Historiando

Churchil, o maior de todos

Churchil, o maior de todos

Em 24 de janeiro de 1965, 8h, morria, aos 90 anos de idade, Winston Leonard Spencer Churchill, em sua residência, no Hyde Park Gate, Londres, após nove dias de agonia em virtude de uma trombose cerebral.

Logo que a notícia foi tornada pública pelo seu secretário particular, a BBC iniciou uma cobertura especial, transmitindo os principais discursos do ex-primeiro-ministro e levando ao ar a Quinta Sinfonia de Beethoven, cujos acordes iniciais – três notas breves e uma longa – correspondem à letra V, no código Morse, representando o V da vitória que Churchill simbolizou e com o qual estimulava a resistência britânica e por que não dizer ocidental à agressão nazista, durante a segunda guerra mundial.

Churchill sabia que cabia aos britânicos resistir às investidas nazistas na Europa, como disse: “Hitler sabe que terá de nos vencer nesta ilha ou perder a guerra. Se pudermos resistir a ele, toda a Europa poderá ser livre e a vida no planeta poderá seguir adiante para horizontes abertos e ensolarados. Mas, se nós cairmos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo o que conhecemos e do que gostamos, vai afundar no abismo de uma nova Idade das Trevas, ainda mais sinistra e talvez mais prolongada pelo uso de uma ciência pervertida. Que nós nos unamos para cumprir nosso dever, e desta forma nos elevemos de tal forma que, se o Império Britânico e sua comunidade britânica durarem mil anos, as pessoas ainda digam: ‘Aquele foi seu melhor momento!’.”

Sou fã incondicional de Winston Churchill, mas mesmo que não o fosse é difícil não reconhecer que ele é o maior estadista do século XX e um dos maiores de todos os tempos.

Foi ele o primeiro a elevar a voz alertando para o perigo que Hitler e os nazistas representavam, numa época em que entre todas as lideranças europeias defendiam uma política de apaziguamento, chegando a se aliar, mesmo sendo anticomunista visceral, a Stálin para combater a ameaça nazifascista. Quando questionado, disse: “Se Hitler invadisse o inferno, eu faria pelo menos uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Deputados”.

Quando a França se rendeu vergonhosamente diante da Alemanha em 1940, o mundo esperava que ele fosse seguir esse caminho, mas disse: “Nós nunca nos renderemos... e lutaremos sozinhos até que o novo mundo venha resgatar o velho!” Era uma referência velada aos Estados Unidos e foi exatamente o que aconteceu, em 1941, depois que a antiga colônia inglesa foi atacada pelo Japão e entrou no conflito ao lado da Inglaterra, como ansiava Churchill.

A partir de 1944, apesar de aliados, já encarava Stalin como um inimigo, chegando mesmo a encomendar planos para um ataque contra a União Soviética após a vitória sobre a Alemanha.

No fim da guerra elevou novamente a sua voz para alertar para os perigos do comunismo, popularizando o termo “cortina de ferro”, quando ficou claro que Stálin não iria abrir mão dos territórios que conquistara no leste europeu.

Churchill foi o homem certo no lugar certo, mas, infelizmente, logo após a rendição alemã, perdeu as eleições (voltaria a ser primeiro-ministro na primeira metade da década de 1950).

Apesar de hábitos “pouco saudáveis”, como comer grandes quantidades de bacon e de beber pelo menos um quarto de litro de whisky quase que diariamente e fumar charutos desbragadamente, viveu até os 90 anos.

Estado pra quê?

Estado pra quê?

O Brasil é um país sui generis.

Qualquer pesquisa de opinião revela que todos – militares, professores, padres, jornalistas, empresários, banqueiros, etc – são mais confiáveis que os políticos.

Os políticos costumam alegar que os eleitores têm o hábito de puni-los por suas virtudes e qualidades, a saber, a de pertencerem a um poder mais aberto, o qual submete os seus erros ao escrutínio direto do grande público.

Um ex-presidente da república chegou a dizer que os políticos exercem a profissão mais honesta do mundo. Mais até do que o funcionário público concursado, que ralou para ser aprovado num concurso público, mas depois disso não dá mais satisfação a ninguém, enquanto o político tem de todo ano enfrentar o povo e prestar satisfação do que anda fazendo (http://g1.globo.com/politica/videos/v/lula-diz-que-profissao-politico-e-por-incrivel-que-pareca-a-mais-honesta/5308635/) (https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/nao-tem-uma-viva-alma-mais-honesta-do-que-eu-afirma-lula/) (https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/politico-mais-honesto-que-concursado-entidades-repudiam-fala-de-lula/).

Não restam dúvidas que o poderes nos quais estão encastelados os políticos, principalmente o Legislativo, são mais expostos do que os espaços ocupados pela esmagadora maioria das outras profissões.

No entanto, o julgamento dos cidadãos acerca do comportamento de suas lideranças políticas não está relacionada apenas às práticas do cotidiano parlamentar e tampouco às do executivo, ao ingente trabalho de administrar a sociedade, mas às posturas adotadas durante os períodos eleitorais e, principalmente, aos conchavos para desviar verba pública e para criar sinecuras e vantagens materiais para eles e para apaniguados.

O eleitor grita que não dá para confiar em gente desse tipo, mas ainda assim há uma infinidade de personalidades e uma casta de cidadãos que gostariam de aumentar a presença do Estado e, portanto, dos políticos na vida do país.

Já tivemos da direita à esquerda sentada nos birôs de gerentes do país, administrando os destinos do Brasil, nenhum conseguiu fazer a máquina pública trabalhar em prol dos que a sustenta – o povo.

A máquina pública brasileira continua, para citar Raymundo Faoro, sendo usada e abusada para garantir o sustento da própria burocracia e da elite política que controla as rédeas do Estado.

O cafajestismo da patrulha

O cafajestismo da patrulha

Já estou acostumado a ser apontado como fascista, machista, racista, homofóbico, entre outros elogios não muito nobres, tudo porque não rezo pela cartilha descolada dos que têm padrões morais pretensamente superiores, aqueles que se chamam de esquerda.

Semana passada vivi mais um momento desse, por meio de piadinhas e risinhos contidos.

Mas não vou falar de mim, afinal nada sou no jogo do bicho.

Vou tentar recuperar parte da vida de um artista que comeu o pão-que-o-diabo-amassou nas mãos dos patrulheiros de esquerda, que esquartejam e moem a reputação de qualquer um que se ponha à sua frente.

Wilson Simonal de Castro nasceu em 1938, no Rio de Janeiro. Negro e filho de uma empregada doméstica, passou pelas fileiras do exército e ali, como cabo, começou a cantar.

No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, apresentou-se em festinhas com o grupo Dry Boys, quando foi descoberto por Carlos Imperial e logo a seguir por Luís Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, passando a cantar em bares e casas de shows no Rio de Janeiro (https://ricmais.com.br/entretenimento/cinema/a-ascensao-e-a-queda-de-wilson-simonal/).

Em menos de cinco anos, Simonal, que era um cantor magnífico, com recursos vocais infinitos e personalidade musical insinuante, estava entre os artistas que criariam e consolidariam o que chamamos de música popular brasileira (MPB), com programa próprio na TV Record e liderando um movimento batizado como pilantragem.

Os seus sucessos (Meu Limão, Meu Limoeiro; Vesti Azul; Mamãe Passou Açúcar em Mim; Sá Marina; entre outros) tocavam nas rádios e TVs do país todo, levando-o ao topo da MPB.

No final da década de 1960, o negro Simonal era o artista da música mais bem pago do país e isso possivelmente o levou a acompanhar, em 1970, a seleção brasileira que ganhou o mundial de futebol no México. Chico Anysio, no filme-documentário Simonal – Ninguém sabe o Duro Que Dei, de 2009, dirigido pelo ex-Casseta & Planeta Cláudio Manoel da Costa, conta deliciosamente que, de tão ingênuo, o cantor acreditou que poderia ser incorporado ao elenco, inscrito como jogador.

A imensa popularidade do cantor, em virtude de sua facilidade em se comunicar com as massas e o assédio da imprensa, tornou Simonal um dos artistas preferidos do regime instaurado em 1964, o que irritava profundamente alguns setores esquerdistas da mídia e da classe artística brasileira. Simonal também era criticado por ser alienado, interessado em carrões e roupas de marca, por cantar músicas sem qualquer engajamento político e por ter casado com uma mulher loura.

O início do fim da carreira do líder da pilantragem ocorreu quando ele descobriu que estava sem numerário na conta do banco e atribuiu o fato ao seu contador, Raphael Viviani, dispensando sumariamente.

Demitido, o contador entrou com ação na justiça do trabalho, e Simonal chamou alguns amigos, entre eles agentes do aparelho repressivo do regime autoritário, para dar um corretivo nele.

Depois de ser sequestrado e torturado, o contador assinou confissão de que dera um desfalque nas contas do cantor. O que não se sabia era que a mulher denunciou o sequestro e convenceu o marido a abrir processo contra Simonal.

Condenado a cinco anos por extorsão e sequestro, Simonal ainda foi acusado, sem indício algum, por um oficial do exército, de ser colaborador do regime, o que destruiu sua carreira artística, pois praticamente todo o meio cultural do país passou a virar-lhe as costas. Poucas (Chico Anysio, Miéle, Elis Regina, Nélson Motta, entre outros) vozes se levantaram a seu favor.

Dois dos líderes do Pasquim, principal veículo propagador das acusações contra Simonal, Jaguar e Ziraldo nunca reviram suas posições. Aqui em Natal, em entrevista a uma TV local, Jaguar reconheceu que “exageraram um pouquinho”, e Ziraldo sempre disse que nunca havia sido verificada a veracidade das informações porque “nunca houve motivos para duvidar das fontes”.

Caído em completo esquecimento, Simonal só foi reabilitado em 2002, dois anos após a sua morte, quando, a pedido da família, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Organização dos Advogados Brasileiros abriu processo para apurar a veracidade das suspeitas de colaboração do cantor com órgãos de informação do regime de 1964. Segundo o então Secretário Nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, em documento de 1999, não existiam registros de que Wilson Simonal tivesse colaborado com nenhum órgão de informação do aparelho repressivo (https://br.historyplay.tv/hoje-na-historia/morre-o-cantor-e-compositor-wilson-simonal).

É possível perceber no livro "Nem vem que não tem – a vida e o veneno de Wilson Simonal", de Ricardo Alexandre, que o cantor poderia ser usado como um fantoche pelo regime autoritário, cantando músicas alienantes ou só divertidas (País Tropical) ou até em prol do regime (Brasil, eu fico), porém não há referência alguma de pessoa que tenha sido denunciada por Simonal aos órgãos de segurança e repressão.

Simonal foi vítima de uma classe artística engajada e que exigia engajamento de artistas de sucesso e uma mídia superficial que se preocupava demais com manchetes e de menos com pessoas.

O resultado: a destruição moral e física de um artista de sucesso e de um ser humano, com virtudes e defeitos, que não cometeu o crime a ele atribuído.

Quem um dia foi grande, hoje é nanico

Quem um dia foi grande, hoje é nanico

Há um tempo atrás, os partidários do ex-presidente Lula chegaram a compará-lo a Jesus Cristo, a Gandhi e a Mandela.

Não o comparemos ao homem que nasceu em Nazaré, por “n” motivos mas principalmente pela distância no tempo.

Fiquemos só com Gandhi e Mandela, homens do século XX que não lutaram por questões pessoais, foram presos por lutarem por ideais nobres, depois de soltos souberam trabalhar pela pacificação dos povos que lideraram e, ainda em vida, tornaram-se ícones de causas superiores.

Têm, ambos, os nomes registrados na história por unirem ou tentarem unir adversários e inimigos figadais.

Lula foi preso não pela defesa de ideais nobres e tampouco por ações dignificadoras, mas por participar de um grupo que assaltava os cofres do Estado.

Desde que foi solto, o líder petista tornou-se uma personalidade política quase irrelevante, um anão político, sem preocupação alguma com os destinos do povo que um dia liderou.

Vive apenas para fazer articulações políticas visando a eleição de 2022 e, por isso mesmo, é uma completa nulidade na atual conjuntura política brasileira.

Ninguém, tirando os sacerdotes e crentes do lulismo, consulta-o para nada, poucos defendem que ele é o homem para fazer o enfrentamento a Bolsonaro, porque Lula está abaixo, na fotografia política-eleitoral atual, do ex-capitão do exército e atual ocupante do Palácio do Planalto.

Esta semana, Rodrigo Maia cogitou uma aliança do centro com lideranças à esquerda. Entre os nomes da esquerda, Maia nem cogitou o de Lula. Ciro Gomes é, para o presidente da câmara de deputados, o nome a ser trazido para dialogar com o centro político.

De gigante político que foi, Lula só guarda lembranças.

Preso, o ex-líder metalúrgico ainda transparecia uma certa aura de resistência. Solto, percebemos que o tamanho real de Lula o gabaritaria para gravitar em torno de Branca de Neve.

Paulo Freire não é salvação – e nem danação

Paulo Freire não é salvação – e nem danação

Confesso que li pouco sobre Paulo Freire, o pensador da educação mais citado e pouco lido.

Dos livros que ele escreveu conheço Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia, Pedagogia da Esperança e Política e Educação.

Dos livros escritos sobre ele ou sobre sua obra li apenas O educador: um perfil de Paulo Freire (Sérgio Haddad) e Paulo Freire mais do que nunca: uma biografia filosófica (Walter Kohan).

Também li muita coisa escrita sobre ele – contra e a favor – na internet.

É pouco, muito pouco mesmo, mas o suficiente para não tratá-lo como divindade ou como demônio e o necessário para não tomá-lo como o Santo Graal da educação brasileira.

Certamente li bem mais do críticos intransigentes do intelectual pernambucano e bem menos do que estudiosos verdadeiros – verdadeiros e não ocasionais e mitificadores e mistificadores.

O problema da educação, para Paulo Freire, é político. Para ele, tomado por uma visão marxista da história, a educação não deve servir para ascender socialmente, pois isto não serve à revolução marxista. Não são poucas as passagens em suas obras nas quais ele expõe isso. Obter riqueza é algo nocivo e somente favorece à classe dos opressores, pois o desfavorecido social que almeje ascensão irá pertencer ao grupo que deve ser combatido.

Pedagogia do Oprimido não aponta muitos assuntos que ocuparam a cabeça dos reformistas da educação durante o século XX: provas, padrões de ensino, currículo escolar, papel dos pais na educação, como organizar as escolas, que matérias devem ser estudadas em cada série, o modo mais efetivo de educar crianças pobres em todos os níveis. Constitui-se num tratado político utópico que conclama a todos a lutar pelo fim da hegemonia do capitalismo e, na sequência, criar uma sociedade igualitária.

Não por nada, apesar de a esmagadora maioria dos especialistas em Freire dizerem – não sei se com ou sem razão – que a educação brasileira não é norteada pelos ideais e ideias dele, elas estão presentes em vários projetos políticos pedagógicos de não poucas instituições escolares brasileiras, notadamente as públicas.

Para Paulo Freire, os opressores pretendem “transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime”, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os domine." Por isso, ele não parece muito preocupado em dialogar com os mais tradicionais pensadores e educadores do Ocidente, todos ou a maioria imersos no mundo que ele pretende combater e mesmo destruir. Rousseau, Piaget, Dewey, Montessori e outros passam ao largo em sua obra. A preocupação dele é com revolucionários (?!) políticos como Marx, Lênin, Guevara, Fidel Castro, e alguns intelectuais orgânicos do movimento socialista, a saber, Sartre, Debray, Marcuse, Althusser, entre outros. E assim é porque a inquietação dele não está na sala de aula propriamente dita, mas na contradição opressores e oprimidos presente na sociedade ocidental, mais particularmente no mundo capitalista, só havendo um meio de superar este conflito, a revolução. Para isso, caberá aos oprimidos desenvolverem uma pedagogia que os levem à sociedade igualitária e, portanto, livre.

O trecho mais citado nas nossas escolas é este: “Na medida em que esta visão ‘bancária’ anula o poder criador dos educandos ou o minimiza, estimulando sua ingenuidade e não sua criticidade satisfaz aos interesses dos opressores: para estes, o fundamental não é o desnudamento do mundo, a sua transformação. O seu ‘humanitarismo’, e não humanismo está em preservar a situação de que são beneficiários e que lhes possibilita a manutenção de sua falsa generosidade(...). Por isto mesmo é que reagem, até instintivamente, contra qualquer tentativa de uma educação estimulante do pensar autêntico, que não se deixa emaranhar pelas vozes parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto a outro, ou um problema a outro.”

Pincei algumas passagens de Pedagogia do Oprimido porque elas expõem com nitidez o objetivo da obra. No entanto, as ideias não estão somente lá, estão em outras obras do arrojado pedagogo e educador brasileiro, pois em toda ela o seu intento é maldizer uma educação que serve para respaldar a atuação política e social de uma classe que, supostamente, subjuga outra.

Em toda a obra de Paulo Freire uma muleta se faz presente: pensar autêntico.

Mas o que seria pensar autêntico?

Para fazer emergir o pensamento autêntico, Paulo Freire traz à cena a famigerada visão bancária, que representa uma visão antidialógica, burguesa e capitalista. Contra ela, Freire assesta as baterias para demoli-la e substituí-la pelo pensamento autêntico, a saber, aquele que promete atacar as bases da sociedade de opressores e oprimidos.

Manter a coisa como está é garantir que as elites dominadoras continuem manipulando e “inoculando nos indivíduos o apetite burguês do êxito pessoal”, e tal “manipulação se faz ora diretamente por estas elites, ora indiretamente, através dos líderes populistas. Estes líderes, como salienta Weffort, medeiam as relações entre as elites oligárquicas e as massas populares.”

Para prática bancária, o essencial é apenas atenuar esta situação, devendo-se manter “as consciências imersas nela”, enquanto para “a educação problematizadora, enquanto um fazer humanista e libertador, o importante está em que os homens submetidos à dominação lutem por sua emancipação.”

Emancipar-se do sistema capitalista, do desejo de fazer parte do mercado de trabalho para desfrutar de benesses advindas do aumento de renda é algo a ser repudiado e combatido. O jovem que obteve de fato sua emancipação é agente ativo da revolução socialista e não deseja nada além de contribuir para esta: “O ‘homem novo’, em tal caso, para os oprimidos, não é o homem a nascer da superação da contradição, com a transformação da velha situação concreta opressora, que cede seu lugar a uma nova, de libertação. Para eles, o novo homem são eles mesmos, tornando-se opressores de outros. A sua visão do homem novo é uma visão individualista. A sua aderência ao opressor não lhes possibilita a consciência de si como pessoa, nem a consciência de classe oprimida. (...) querem a reforma agrária, não para libertar-se, mas para passar a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados. Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo.” Logo, o indivíduo realmente livre e consciente, para Freire, é o que serve ao coletivo e que anula sua individualidade diante dos postulados coletivistas, e porque não dizer socialistas.

E arremata o pensador da educação que pensa a educação como espaço para fomentar a revolução: “A manipulação, na teoria da ação antidialógica, tal como a conquista a que serve, tem de anestesiar as massas populares para que não pensem”, pois se elas pensarem “associam à sua emersão, à sua presença no processo histórico, um pensar crítico sobre este mesmo processo, sobre sua realidade, então sua ameaça se concretiza na revolução”. A este pensar certo Freire chama “de ‘consciência revolucionária’ ou de ‘consciência de classe’, (...) indispensável à revolução, que não se faz sem ele.”

O “pensar certo”, repito, é somente aquele que serve a causa coletivista, não havendo liberdade para o indivíduo se retirar do processo revolucionário, dado que ele (indivíduo) só existe, como afirmamos acima, se servir ao coletivo. Aquele que deseja fazê-lo é porque ainda carrega consigo o opressor, convertendo-se em inimigo a ser disciplinado.

Valorizar a convivência entre os contrários não é exatamente o que mais move Paulo Freire, afinal o essencial é fazer a revolução, como é possível destacar nesta passagem: “Na verdade, porém, por paradoxal que possa parecer, na resposta dos oprimidos à violência dos opressores é que vamos encontrar o gesto de amor. Consciente ou inconscientemente, o ato de rebelião dos oprimidos, que é sempre tão ou quase tão violento quanto a violência que os cria, este ato dos oprimidos, sim, pode inaugurar o amor. Enquanto a violência dos opressores faz dos oprimidos homens proibidos de ser, a resposta destes à violência daqueles se encontra infundida do anseio de busca do direito de ser. Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão. Por isto é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores. Estes, enquanto classe que oprime, nem libertam, nem se libertam.”

Paulo Freire justifica a violência a ser utilizada pelos oprimidos e a legitima como expressão de amor, como se fosse algo até natural numa ideia de que este grupo o faz para defender e assegurar sua existência. Neste sentido, o educador pernambucano iguala-se a outro luminar revolucionário de esquerda brasileira, o baiano Carlos Marighela, que, no seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano, justifica atos de violência e ódio dirigidos a certas classes e instituições.

Ambos apregoam uma violência e um ódio libertadores. Para Freire, no entanto, a violência é fundadora do amor e com ela traz a verdadeira liberdade.

Lembro de uma sentença de Delfim Neto, ex-ministro dos governos Costa e Silva, Médici e Figueiredo, proferida em 1989, na esteira da queda do Muro de Berlim: “Vejo muita gente dizendo que não precisamos mais estudar o marxismo. Eu discordo e digo isso onde vou. Para mim, agora que o comunismo está ruindo é que devemos estudá-lo, para saber exatamente onde estão os erros.”

Quem critica Paulo Freire diz que nada existe nele que possa nos levar a chamá-lo de educador e pedagogo. Eu discordo da sentença. Ele não é da escola de pensamento que eu siga e propõe muitos caminhos pelos quais eu jamais iria, mas não deixo de reconhecer arrojo no que ele escreve.

Venerá-lo ou amaldiçoá-lo, como fazem críticos e seguidores cegos, não resolve nada.

É preciso lê-lo, até para saber por que não devemos segui-lo.

Moro e o jornalismo brasileiro

Moro e o jornalismo brasileiro

Segunda última (26), o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, esteve no Programa Roda Viva, da TV Cultura.

Roda Viva, que já foi o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira, tem mostrado sinais de desgaste, não pelo seu formato mas pela forma como a bancada de jornalistas, atualmente comandada por Vera Magalhães tem desperdiçado oportunidades de fazer as perguntas certas e que interessem efetivamente ao público.

Penso que o Presidente Jair Bolsonaro é refém dos ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Guedes, apesar de responsável pela política econômica do governo e o seu fiador junto ao capital nacional e internacional, não desperta tanto a atenção do grande público. Além disso, há oferta generosa de ótimos economistas de perfil semelhante no mercado.

O mercado seria abalado com a saída de Guedes, mas se a escolha do Presidente para substituí-lo for de um economista liberal, o assanhamento logo se acalmaria.

A saída de Moro do ministério seria um solavanco considerável, pela aura de herói na qual ele está envolto, porquanto ele simbolizar a luta contra a corrupção dos graúdos da república.

A grande mídia já demitiu Moro mais de dez vezes em um ano (https://diariodopoder.com.br/imprensa-demitiu-moro-mais-de-dez-vezes-em-1-ano/). Em todas foi desmentida. E desmentida e desmoralizada, fica sem saber o que perguntar a ele, como ficou demonstrado no último Roda Viva.

Praticamente um bloco ou um bloco e meio do programa foi desperdiçado com os jornalistas questionando o Ministro sobre a sua suposta submissão ao Presidente. Os jornalistas não pareciam interessados em saber muita coisa sobre o Ministério por ele comandado, mas em constrangê-lo e fazê-lo entrar em confronto com o Presidente, sem sucesso.

Assisto com frequência ao Roda Viva e nunca vi a bancada pressionar tanto um Ministro para que ele confirmasse ou refutasse submissão ao Presidente, nem quando Fernando Henrique foi acusado de comprar a emenda da reeleição ou Lula comandava o mensalão ou Lula e Dilma patrocinavam ditaduras com o dinheiro do Brasil.

A mídia tradicional tem perdido progressivamente credibilidade, em grande medida pela própria postura de construir narrativas sem dar bola para os fatos.

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