Historiando

Um visionário

Um visionário

 

Um visionário

 

Canções sinfônicas ao amanhecer:/

a bandinha interiorana,/

composta de músicas do povo,/

toca à janela/

para os meus ouvidos/

 cansados.

Toca, toca, bandinha!

Vem me acordar/

todas as manhãs/

pra que eu possa/

viver eternamente/

esse instante fugaz.

 

Eduardo Gosson. O ciclo do tempo.

 

 

Quase não acreditei quando recebi, às 08h00min do dia 18 de fevereiro deste ano de 2022, a notícia da morte do escritor Eduardo Gosson. Não estava em Natal, ou melhor, no Rio Grande do Norte. Tinha acabado de despertar naquela manhã de sexta-feira. Adquiri o hábito, como a maioria das pessoas nos dias atuais (assim, creio), de ler as mensagens no aplicativo de comunicação instantânea WhatsApp numa estratégia de obter informações em tempo real.

A ex-presidente da União Brasileira de Escritores-seção RN, Tereza Custódio, com quem de vez em quando me correspondia, fora a mensageira:

NOTA DE PESAR É com pesar que a União Brasileira de Escritores UBE-RN comunica o falecimento do confrade e ex-presidente Eduardo Gosson, nesta sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022. Enviamos nossas condolências e externamos apoio e solidariedade aos familiares e amigos nesse momento de luto e dor.

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu primeiro gesto foi responder-lhe a mensagem em busca de dados complementares sobre o ocorrido, o que procurou atender-me na medida do possível. Esclareceu-me a causa: Covid-19. Eduardo havia contraído a moléstia em decorrência de uma urgente internação hospitalar para tratamento de uma pneumonia que o levara à desidratação. Deixou-nos, portanto, aos 62 anos. Iria completar 63 em junho. Em nossos tempos, um óbito nessa idade é ainda, por incrível que pareça, tido como precoce. Fiquei “sem chão”, como se diz, impossibilitado de até despedir-me daquele que foi um verdadeiro militante da cultura do RN. Primeiro, em razão da distância; segundo, devido à pandemia em curso, pois ir ao velório, ou mesmo ao sepultamento, seria um enorme risco, tendo em vista de que convivo com uma pessoa portadora de comorbidades.

Dizem que, ao se ter ciência da partida de alguém rumo à eternidade, especialmente em se tratando de um alguém mais ou menos íntimo, a pessoa relembra vários momentos ao lado desse alguém. Como eu sou um memorialista por natureza (mesmo ainda não tendo tido coragem, nem idade para assumir tal ofício) uma tempestade de lembranças invade o meu cérebro por meses e meses até não conseguir mais resgatar do subconsciente nada mais importante que possa ser registrado. Assim, decidi escrever sobre o autor em questão.

Nascido em Natal/RN, em 01 de junho de 1959, Eduardo Antônio Gosson era de família libanesa que aportou no Brasil no ano de 1925, após 21 dias dentro de um navio, estabelecendo-se na região Nordeste, mais precisamente em Maranguape/CE (são esses os informes colhidos dos principais jornais culturais do RN, bem como de livros e sites sobre o autor). Cinco anos depois, houve a mudança para o Rio Grande do Norte. A atividade jornalística iniciou-se ainda no ensino médio, à época 2º grau escolar, junto com os colegas, editando jornais alternativos como Equipe e O letreiro. Em seguida, veio a editoração do suplemento Contexto, pertencente, naquele período, ao jornal potiguar A República. Este encarte costumava sair aos domingos e, às vezes, aos feriados. Além de poeta, jornalista, historiador e memorialista, Eduardo Antônio Gosson era sociólogo de formação acadêmica. A formação universitária, claro, fê-lo adotar, desde cedo, um posicionamento político-ideológico de esquerda, atuando, desse modo, também na política sindical aproximadamente nos anos 80 e 90.

No meio de tudo isso, veio a literatura. E a poesia foi o seu norte. Seu primeiro trabalho, publicado nessa área, ainda nos anos 90, foi o livro O ciclo do tempo. Sucederam-se os seguintes: Poemas das impossibilidades (2007) e Entre o azul e o infinito (2012). Outrossim, incursionou-se na pesquisa histórica, colaborando com a preservação do patrimônio do Poder Judiciário Estadual, a partir do final dos anos 90, ao lançar em livro a sua História do Poder Judiciário do RN e, na sequência, em 2005, Ministros Potiguares. Com o reconhecimento de uma parte desse trabalho, viria a se associar ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte em 1999. Ademais, tal iniciativa fez com que Eduardo Gosson assumisse a diretoria do Memorial Desembargador Vicente Lemos, anexo do Tribunal de Justiça do RN. Foi neste último espaço que o conheci pessoalmente no ano de 2011. Dias antes, pesquisando sobre literatura do Rio Grande do Norte, encontrei na web o site da União Brasileira de Escritores – seção RN, e ele era o presidente. Recordo-me que telefonei para o escritor Alexandre Abrantes, sócio-efetivo, com quem tenho amizade até hoje, e pedi-lhe dados sobre a referida entidade cultural cuja matriz é em São Paulo, mas que possui filiais em todos os estados da federação. Tive a promessa de que uma indicação, para tornar-me membro da UBE/RN, aconteceria. No entanto, talvez, o excesso de compromissos, já tomados, deve ter impedido que tal ação se consolidasse, e eu acabei tomando a liberdade de ir sozinho apresentar-me a Eduardo. Também me recordo da cena, chegando ao 1º andar do Memorial Desembargador Vicente Lemos, onde, naquele ano, funcionava a presidência da UBE-RN. Assim que deixei o elevador de acesso, após ter sido orientado por um dos vigilantes quanto ao caminho que deveria percorrer, logo dei de cara com a sala da presidência. Num birô largo, de madeira de lei, encontrava-se o escritor. Parecia que estava à espera de alguém enquanto conversava com um colega seu, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o genealogista e historiador Ormuz Barbalho Simonetti, o qual, anos mais tarde, exerceria o cargo de presidente da aludida entidade centenária.

─ É Pedro? ─ dirigiu-se a mim logo que me viu entrar.

─ Não! É Paulo ─ corrigi sem saber direito o motivo de ele me ter nomeado assim. Possivelmente, esperasse um Pedro. O fato é que a circunstância foi até um pouco cômica.

Desculpou-se pelo equívoco, e eu, pedindo licença, comecei a falar à medida que também fui me sentando numa cadeira ao lado da que estava sentado Ormuz, antes, é claro, tendo o cuidado de pedir permissão. Prontamente atendido, manifestei o interesse em associar-me à UBE-RN, afirmando que era escritor, mas que ainda não tinha livros publicados. Por um instante, achei que isso seria um impedimento e já ia desanimando diante desse pormenor. Eduardo, de súbito, pegou um documento que era a ficha de inscrição do associado e entregou-me.

─ Aqui está! Deverá preencher e devolver-me depois.

Surpreso com o ato, acrescentei-lhe que possuía trabalhos engavetados e nenhuma condição financeira de publicá-los. Foi quando me falou do selo editorial que a UBE-RN estava criando: Nave da palavra, que adiante editaria os meus primeiros livros. Outro projeto em curso era o Concurso Literário Prêmio Escritor Eulício Faria de Lacerda, que premiaria em dinheiro os dois primeiros colocados, além de uma publicação do trabalho do primeiro colocado. Eduardo era um educador e empreendedor. Enxergava longe boas ações sociais, mesmo que algumas delas não viessem a se materializar por falta de apoio do poder público e do poder privado. A verdade é que ele tinha boas intenções. Idealizador de um lugar ao sol para o artista potiguar, sobretudo para o escritor, sempre procurou dar visibilidade à literatura do RN. Firmou parcerias com gráficas para que o selo editorial Nave da palavra funcionasse (o que em parte ocorreu); a criação de um curso sobre literatura do RN para professores da Rede Pública Estadual de Ensino, diretamente ministrado nas dependências da Fundação Hélio Galvão, dirigida pelo filho do então advogado e historiador, o poeta e ensaísta Dácio Galvão; parcerias com outras entidades culturais para que cedessem espaço a reuniões da diretoria executiva, como foi com a Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL), onde os associados puderam lançar os seus livros pelo respectivo selo editorial; com livrarias, dentre elas a extinta AS Book Shop, no bairro de Lagoa Nova, em Natal, a fim de que promovessem encontros literários. Dessa empreitada, surgiu o projeto Letras potiguares. Consistia em debates sobre obras e autores do RN. Eu mesmo tive o privilégio de participar de uma das edições em 2003. Nesta noite, Avelino de Araújo e Falves Silva, os adeptos do poema concreto e do poema processo dos anos 60, foram os homenageados; porém, só o último compareceu. Eduardo, mesmo ainda sem nos conhecermos pessoalmente, coordenou com afinco a sessão na livraria. Não cheguei a falar com ele. Só tive a chance de conhecer, nesta mesma noite, Falves, sempre muito bem-humorado, Jania Souza e Marcos Cavalcanti; os dois últimos pertencentes a uma entidade cultural que eu viria a integrar anos mais tarde: a Sociedade dos Poetas Vivos & Afins do Rio Grande do Norte (SPVA-RN). Lembro a gentileza de Marcos convidando-me, desde aquele ano, a associar-me à SPVA-RN; contudo, somente em 2012, já servidor público federal, é que eu daria também esse importante passo na direção do sonho de ser escritor.

Por falar em 2012, foi por ali que eu, aos 31 anos, lancei o primeiro livro: No ventre do mundo. Um ensaio literário agraciado com o 1º lugar no ano anterior (2011), no Concurso Literário Prêmio Eulício Faria de Lacerda, citado acima. Em sessão solene, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, na noite de 24 de outubro de 2011, obtive das mãos de Eduardo Gosson o certificado e a quantia em cheque. O escritor e dramaturgo Racine Santos, nacionalmente conhecido por seu trabalho na história do teatro, ficou em 2º lugar. Depois, soubera que este, em tom de brincadeira, confessaria em discurso, perante a mesa acadêmica, a sua surpresa pelo resultado, uma vez que ficara atrás de um jovem, à época, no apogeu dos seus 30 anos. Tudo se deu durante o Encontro Potiguar de Escritores, um evento todo ano organizado pela UBE-RN.

UBE RN: O PRESIDENTE DA UBE/RN, CONVIDA PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO DE PAULO  CALDAS NETO, NO DIA 08-08-2012, NA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS.

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Lançamento do livro “No ventre do mundo” na Academia Norte-rio-grandense de Letras – 08 de agosto de 2012. Ao lado do autor, Eduardo Gosson, convidados e o escritor e Presidente da Sociedade Brasileira de Dentistas Escritores Rubens Azevedo.

 

O que assinalo aqui é apenas um breve testemunho da experiência ao lado de um homem grande, um visionário. Um homem que cometeu muitos erros e muitos acertos como todo mundo. E principalmente: nunca se traiu quanto aos seus ideais. Infelizmente, foi pouco tempo de convívio. E apesar das modestas divergências que nós dois tivemos, manteve, até o último suspiro, sua posição diante do mundo e do Brasil. Foi generoso com os outros, até mesmo com as novas gerações de escritores, sempre incentivando seus talentos. Há muito ainda a ser escrito sobre a figura de Eduardo Antônio Gosson, o que espero fazê-lo em projeto ainda em maturação. Agora, entrou, como costumava dizer, “na Nau da eternidade” para seguir seu destino junto aos seus, com a certeza de que cumpriu, em parte, a sua missão na terra. Vai, amigo! E tenhas a convicção de que se depender de muitos daqueles que reconhecem o valor do teu ser e da tua obra para o RN, tu jamais serás esquecido. Boa viagem!

 

Por Paulo Caldas Neto

 

A mídia palpiteira

A mídia palpiteira

“A culpa é da mídia” é o clichê mais lido e ouvido.

A imprensa costuma levar a culpa por tudo ou por quase tudo. Durante os períodos mais críticos da pandemia, apanhou como mala velha. Algumas vezes com justiça. Agora, com a guerra Rússia-Ucrânia, volta a apanhar, por cometer os mesmos erros, a saber, a faltar de rigor na apuração dos fatos e por encher as redações de palpiteiros que se danam a falar e a comentar sem base alguma na realidade. No Brasil, apanha dos dois lados do espectro ideológico que se engalfinham de maneira ressentida.

A confiança na mídia diminuiu, no mundo (https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/06/12/interna_internacional,1061342/confianca-na-midia-diminui-no-mundo-segundo-reuters-institute.shtml) e no Brasil (https://mediatalks.uol.com.br/2021/01/29/estudo-global-mostra-indices-de-confianca-na-imprensa/).  E não foi pouco. O Brasil, ressalto, está entre os países que menos confiam na mídia (https://revistaoeste.com/brasil/apenas-47-dos-brasileiros-acreditam-na-midia-diz-pesquisa-internacional/).

Identifico duas causas como importantes para a queda, a saber, a vontade quase inexistente que ela, a mídia, tem de olhar para si e fazer a autocrítica que tanto cobra de outras instituições e o afastamento e o descompromisso cada vez maior, principalmente com o advento das mídias sociais, com o trabalho de reportagem, que se reflete na vitória da opinião sobre a informação.

O conteúdo digital afastou leitores do jornalismo impresso e mesmo dos telejornais, reduziu performances de campanhas movidas a grandes audiências e levou à revisão das estratégias de muitos veículos de comunicação, que demitiram profissionais e reduziram estruturas.

Acompanho o trabalho da mídia com muita atenção desde o início da última década e vejo com muita preocupação a ansiedade de muitos profissionais da área por entrarem em polêmicas. Assim tem sido porque as mídias sociais exigem jornalistas com perfis destemidos e sempre prontos para esgrimir argumentos, ainda que sem base factual alguma. Desta forma, saiu de campo o jornalista anônimo que buscava as informações e as apresentava com a capa da imparcialidade e ocupou o espaço os articulistas, os opinadores e os palpiteiros, que, sem informações concretas a apresentar, ficam borboleteando, fazendo insinuações, falando platitudes ou expondo “consensos”. Tal caminho tirou da imprensa a vontade ou a capacidade de contar boas histórias, os repórteres deixaram de reportar, a informação deixou de circular, substituída pela opinião torcida e retorcida.

A mídia é umas das principais responsáveis pela própria crise, mas há certo exagero de parte da sociedade quando a ela atribuiu praticamente todas as mazelas que ocorrem. O que há de fato é que o poder não gosta da imprensa, mas precisa conviver com ela. Max Weber, em A política como vocação, diz com acuidade e genialidade como a convivência é conflituosa: “É de mencionar, por exemplo, a circunstância de frequentar os salões dos poderosos da Terra, aparentemente em pé de igualdade, vendo-se, em geral e mesmo com frequência, adulado, porque temido, tendo, ao mesmo tempo, consciência perfeita de que, abandonada a sala, o anfitrião sentir-se-á, talvez, obrigado a se justificar diante dos demais convidados por haver feito comparecer esses ‘lixeiros da imprensa’.”

***

Uma das grandes contradições de nossos intelectuais, artistas, professores e outros da fauna pretensamente progressista é o amor que nutrem pelas próprias falas. E lutam para que elas ganhem o mundo nas ondas da mídia, enquanto paralelamente trombeteiam contra ela sempre que se sentem desgostosos com o que lá é veiculado.

Liberdade: por que e para quem?

Liberdade: por que e para quem?

No último 05/02, o vereador Renato Freitas, do Partido dos Trabalhadores (PT), e um grupo de manifestantes, com bandeiras do PT e do PC do B, invadiram uma igreja no centro histórico de Curitiba. Dias depois, desculpou-se pelo ato e, parece, a facção política (veja o conceito em Robert Michels) a qual é ligado pouco tinha ficado contrariada com o ocorrido e os mais próximos a ela aceitaram imediatamente as desculpas do vereador petista (https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2022/02/10/vereador-que-participou-de-invasao-em-igreja-durante-protesto-em-curitiba-pede-desculpas-nao-foi-intencao-ofender-o-credo-de-ninguem.ghtml). No momento da invasão, fiéis celebravam um culto e foram interrompidos pelos manifestantes, que ofenderam os religiosos com palavras de baixo calão, além de chamá-los de racistas e fascistas. Um dos mais exaltados, Renato Freitas dizia que os católicos apoiavam autoridades fascistas. Nasci e fui criado numa família católica (mais por minha mãe do que pelo meu pai, apenas deísta) e sou, desde a adolescência, completamente afastado de qualquer templo religioso. No entanto, vejo em atos do tipo uma fagulha de ódio ao cristianismo e a muitos dos valores por ele propagados. Casos assim, ressalto, teriam a imediata repulsa de intelectuais, artistas e que tais caso ocorressem em espaços de culto de origem africana, por exemplo. E a imprensa, que chegou a denunciar timidamente a manifestação liderada pelo vereador curitibano, ficaria exaltada. Fascistas e intolerantes seriam gritos de guerra e logo Casagrande surgiria para dizer que tudo isso poderia ser explicado pela “semente do ódio plantada em 2018”. Algum partido de esquerda apresentaria, com sobeja razão, um boletim de ocorrência na polícia e/ou uma manifestação no ministério púbico, afinal a Constituição assegura, no seu artigo 5º, inciso VI, a proteção aos locais de culto e suas liturgias, e o código penal, no artigo 208, prevê como crime a perturbação de cerimônia ou vilipêndio público de ato ou de objeto de culto religioso. É justo que qualquer cidadão brasileiro proteste, como alegou o vereador petista, “contra o racismo e a xenofobia”. Porém, há limites a serem observados e o grupo do qual ele fazia parte ultrapassou-o claramente, mesmo porque não existe nexo causal entre os tristes episódios ocorridos no Rio de Janeiro (por exemplo, o assassinato de um jovem negro e africano numa barraca de praia) e o evento religioso celebrado em Curitiba, a mais de 800 km de distância. Para justificar a bagunça, o vereador veio com aquelas baboseiras de sempre: “nenhum preceito religioso supera o amor e a valorização da vida, todas as vidas, inclusive as negras”, etc, etc e etc, como se os fiéis que se encontravam na igreja tivessem direta ou indiretamente envolvida nos hediondos fatos ocorridos no Rio de Janeiro. Ou como se a igreja católica tivesse dado guarida àquilo. Embora protestos sejam lícitos e legítimos dentro do arcabouço moral da cidadania e da civilização, são intolerantes todos aqueles realizados com violência e com desrespeito. E são ainda mais chocantes quando realizados ou aplaudidos por autodeclarados democratas. Não vou enveredar pela senda de que o que ali estava presente era a guerra cultural ou coisa do tipo. Entretanto, sigo firme dizendo que o motor que impulsiona Renato Freitas e assemelhados é a intolerância contra tudo aquilo que não faça parte do caldinho cultural do mundo deles. Qualquer um que se ponha à frente deles precisa ser destruído. Foi este radicalismo que tirou da sonolência o seu exaro contrário e, agora, ambos se enfrentam numa guerra de vida e morte. Pode haver abismos entre a liberdade e os discursos que nela falam, como hoje está sobejamente demonstrado, pois a intolerância e o desapreço pela liberdade aparecem de forma clara nos dois lados do espectro ideológico que se enfrentam, no Brasil, com mais ardor. Como já disse outras vezes, se há um princípio sobre o qual não transijo é o da liberdade de expressão – aquela que permite e dá guarida aos que não concordam conosco de se manifestarem, porquanto o que entendemos por tolerância é, acima tudo, o esforço positivo para admitir a existência de crenças e opiniões diferentes das nossas. Alguém já disse – e eu concordo – que ser tolerante não significa que eu compartilhe a crença de outro, mas que reconheça o direito do outro de acreditar e obedecer à sua própria consciência. Logo, a liberdade não existe para destruir o outro, mas para garantir que diferentes sobrevivam e coabitem os mesmos espaços sociais. Sem ela e sem o respeito à sua existência, todos soçobraremos.

Eu prefiro Caloi

Eu prefiro Caloi

Dias desses, o podcaster Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, foi cancelado e escorraçado do mundo virtual, hoje a cloaca do mundo.

Foi justo o justiçaamento?

Vejamos.

No podcast Flow, do qual era sócio, Monark criou polêmica quando entrevistava os deputados federais Kim Karaguiri (Podemos) e Tábata Amaral (PSB) e, em certo momento, defendeu a existência de um partido nazista no Brasil. O podcaster alegou que todos, de direita ou esquerda, ter voz. Para ele, a “esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical”, logo ambas são tratadas de forma diferente. E concluiu: “As duas tinham que ter espaço. (...) Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei” (https://www.youtube.com/watch?v=Qo2kYS2_XnI).

Contestado no ar por Tábata Amaral e depois da avalanche que sobre ele desabou, Monark se desculpou dizendo que foi “defender uma ideia que acontece em outros lugares do mundo, nos Estados Unidos, por exemplo”, mas que o fez “de um jeito muito burro, (...) de uma forma muito insensível com a comunidade judaica. Peço perdão pela minha insensibilidade” (https://www.youtube.com/watch?v=DKCCRyMWLYc).

Em 2015, um ano antes de sua morte, o italiano Umberto Eco, crítico acerbo do papel das novas tecnologias na difusão de informações, recebeu, em Turim, o título de Doutor Honoris Causa e, durante o discurso de agradecimento, em frente a colegas, professores universitários e estudantes, como que se despedindo, discorreu sobre o aligeiramento e a superficialidade das interações sociais nos dias que seguem. Segundo ele, a era da internet trouxe um drama, o de promover “o idiota da aldeia a portador da verdade. Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Antes, os idiotas da aldeia tinham direito à palavra em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

Eco, autor de um texto consagrado na área de comunicação (Apocalípticos e Integrados), foi um dos mais profícuos intelectuais da segunda metade do século XX e início do século XXI e, como pensador que passou a vida inteira lendo e escrevendo sobre o homem e a sociedade, estava profundamente desencantado com os rumos que a comunicação tomou no mundo.

À época achei a posição de Umberto Eco um pouco elitista, pois pareceu querer calar opiniões, permitindo apenas aquelas emitidas por um grupo que detivesse o conhecimento na área a que a discussão estivesse restrita. Era, eu pensava, um evidente exagero que não parecia combinar com o autor de O nome da rosa. Ora, num regime democrático, imbecis e nobeis têm o direito à palavra. Permitir a estes e proibir àqueles, eu contestava, seria uma forma de censura. Porém, lendo mais detidamente o autor de Baudolino, não há na fala dele fragmento algum de censura. O que está dito é que a liberdade de expor um pensamento/ideia dialoga com a responsabilidade argumentativa, logo não deve servir a interesses espúrios ou à irresponsabilidade, mas tão-somente ao bem-comum sem que se cerceie o direito à liberdade de expressão. Em suma, a liberdade de expressão exige reflexão e responsabilidade e quando o caso é de interesse coletivo ou envolve conhecimento especializado, cabe aos que detêm o conhecimento da área serem ouvidos.

Muito antes de Eco dizer o que disse, Nelson Rodrigues, um de nossos mais brilhantes escritores, vilmente atacado pela esquerda por ser conservador e pela direita por ser obsceno, dizia que não nos afobássemos porque um dia “os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. Numa crônica de 1968, Os idiotas sem modéstia, que está no livro O Óbvio Ululante, de forma magistral ele registra: “Os idiotas perderam a modéstia, a humildade de vários milênios. Eles estão por toda parte. São os que mais berram. O sujeito que passa numa esquina, numa retreta ou num velório é logo cercado de idiotas. As casacas são usadas pelos idiotas; as condecorações pingam dos idiotas. E, de mais a mais, são numericamente esmagadores. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos”. 

Monark (eu só conhecia de nome até a polêmica acima referida) é o idiota de aldeia que Umberto Eco denunciou em 2015 e Nelson Rodrigues o fez quase cinco décadas antes. Mas ele não está mais sozinho. Ele é ele e milhões mais.

Tive uma Monark na primeira metade dos anos 1970 e uma Caloi na década seguinte. Antes esta àquela.

Quem criou...?

Quem criou...?

Em todos ou em praticamente todos os estados nos quais as águas do rio S. Francisco chegaram, o atual presidente da república, Jair Bolsonaro, esteve presente para entregar a obra de transposição. E invariavelmente as redes sociais entraram em polvorosa, com os partidários do capitão-presidente enaltecendo-o e os seus opositores dizendo que a transposição é projeto de Lula e Dilma.

A ideia transposição do S. Francisco tem mais de duzentos anos (a primeira menção é de 1810, pouco depois da chegada da família real portuguesa ao Brasil, e não se falava de transposição, mas encanamento), mas foi o imperador D. Pedro II quem primeiro a aventou com mais seriedade, na esteira da construção do canal de Suez e, também, em virtude de uma grande seca, no último quartel do século XIX.

No segundo império, diversos projetos de lei que previam a transposição chegaram a ser discutidos por deputados e senadores e todos foram arquivados, contra as pretensões do imperador, sob a alegação de que se tratava de obra faraônica e de elevado custo. Por vezes a ideia foi retomada durante o período republicano (https://apublica.org/2014/02/transposicao-um-projeto-dos-tempos-imperio/), mas foi somente no governo Fernando Henrique Cardoso que a proposta começou a tomar forma, quando foram feitos estudos de impactos ambientais e de viabilidade econômica e uma proposta de gestão hídrica que garantiria as demandas da população, posteriormente ampliada durante o governo Lula, que não conseguiu, por diversos fatores, entregar a obra à população (voltarei a este assunto em outra oportunidade).

O nariz de cera é grande o suficiente para tomar praticamente um terço de todo o texto, mas tem uma razão de ser, pois o leitor certamente ouviu ou leu, algumas vezes, que Lula criou o FIES, o Bolsa Família, o Luz para todos, etc.

Vamos por partes.

1 – Lula não criou o FIES. Ele reformulou o que FHC já havia reformulado. O projeto original é de 1975, no início do governo de Ernesto Geisel, penúltimo presidente do ciclo autoritário nascido em 1964. No governo Geisel, o então Crédito Educativo (nascido por sinal de projeto de lei apresentado pelo deputado federal potiguar Ney Lopes de Souza) foi criado. Posteriormente reformulado no governo FHC, o novo programa passou a se chamar FIES, e teve novas reformulações nos governos seguintes (https://www.google.com/search?q=FIES+e+FHC&sxsrf=APq-WBv-fsGb5yffJ7PE7NlcpGwS9_vKYA%3A1644236791093&ei=9w8BYo2ABajK1sQP8Ze4gA0&ved=0ahUKEwjN1--uy-31AhUopZUCHfELDtAQ4dUDCA4&uact=5&oq=FIES+e+FHC&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAM6BwgAEEcQsAM6BAgjECc6BwgjEOoCECc6DQguEMcBEKMCEOoCECc6CwguEIAEELEDEIMBOhEILhCABBCxAxCDARDHARDRAzoFCAAQgAQ6CAgAELEDEIMBOgsIABCABBCxAxCDAToECAAQQzoECC4QQzoICAAQgAQQsQM6DgguEIAEELEDEMcBEKMCOgoIABCxAxCDARBDOgsILhCABBDHARCvAToHCAAQsQMQQzoGCAAQFhAeSgUIPBIBMUoECEEYAEoECEYYAFC0BVj2NWCFO2gCcAJ4BIAB1wKIAb4XkgEIMC4xMC4zLjKYAQCgAQGwAQrIAQjAAQE&sclient=gws-wiz).

2 – O Bolsa Família nasceu da junção de vários programas sociais criados no governo FHC. Para ser mais preciso, a junção começou ainda em 2001, por volta da metade do segundo mandato do tucano. Para quem tem memória curta, Lula e o PT diziam que os diversos programas sociais nascidos na prancheta da primeira-dama Ruth Cardoso, os quais pariram o Bolsa Família, serviam para comprar o voto do eleitor e tornar o povo vagabundo (https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/o-discurso-em-que-lula-afirma-que-bolsa-familia-deixa-o-sujeito-vagabundo-sem-vontade-de-plantar-macaxeira-e-a-prova-documental-de-quem-foi-o-criador-do-programa/) e eram esmola (https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2021/04/28/verificamos-lula-criticos-bolsa-familia-esmola/), discurso parecido com o que fazia o atual presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores (https://congressoemfoco.uol.com.br/area/governo/bolsa-farelo-e-voto-de-cabresto-as-contradicoes-de-bolsonaro-sobre-o-bolsa-familia/). A internet está aí para quem quiser consultar.

3 – Li que Lula criou o Luz para todos. Fui conferir a origem do programa e constatei que nasceu como Luz no campo (https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2003/11/12/tourinho-luz-para-todos-e-o-luz-no-campo). Dados do IBGE apontam que, em 1996, setenta por cento das áreas rurais já tinham energia elétrica. Até o final de 2001, mais 20% foram acrescidos e no governo Lula foi ampliada em 5%. Diz um jornalista: “Em 1996, a luz chegava a 79,9% dos domicílios brasileiros. Em 2002, a 90,8%. Quem foi que colocou o programa na prática? Com FHC, a eletrificação avançou 12,64%%; com Lula, 5,94%%. É fato! É número! Do IBGE!!!” (https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/luz-no-campo-e-luz-para-todos-os-numeros-do-ibge/).

4 – Não é raro ouvir gente dizendo que Lula tirou 36 milhões de brasileiros da pobreza. Ora, como ele fez isso se, em 1998, havia 14 milhões vivendo na pobreza e, em 2001, havia 6 milhões?, segundo dados do IPEA (https://nuso.org/articulo/pobreza-e-politicas-sociais-na-decada-da-reducao-da-desigualdade/). Nunca devemos esquecer que o próprio Lula afirmou que cansou de inventar dados em eventos fora do país (https://br.pinterest.com/pin/560698222337361632/).

Apropriar-se das propostas e das ações de outros, sem dar-lhes crédito, não é caminho recomendável, pois um dia o mesmo veneno poderá ser experimentado.

A culpa não é minha

A culpa não é minha

O desenvolvimento cognitivo e moral das crianças as impede de entender o quão é importante assumir responsabilidade por seus atos. É por isso que elas culpam os outros sempre quando se sentem pressionadas.

Há adultos que não evoluem e mantêm, em diferentes momentos e situações, o mesmo comportamento infantil, não assumindo responsabilidades. A postura é por demais comum entres gestores públicos. Parece ser um dado da essência deles. Candidatam-se a um cargo executivo e, logo que assumem, passam a buscar alguém para dividir com eles ou assumir sozinho a missão de ser culpado pelos males da cidade ou do estado ou do país.

Nunca tive pendor para ser homem público. Sou franco demais em minhas relações e sempre digo o que quero diretamente a qualquer um, deixando o caminho aberto para continuar dizendo... No campo político isso se chama de sincericídio. Aqui no Brasil, dizer o que pensa é assinar atestado de óbito político, pois por aqui quem tem princípio tem fim.

Brincar de prefeito, de governador ou de presidente pode ser fácil, se o caso for só rolar os problemas, pois o gestor não faz nada, põe a culpa de tudo o que há de ruim nos antecessores; qualquer dificuldade financeira que municípios e estados tenham, prefeitos e governadores buscam resolvê-la pedindo socorro ao governo federal.

O detentor do poder precisa, ensinou Maquiavel, procurar meios pelos quais o povo se torne dependente do governo e o seja fiel, pois nos momentos de adversidade, o povo o ajudará a manter-se no poder. Por isso, qualquer governante necessita da fidelidade do povo.

Como a manutenção do poder é o principal assunto abordado por Maquiavel, n’O príncipe, ele demonstra quais devem ser as posturas de um governante para tomar e manter-se no poder. Para tanto, o autor apresenta a substancial diferença entre o agir com ética cristã e o agir com ética política, dizendo como o governante deve atuar para manter-se no poder mesmo que para isso contrarie as regras morais vigentes.

Para Maquiavel, a virtú é a “qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos”. É o “poder humano de efetuar mudanças e controlar eventos” ; a fortuna, na mitologia grega, é a deusa que representa a sorte.  Os governantes não podem evitar a virtú e a fortuna – devem aproveitá-la, pois a ação política depende da conjugação de ambas. O político virtuoso é aquele que domina a fortuna, controlando a sorte.

Quem tem algum naco de poder precisa procurar meios pelos quais as pessoas se tornem dependentes dele e lhe seja fiel, pois nos momentos de adversidade, elas o ajudarão a manter-se no poder. Ou seja, é preciso manter a fidelidade daqueles que lhe garante o poder. Logo, o detentor do poder precisa procurar meios pelos quais o povo se torne dependente do governo e lhe seja fiel, pois nos momentos de adversidade ele o ajudará a manter-se no poder. Assim, é importante ter o apoio das bases.

Ter e manter mercenários em número muito grande é perigo constante, pois eles, ao enfrentarem as primeiras adversidades e ataques do adversário, pulam para fora da nau. Diz Maquiavel: “os mercenários querem muito ser soldados enquanto o príncipe não está em guerra, mas quando esta surge só pensam em fugir ou ir embora”. Isto ainda é muito corriqueiro na política moderna. Vendedores de promessas antes das eleições tornam-se preguiçosos, corruptos e incomunicáveis após o pleito eleitoral.

Manipular as pessoas para esconder as fraquezas e as mazelas de uma gestão é uma forma de tentar resguardar o poder.

Trabalhei com um diretor de Escola que gostava de transferir para os antecessores qualquer falha que fosse identificada em sua gestão.

Eleito como a encarnação da racionalidade administrativa e dos ventos democráticos, passou três dos primeiros quatro anos de mandato culpando as gestões anteriores pelas moléstias da instituição, pois assim se eximia de fazer o que tinha de ser feito. E nunca esqueceu de lançar fatias de carne para os cães mercenários se esbaldarem, enquanto o grosso do orçamento era utilizado em prol dos apaniguados.

A lógica cafajeste vem de cima para baixo, mas também atua de baixo para cima.

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