a ideia nasceu pelas mãos de dois luminares do que se convencionou chamar de neoliberalismo: o austríaco Friedrich von Hayek e, principalmente, norte-americano Milton Friedman, agraciados com o Nobel, respectivamente, em 1974 e 1976.

A mesma tchurma ficaria alucinada se soubesse que a proposta ganhou formato real na prancheta de Milton Friedman, professor da Universidade de Chicago, berço de economistas monetaristas, os mais ortodoxos entre os liberais.

Para Hayek, em Os Fundamentos da Liberdade, uma renda mínima para todos constituiu “uma proteção perfeitamente legítima contra um risco comum a todos”.

A visão do economista austríaco está em consonância com as ideias liberais que defende.

Para ele, a propriedade privada e o livre mercado são as armas mais importantes contra a submissão e a coerção, pois aqueles que não têm propriedade ou renda são vulneráveis à coerção e ao abuso de poder. Tal vulnerabilidade destrói as bases da liberdade sobre as quais estão assentadas as democracias liberais.

Em Capitalismo e Liberdade (1962), Milton Friedman desenvolve a ideia de um programa de renda mínima, com a introdução de um imposto de renda negativo.

Os cidadãos que tivessem renda inferior a um determinado valor não pagariam o imposto e ainda receberiam uma transferência do governo proporcional ao valor que falta para chegar ao piso. (http://mercadopopular.org/economia/o-outro-milton-friedman-o-criador-do-bolsa-familia/)

Para ele, isso seria mais racional e mais eficaz do que o governo impor regulações e controle de preços.

A proposta do economista norte-americano, omitida casual ou intencionalmente por social-democratas e por socialistas, não previa contrapartida alguma e tampouco rede estatal de proteção social.

Como a transferência seria direta, cairiam os custos burocráticos com a administração de programas sociais e também o risco da corrupção, porquanto eliminar a necessidade de o governo coletar informações e monitorar quem está ou não habilitado a receber o benefício e permitir ao beneficiado escolher como utilizar os recursos.

Segundo Friedman, as vantagens da renda mínima são evidentes, pois qualquer “medida para mitigar a pobreza reduz o incentivo para que os pobres ajudem a si próprios, mas não o elimina inteiramente”.

O primeiro programa de renda mínima implantado na América Latina foi o Subsídio Único Familiar, criado em 1981 em plena ditadura Pinochet, que dava dinheiro às famílias pobres que mantivessem seus filhos na escola. Não custa lembrar: o guru econômico do governo Pinochet, entre os anos 1970-80, foi Milton Friedman.

Até o senador petista Eduardo Suplicy, um dos maiores defensores de uma proposta renda mínima no Brasil, bastante deturpada (https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/em-24-anos-de-senado-suplicy-so-pensou-na-renda-minima-e-a-tese-e-um-desproposito-em-favor-dos-8230-ricos/), reconhece no seu livro Renda de Cidadania a influência liberal da proposta que ele encabeçou, citando Hayek e Friedman.

Quem sabe é quem sabe ou quem tem diploma?

Quem sabe é quem sabe ou quem tem diploma?

Nestes tempos bicudos, em que somos obrigados a ficar em casa para que não sejamos vítimas de um vírus de baixa letalidade mas tinhoso como o cão, o Brasil assiste a um fenômeno que deveria ser pedagógico: conhecimento independe de diploma.

O diploma atesta apenas que o fulano que o possui cursou um certo programa com componentes curriculares, atendendo portanto os requisitos formais.

Faz sentido para certas profissões, notadamente aquelas em que o erro tem consequências graves sobre a vida das pessoas.

Em outras, sentido quase algum, pois não é necessário ser graduado em uma determinada área do conhecimento para que saibamos sobre ela.

É um caminho, mas não o único caminho, pois se assim fosse Nélson Rodrigues e seu irmão Mário Filho ou Roberto Marinho e Assis Chateaubriand não poderiam exercer a profissão de jornalista, Celso Furtado e Pedro Malan não poderiam ser economistas, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda estariam deslocados nas universidades e por aí vai.   

Mário Henrique Simonsen passou por situação inusitada: foi professor visitante de Economia em Harvard e aluno de graduação de Economia numa faculdade norte-americana pouco prestigiosa, porque o Conselho de Economia questionou o fato de ele ser economista da Confederação Nacional da Indústria sem ter graduação na área.

Os conselhos profissionais criam exigências de diplomas para o exercício das profissões, até na docência, nível básico e superior.

Os melhores professores de administração do mundo não estariam habilitados para lecionar nas universidades brasileiras porque não são formados em Administração.

O diploma tem servido, muitas vezes, para garantir reserva de mercado, impedindo aqueles que têm conhecimento mas não dispõem do diploma de exercer a profissão para a qual se candidata.

Caso o mundo percorresse os passos do Brasil, os psicólogos Daniel Kahneman e Herbert Simon e o matemático John Nash não seriam premiados com o Nobel de Economia pela Academia de Ciências da Suécia.

A carreira dos professores-pesquisadores por aqui é enaltecida pelas publicações que conseguem emplacar, ignorando-se quase por completo outras realizações no campo profissional.

Se um bambambam do mundo dos negócios inventar um modelo revolucionário, verá sua carreira docente menos valorizada do que um colega que escrever um artigo sobre o modelo revolucionário.

Gostamos de papel. E como o diploma é um papel com timbre, ele tem muito mais valor.

E assim, a ditadura do diploma inviabiliza e atrasa a produção do conhecimento.

O pior do Brasil é o brasileiro médio

O pior do Brasil é o brasileiro médio

Uma frase de Câmara Cascudo ilustrou a campanha da ABA (Associação Brasileira de Anunciantes), em 2004, que buscava resgatar a auto-estima do brasileiro (Eu sou brasileiro e não desisto nunca): “O melhor do Brasil é o brasileiro”. (http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2004-07-19/campanha-quer-resgatar-auto-estima-do-brasileiro) (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2007200403.htm)

Dezesseis anos depois, quando o mundo e o Brasil estão numa encruzilhada histórica trágica, o brasileiro médio ainda não entendeu o enredo.

Neste início de 2020 estamos diante de uma escolha de Sofia: matar milhões ou matar milhares.

A Itália cochilou e assiste a uma parcela de sua população de idosos morrer como moscas.

A responsabilidade cabe ao povo italiano, mas também e principalmente a algumas de suas lideranças políticas deve ser debitada a salgada conta.

Para quem não lembra, Dario Nardella, prefeito de Florença, a terra de Nicolau Maquiavel, viu nas reações iniciais ao corona-vírus a ressurreição de antigos e adormecidos preconceitos raciais.

Para combatê-los, o doidivanas lançou uma campanha resumida em três palavras: “Abrace um chinês”.

Fevereiro estava começando e, fora da China, a epidemia contabilizava 186 casos confirmados e somente um óbito.

Pouco mais de uma mês depois, da primeira para a segunda semana de março, a epidemia começava a se espalhar pela península itálica, quando Nicola Zingaretti, presidente da Lazio e secretário do Partido Democrata, com o vírus alojado no seu corpo não procurou atendimento especializado no leito de uma UTI.

O segundo doidivanas italiano defendia a tese segundo a qual o aumento exponencial dos casos confirmados aumentaria a velocidade da produção de anticorpos que deteriam o avanço do vírus.

O resultado da irresponsabilidade das duas sumidades todos sabemos: a Itália está prostrada frente ao inimigo invisível (https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/coronavirus-italia-tragedia-populismo/).

Por aqui, abaixo da linha do Equador, onde não existe pecado, as autoridades têm, de um modo geral, tirando um ou outro desmiolado, atuado com certa presteza.

Cabe à população cooperar, cumprindo o básico: manter-se em casa.

É nosso dever salvar a maior quantidade possível de pessoas.

Mas o que testemunhamos e fazemos?

 “Roubamos” álcool em gel nas farmácias para estocar, deixando parte de nossos compatriotas e concidadãos sem o produto, transitamos pela cidade, lotamos praias e programamos festinhas e churrascadas como se nada houvesse, descumprindo o chamamento ao isolamento social, compramos remédios importantes para manter a saúde de doentes de malária porque ouvimos ou lemos notícias sobre a possível eficácia do remédio, ainda não inteiramente comprovada, no combate ao corona-vírus, e condenamos os necessitados dos remédios a ficarem sem acesso a eles. (https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/03/20/coronavirus-hidroxicloroquina/) (https://exame.abril.com.br/ciencia/as-diferencas-entre-a-malaria-e-a-covid-19-os-riscos-da-hidroxicloroquina/) (https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/03/20/interna_gerais,1130771/infectologistas-medicamento-para-malaria-nao-combate-coronavirus.shtml)

Pior: pomos a politicagem à frente da boa política.

Em suma, optamos por matar o maior número possível de pessoas.

O Brasil já foi o país do futuro, título do livro do judeu-austríaco Stefan Zweig, que, fugindo do nazismo, radicou-se na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.

De país do futuro, caminhamos, se o bom senso não aparecer por aqui, pra ser um país da irresponsabilidade e, no limite, de homicidas dos nossos familiares, amigos...

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