Historiando

Tardes no bairro de Lagoa Nova (Por Paulo Caldas Neto)

Tardes no bairro de Lagoa Nova (Por Paulo Caldas Neto)

Desde que a pandemia do novo coronavírus se abateu sobre o mundo, não é de se admirar que os nossos hábitos tenham mudado drasticamente. Assim como muitos, eu fui um dos que a sentiu logo no início de março de 2020, e a clausura, como estratégia de conter a disseminação do vírus, ganhou uma dimensão nunca antes vista em lugar algum.

Nos primeiros meses de chegada da enfermidade ao Brasil, ninguém sabia como lidar com ela. A única coisa de que se tinha ciência era a de que o isolamento social precisaria acontecer. Segundo as autoridades de saúde, em função do alto poder de contágio e da rápida propagação, qualquer pessoa estaria vulnerável; daí porque era urgente que se evitasse sair de casa, a não ser por motivo de força maior. Todos estavam reféns de um inimigo invisível, que não dava trégua e permanecia sempre à espreita, esperando um único passo em falso para atacar sem piedade.

Eu tinha acabado de me casar no final do ano anterior ao grande surto mundial. E minha esposa havia viajado para o município de Paulo Afonso (BA), onde era lotada como servidora pública federal, o que me deixou logo aflito por não saber como ela poderia se cuidar longe da família, caso o pior ocorresse. Felizmente, o tempo de afastamento foi encurtado, quando os órgãos públicos, com base em ordens superiores, optaram pela modalidade do trabalho remoto emergencial, isto é, o servidor ficaria trabalhando em casa; e isso graças à era digital que estamos atravessando, o que nos permitiu utilizar as ferramentas de comunicação mais sofisticadas e atuais: WhatsApp, Google Meets, Microsoft Teams, Zoom, Google Sala de Aula, dentre outras. Muitas delas, eu confesso que jamais havia manuseado. Aliás, nenhum de nós. E tivemos que aprender e modificar a nossa maneira de atuar em nossos respectivos ofícios. No meu caso, na minha profissão de professor.

Aos poucos, à medida que fomos nos adequando à nova conjuntura, pudemos ir retomando a normalidade com o exercício das seguintes medidas de segurança: uso de máscaras, cobrindo nariz e boca, higienização constante das mãos com álcool de teor acima de 70% e a distância de 02 metros uns dos outros. Esta última, nem sempre era respeitada.

O período em que passei isolado, ao mesmo tempo que aguçou minha criatividade para dar andamento a novos projetos, além do trabalho institucional, obrigou-me a repensar a rotina e a olhar-me interiormente, tendo em vista de que a clausura começava a afetar a minha saúde mental. Decidi caminhar em companhia da minha esposa.

O período vespertino era, às vezes, o escolhido. Como nossa nova moradia localizava-se no bairro de Lagoa Nova, em Natal, mais precisamente num ponto com acessibilidade a vários serviços (lojas de conveniência, quitandas, praças, hospitais, farmácias etc.), um pouco de atividade física era recomendado, contanto que, ao longo do trajeto, nos preservássemos do contato com outros pedestres, a fim de que aglomerações não se formassem. Foi numa dessas tardes pandêmicas que algo me chamou a atenção.

Enquanto tentávamos relaxar com uma leve caminhada, respirando o frescor da tarde, após bastante tempo enclausurados, observei idosos imprudentes, sem máscaras de proteção, ignorando o cenário epidemiológico em que nos encontrávamos, desfrutando uma boa conversa ao lado de outros em alguns dos bancos da Praça das Mangueiras, como era popularmente conhecido este espaço público. Uns seguravam as máscaras de qualquer jeito, sem qualquer tipo de zelo, podendo, inclusive, com tal gesto, contaminá-las e, em seguida, se contaminarem. Outros pareciam não se preocupar com a aproximação de crianças em idade de usar máscaras, mas sem a devida proteção naquele instante, muito menos com a mínima distância de adultos mais jovens; estes também sem o nariz e a boca escudados. Minutos depois, outros idosos foram chegando à Praça, com o intuito, talvez, de dialogarem e de fazerem atividade física, seguindo o mau exemplo. Os esportistas juvenis que já estavam no local resolveram acompanhar o pessoal da terceira idade, e, daí por diante, uma onda de total desleixo tomou conta do ambiente. Até aconselhei a minha esposa a procurarmos outro espaço para concluirmos o passeio a pé.

Não sei por que, no entanto, me ensinaram que a sabedoria começava pelos mais experientes. Estes, com suas ações, mostravam o que era certo e o que era errado. A questão é que o certo e o errado são duas ideias antagônicas muito relativas, cuja essência varia sempre de geração em geração. Tudo bem, faz sentido. Mas em se tratando da saúde humana, que, por sua vez, tem relação com a preservação da vida, o egoísmo e a falta de empatia, que tais conceitos podem esconder por trás de pequenos gestos, também variam de geração em geração? Em contextos tão críticos como o atual, é de se pensar melhor.

Tenho reparado que é justamente em contextos pandêmicos ou de guerra que o ser humano é posto à prova na hora de procurar alternativas, especialmente se forem para o seu bem ou para o da humanidade. E independentemente do que optar, sabe que as consequências serão registradas pela Ciência Histórica, e esta é para sempre. Além disso, é preciso salientar o peso que a má experiência pode deixar às gerações futuras: uma má conduta retroalimentada por interpretações tortas, ilógicas, produzindo meias verdades, com o aspecto de verdades coerentes, absolutas.

Não disfarço a minha indignação quanto ao modo de vida que se tem hoje, sem referências, valores… Que base a juventude terá quando se vir forçada a pôr em prática a definição de Responsabilidade Social? Nem sequer saberá mais o que é isso, porque simplesmente não teve quem a instruísse nessa direção. E tudo parte de nós, não somente daqueles que elegemos nossos representantes políticos, pois eles são o resultado do que somos, do que fazemos. Eu não sabia que as tardes no bairro de Lagoa Nova me fossem tão reveladoras!

Tudo ou nada

Tudo ou nada

Bolsonaro parece um D. Pedro I nos piores momentos de alucinação, sem a devida percepção do cargo que ocupa. Acha que ainda é um deputado federal do baixo clero, que pode falar, esbravejar, maldizer a tudo e a todos sem que suas falas ecoem ou ameacem a sociedade e a nação.

Hoje, presidente da república, qualquer dito ou ação atabalhoada dele reflete na vida milhões. A sua fala acima do tom no último dia 07/09 significou até ontem: alta no dólar, expectativa de repique inflacionário, queda de 4% na bolsa de valores (quase 200 bilhões de reais engolidos), tendência de aumento dos juros (restrição de crédito para consumidores e empresas). Além disso, o presidente perdeu ainda mais apoio político, e o isolamento político dele, que já era patente nos últimos dias, aumentou ainda mais.

As artreiragens do Supremo Tribunal Federal (STF) – que, diga-se, vêm de alguns anos, bem antes de Bolsonaro chegar à Presidência, mas que se acentuou demasiadamente d’uns tempos para cá – foi o mote para os apoiadores do presidente convocarem as manifestações que tomaram as ruas das principais cidades brasileiras, porque é das ruas que ele tenta ganhar energia e musculatura em meio à delicada crise institucional, com reflexos na situação econômica e social do país. Para uma delas, o presidente se dirigiu e fez o discurso explosivo.

A fala de Bolsonaro, na avenida Paulista, terça-feira passada, foi uma catilinária mal ajambrada, uma diarreia verbal quase suicida, porque ele não parece ter condições de bancar o que disse. E assim, seguiu o script batido: faz e diz coisas de afogadilho, sem pensar ou pensando tortuosamente, depois dá passos atrás e abandona à tropa ao Deus dará, e a postura inicialmente voluntariosa termina engolida por uma outra, acovardada, revelando um líder tatibitate, fenômeno que se repete desde o início de seu governo.

Não custa lembrar que, eleito sob a bandeira da moralidade pública, Bolsonaro viu parte de seu capital moral e político queimado pela presença de filhos enrolados, amigos enrolados, ex-mulheres enroladas e por aí vai. Apresentou-se como antissistema sem explicar ser isso depois de passar mais de duas décadas aboletado no parlamento nacional, sem contar o tempo de edilidade. E de candidato e presidente inicialmente antissistema tornou-se sistema desde novinho ao trazer para o seio do governo os profissionais da política do toma-lá-dá-cá, aos quais eufemisticamente chamamos de centrão.

Do terça-feira para cá o presidente está praticamente mudo (um alento para o Brasil), provavelmente consumido pela ressaca moral e política da destemperada audácia pouco arguta.

Há um ditado nosso que se ajusta com precisão ao que vive o pessoal do Palácio do Planalto: Quem não pode com o pote não pega na rodilha.

O Decreto nosso de cada dia (por Alyson Alves de Lima)

O Decreto nosso de cada dia (por Alyson Alves de Lima)

“Mas, o que digo? Com quem falo? Conservo ainda meu juízo?”

Na peça A Celestina, de Fernando Rojas, o personagem Calisto, sentindo-se culpado pela morte de seus criados, tenta recobrar a “consciência” com um argumento um tanto quanto perverso: “Os ausentes nunca têm razão”. O objetivo deste artigo não é defender ou atacar os decretos restritivos de direitos, mas compatibilizá-lo com os preceitos do ordenamento jurídico.

Um dos principais direitos com os quais se preserva no ordenamento jurídico de um país é a supremacia da Constituição, que, como é conhecido, implica que nenhuma regra, ato jurídico ou conduta ignore os mandamentos Constitucionais, que não são mais apenas consagrados em regras, mas são manifestados também como princípios e valores.

Essa dita supremacia, como os demais direitos consagrados na Carta Política em vigor do nosso Estado social de direito, deve ser garantida por todas as autoridades estaduais, mas não de qualquer forma. Assim, o mero reconhecimento de competências, direitos e deveres não garantem sua legitimidade, é necessário que existam, também, parâmetro que os compatibilize também uma perspectiva formal e material dos atos normativos, pois é a formalidade das normas que torna material e real o que a Constituição prevê.

Ao longo desse período de pandemia, convivemos, quase que diariamente, com uma guerra de decretos expedidos pela União, Estados e Municípios. Muito deles conflitantes. Nunca foi tão imprescindível a confiança legitima e obediência, que no direito chamamos de legitimidade e eficácia dos atos normativos, a esses atos administrativos que disciplinam as condutas e ações de todos diante do agravamento da pandemia. Porém, mesmo esses atos sejam dotados de eficácia e autoexecutoriedade, ou seja, sejam obedecidos sem questionamentos, esses mesmos atos normativos precisam seguir um rito e um conteúdo material legitimado pelo texto Constitucional que são verificados posteriormente.

O STF rejeitou a ADI 6.764 protocolada pelo Sr. Presidente da República que questionava os decretos com medidas restritivas de governadores e prefeitos. Para além dos problemas de capacidade postulatória da ADI, o argumento proposto na ação direta de inconstitucionalidade se concentrava basicamente em dois: O primeiro argumento seria o confronto das medidas sanitária diante a lei 13.874/19 (Lei da liberdade econômica). Não poderia o poder público intervir no funcionamento das empresas mesmo por questões sanitárias, pois feriria a liberdade econômica e a livre iniciativa. O segundo argumento é baseado no princípio da legalidade. Faltaria um Lei Geral que disciplinasse as competências e limites do Poder de Polícia Administrativa do Poder Público.

Dos dois argumentos, o segundo é um pouco mais robusto, afinal, é para a proteção da sociedade que os poderes públicos tenham limites e competências disciplinados em Lei. No ordenamento jurídico alemão, há, desde 2000, a Lei de proteção contra Infecções (Infektionsschutzgesetz - IfSG) que disciplina as medidas de combate de prevenção a doenças infecciosas.

Embora não exista uma Lei nacional de proteção contra infecções nos moldes da lei alemã, o texto Constitucional prevê dois fundamentos que confrontam os argumentos discorridos na ADI. O art. 196 disciplina que é direito de todos e dever do Estado ações que "visem à redução do risco de doença e de outros agravos". Portanto, é legitimo que o Poder Público intervenha com ações de prevenção a saúde pública mesmo em atividades privadas. Já o art. 198, I, afirma que a saúde pública é "descentralização, com direção única em cada esfera de governo". Por essa razão, tem os estados e municípios competência para instituir políticas sanitárias locais e o Poder Público competência para intervir da esfera privada.

Porém, essa discussão esconde um outro problema, esses decretos restritivos podem ser expedidos de qualquer forma? Haveria um limite de conteúdo material desses decretos? Decretos, como qualquer ato normativo, não podem ser expedidos de qualquer forma, devem eles, da mesma maneira, se compatibilizarem com os ditames Constitucionais, principalmente por serem atos administrativos, e como tal, sujeitos ao regime jurídico público. Isso para que tenham legitimidade e eficácia social.

Atendendo a um critério puramente orgânico, pode-se afirmar que as normas emanadas pelo poder executivo estadual e municipal são limitadas ao terceiro nível de categorias normativas hierárquicas, chamadas de atos administrativos, ou normas infralegais, conforme ensina Hans Kelsen, em sua Teoria Pura do Direito. No entanto, de uma perspectiva material, isto é, levando em consideração o conteúdo das decisões do executivo em relação a pandemia, a disposição que assume a forma de decreto, em alguns casos, pode ser uma norma com força material de lei ou em outros um ato administrativo com vocação legislativa. Por exemplos, decretos que limitam quais a atividades econômicas podem funcionar são medidas com força material de lei, já os decretos que estabelecem multas por descumprimentos têm plena vocação legislativa. Em ambos os casos, é de difícil compatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro.

Para evitar essa mácula Constitucional, os decretos executivos, como atos administrativos, na disciplina do poder de polícia administrativa em atividades econômicas, ou atos administrativos ordenadores, não devem tipificar as atividades que podem funcionar, estas já têm o direito fundamental de exercê-la (art. 1, IV, art. 170, da CF/88), e se omitirem em relação ao restante das atividades. Atos administrativos ordenadores têm, nesses casos, natureza jurídica negativa, privam o particular de praticar determinação conduta.

Alguns atos administrativos não têm eficácia entre as partes, há alguns deles que projetam seus efeitos para terceiros (ver Em Busca do Acto Administrativo Perdido, de Vasco Manuel Dias Pereira da Silva). No caso da limitação de atividades econômicas, os efeitos da decisão do Administrador afetam os proprietários, empregados, fornecedores e clientes. O decreto deve, por essa razão, apontar as atividades que não podem funcionar e os motivos objetivos, claros e científicos que as impedem de funcionar. Apresentando as respostas dada por um comitê científico para o combate ao COVID-19.

Afinal, foi decisão do Supremo Tribunal Federal que as decisões administrativas dos entes federativos se pautem em critérios técnicos ou científicos, reconhecidas por entidades nacional ou internacionalmente especializadas. A decisão ocorreu no julgamento cautelar de sete ações diretas de inconstitucionalidade que contestavam a então Medida Provisória 966/2020.

Portanto, é dever de estados e municípios, na tomada da decisão pública, que se escorem em critérios técnicos fornecidos por entidades por eles designados e com conhecimento científico reconhecido. Os decretos devem prever que tais medidas restritivas tem amparo científico tomadas por comissão designada para essa finalidade.

Agora, passados as narrativas, o judiciário vai enfrentar essas questões, centenas de atividades econômicas atingidas por esses decretos estão propondo junto ao judiciário ações que visam reparação pelas perdas decorrentes das medidas restritivas impostas pelos decretos normativos.

Não há saída da crise sanitária que não seja dentro dos parâmetros constitucionais.
 

O mar de Cotovelo (Por Paulo Caldas Neto)

O mar de Cotovelo (Por Paulo Caldas Neto)

Em algumas das manhãs de domingo, sempre que minha esposa vem para Natal, em período de férias, costumamos excursionar os quatro cantos do litoral potiguar sem poupar, muitas vezes, esforços para provar um pouco de sua gastronomia. Saindo de Natal e antes parando para curtir a simplicidade da feirinha de artesanato de Ponta Negra, onde decidimos comprar iguarias da cultura local, a fim de presentearmos conhecidos de outro estado da federação, seguimos o caminho do verão: as praias do litoral sul. Nenhuma discriminação para com as do litoral norte. É que, de onde residimos, as praias da zona sul acabam sendo mais próximas, facilitando muito o nosso percurso.

 

Mais precisamente na manhã deste domingo, dia 01, como nós dois dormimos até tarde e, ainda assim, ela também não havia tido uma boa noite de sono, resolvemos tomar um café da manhã não tão reforçado para que tivéssemos fome para o almoço, que já se aproximava. Saímos às 10h20min. Um horário não muito apropriado para quem deseja desfrutar intensamente as belezas do litoral do RN. O normal é levantar-se cedo. Assim, aproveita-se melhor o turno matutino, especialmente o curto intervalo de tempo entre 8h30min e 10h00min, quando, na opinião dos dermatologistas, os raios de sol não são prejudiciais à epiderme, evitando-se, com isso, doenças como o câncer de pele. Nossa sorte é que não nos expusemos ao forte sol de dezembro, o qual já prenunciava a alta estação do mês de janeiro do ano que entra, ansiosamente esperada por todos, em função das férias e dos frequentes banhos de mar dos veranistas.

 

Não estando minha companheira bem-disposta a altas caminhadas, fossem a pé, fossem de carro, estacionamos o meu Fox em Cotovelo, uma das praias que servem de acesso à praia de Pirangi, uma das mais badaladas da zona sul. Como o bar Barramares estava lotado, e o atendimento deixa a desejar em matéria de celeridade, optamos pelo restaurante Falésias por ser menos agitado e o atendimento eficiente. Em compensação, os preços dos pratos são salgados. Almoçamos uma peixada brasileira e bebemos suco de laranja gelado, porque o ambiente e a sua temperatura exigiam algo bem refrescante. De onde estávamos, o que impressiona é o mar, toda a enseada. Mesmo sendo meio caminho andado, assim como a Praia dos Artistas, vulgo Praia do Meio, localizada em plena a urbanidade de Natal e servindo de acesso a duas outras – a do Forte dos Reis Magos e a de Areia Preta –, Cotovelo possui Resorts, casas de veraneio ainda bem conservadas, embora seu entretenimento noturno seja fraco, sem a estrutura de grandes estabelecimentos que atraiam a juventude potiguar com bastante entusiasmo. Geralmente, os jovens costumam atravessá-la para ir a Pirangi, cujos empreendimentos oferecem uma ampla e diversificada culinária, bem como inúmeros pontos turísticos, estrategicamente explorados pelo ramo empresarial, a começar pelo grande Cajueiro.

 

Sentado em frente ao mar de Cotovelo, pois havíamos pedido ao garçom uma mesa próxima a algo que fizesse sombra, pude sentir a brisa me beijando, seduzindo-me lentamente, que, por um segundo, pensei que estivesse incorrendo em adultério. E logo ali, com a minha esposa ao lado. Que insensatez! Ainda bem que foi só a brisa! Mas o mar! O mar e a sua poética! Ele realmente é sedutor, lírico… Inspirador de poetas, compositores, ultrapassa milênios mantendo aquilo que é de mais belo, titânico e misterioso. Vê-se toda a imensidão do mar de Cotovelo que sensibiliza os olhares apaixonados! Uma boa quantidade de banhistas é vista compartilhando suas delícias com o mar, e este tentando acolher e banhar as pessoas com suas águas espumosas numa espécie de ritual, salgando e renovando os corpos que dali retornam à orla. Meu olhar recebe a hipnose de todo um espetáculo que se desenvolve em sua beleza natural. Um misto de paz e candura me leva de volta ao passado. E ao testemunhar o que a natureza faz, minhas lembranças me transportam às manhãs e às tardes de domingo da década de 80. Ainda criança, só conhecia o mar das praias urbanas anteriormente citadas. A família, vez ou outra, gostava de explorar novos paraísos litorâneos, e eu adorava. Vêm-me os versos da canção de Roberto e Erasmo:

 

Eu me lembro com saudade o tempo que passou.

O tempo passa tão depressa, mas em mim deixou

Jovens tardes de domingo, tantas alegrias,

Velhos tempos, belos dias.

[…]

Hoje os meus domingos são doces recordações

Daquelas tardes de guitarra, sonhos e emoções.

O que foi felicidade

Me mata agora de saudade.

Velhos tempos, belos dias.

Jovens tardes de domingo!…

 

Olhos quase marejados diante do mar de Cotovelo. Escondo uma lágrima da minha mulher. Escondo até o meu saudosismo. Sou assim. O mar de Cotovelo me trouxe uma parte de mim, um passado feliz. Pois é! Um passado no qual eu era feliz e não sabia.

 

 

Por Paulo Caldas Neto

O sagrado espaço de sala de aula

O sagrado espaço de sala de aula

Típico de mentes estupidamente ladinas, como a de Fernando Morais e outros, à esquerda e à direita, misturar tudo – partido, sociedade, governo e Estado – num mesmo pote, para querer obrigar as pessoas a agir no interesse do partido como se estivessem atuando em prol do Estado e da sociedade.

Há pouco, uma mente só estúpida, sem qualquer resquício de ladinice, insinuou-se querendo me patrulhar.

Sofro este tipo de assédio há muito tempo, desde quando ainda era simpatizante de teses esquerdistas.

O argumento (se se pode chamar de argumento aquele ramerrame de chamar os outros de reacionários e outras adjetivações e/ou substantivações adjetivadas) do estúpido era que eu, professor do IFRN, não poderia ou deveria defender repressão à criminalidade abertamente e tampouco posso ou devo me insurgir contra o uso da Escola e mais precisamente da sala de aula como púlpito político-partidário, afinal estou no IFRN porque o governo Lula abriu editais de concurso público. Para o gênio, foi graças a isso que ingressei no então CEFET e por isso Lula e é meu credor.

Ora, sou um defensor da ordem (dizem que isso é discurso de direita e se for, estou, sem problema algum, à direita no espectro político), ingressei no serviço público, todas as vezes em que estive, inclusive na atual, por meio de concurso público, em edital aberto para qualquer cidadão brasileiro que tivesse a formação requerida, logo nada devo a governo ou a político algum.

Não estou filiado a nenhum partido político. Nunca fui. Já simpatizei com alguns e, ainda assim, nunca utilizei o sagrado espaço da sala de aula para fazer militância político-partidária. 

Não sigo e nunca segui político algum, seja de esquerda, direita ou centro.

Discuto e debato, sem qualquer ranço, os assuntos sobre os quais leio e estudo. Mas não tolero patrulhamento ideológico. E ainda menos que tomem um partido político, qualquer que seja ele, como portador da boa nova. Quem tiver em busca do seu Messias político, vá ao deserto.

Por último, considero a sala de aula espaço sagrado, para a qual professor algum deve levar suas crenças para fazer proselitismo de qualquer espécie.

 

***

 

Semana passada, o presidente Jair Bolsonaro foi derrotado em sua intenção de aprovar PEC que permitisse auditagem, via voto impresso, das urnas eletrônicas.

Um amigo, antibolsonarista de quatro costados, puxou conversa comigo dizendo estranhar como um presidente que cai pelas tabelas, acossado pelo STF, pelo Congresso Nacional, pela mídia, pela classe artística, etc, ainda consegue manter-se politicamente vivo, sem risco real, a curto prazo, de sofrer impeachment.

Aprovar um processo de impeachment contra um presidente da república exige condições políticas que, hoje, a oposição não tem, por duas razões: não conta com maioria folgada para tal na câmara de deputados e as ruas ainda não deram um recado suficientemente forte contra Bolsonaro, que, a despeito de toda a oposição que reúne contra si, ainda tem algo entre 25% e 30% do eleitorado a seu favor.

Dificilmente, um presidente com tal apoio político cai.

Lembrem-se que Michel Temer venceu na câmara federal, barrando aprovação do relatório que propunha licença para que o STF o julgasse por delito cometido na função de presidente. Lula, acossado por todos os lados em 2005, quando das denúncias do mensalão, seguiu altaneiro (em grande medida por imprudência da oposição tucana à época) rumo ao segundo mandato presidencial.

Então, o que vimos até aqui sobre o sono profundo do impeachment do atual ocupante do Palácio do Planalto, não deveria surpreender ninguém.

Nem adianta espernear.

Dilma foi impedida, em 2016, por incompetência política.

É só papirar jornais e revistas da época para constatar.

Entre Gato e ratos

Entre Gato e ratos

Li hoje alguns textos e assisti vídeos que registraram o ataque, por cerca de vinte pessoas, em São Paulo, na tarde de ontem, à estátua do sertanista Borba Gato (https://www.youtube.com/watch?v=cmcKC5okuI4).

Sim, sertanista, porque os paulistas que rasgaram o país preando índios e em busca de ouro e pedras preciosas eram assim chamados. 

A direita logo se apressou a dizer que foi um ato de terrorismo e a esquerda chamou a ação de exemplo (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ataque-a-borba-gato-direita-fala-em-terrorismo-e-esquerda-em-exemplo,70003788848).

Não foi uma coisa, nem outra.

Foi vandalismo feito por “revolucionários” mimados, da mesma cepa daqueles intelectuais de gabinete e revolucionários de suvaco que vivem a construir fórmulas e a arrumar justificativas para o amor incontido que têm por figuras abjetas da história mundial, tiranos e déspotas da pior espécie e por movimentos que, com o pretexto de se contrapor ao sistema, depredam patrimônios público e privado.

Aqui mesmo em Natal, ano passado, a casa onde viveu o folclorista, historiador e etnógrafo Câmara Cascudo foi pichada (http://blogcarlossantos.com.br/pichacao-marca-vandalismo-no-instituto-camara-cascudo/) e apareceu um ou outro intelectual justificando o ato ou até mesmo sugerindo que o alvo do ataque poderia ser outro, a estátua do ex-governador e ex-senador Dinarte Mariz, falecido em 1984, na Via Costeira (oficialmente avenida Dinarte Mariz).

Na madrugada de ontem para hoje, a polícia civil prendeu um suspeito de ter participado do ato na zona da capital paulista.

Os sertanistas dos séculos XVII e XVIII foram homens do tempo deles e, não custa registrar, os primeiros grandes devassadores dos sertões e, portanto, formadores das dimensões continentais que têm o Brasil.

Eram, grosso modo, mestiços de branco com índio, até mais índios do que brancos, nos costumes, na arte da guerra, no trato com a natureza, etc, como expõe uma gama de estudiosos do tema em livro organizado por Diogo da Silva Roiz Suzana Arakaki Tânia Regina Zimmerman (Os Bandeirantes e a Historiografia a Brasileira).

Eles não precisam e nem devem ser cultuados como heróis, como eram nos livros didáticos de antanho, tampouco apodados como bandidos, como insiste um certo revisionismo caolho.

Antes de depredar a estátua dos sertanistas, os valorosos homens da revolução do século XXI, candidatos a sequestradores da memória nacional e simpatizantes e integrantes de grupos que carregam os pomposos nomes de Mao Tsé-tung, Vladimir Lenin, Ernesto Che Guevara, Carlos Marighella e que tais, deveriam conhecer a história deles.

Talvez dessa forma pudessem fazer aquilo que dizem fazer – pensar criticamente, tão dito e tão pouco ensinado e aprendido.

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