Blog do Kolluna

Veni, vidi e vici

Veni, vidi e vici

Na mesma excursão de 1957/58 relatada no post anterior, o Botafogo chegou em Medellin, na Colômbia, para jogar contra o Atlético Nacional.

Foi descer no aeroporto, pegar ônibus, hotel, campo de futebol, ônibus, hotel, aeroporto e ir embora. Tudo muito rápido. Vencido o jogo por 2x0, o diretor de futebol, Renato Estelita, bancando o Júlio César quando ocupou a Ásia Menor, enviou telegrama para o Rio de Janeiro, de forma lacônica: “Veni, vidi, vici pt 2x0 Estelita”. Assim que o telegrama chegou ao clube, o funcionário procurou o professor Alfredo Taunay, dirigente do Botafogo e disse:

“- Professor, chegou um telegrama agora do Estelita falando em 2x0. Mas tá em “inglês” e eu não sei quem ganhou nem quem foi o adversário”.

Taunay leu o telegrama e respondeu com um riso no canto do lábio:

“Ganhamos por 2x0. Pelo telegrama o adversário deve ter sido Farnaces, filho de Mitríades. Mas isto é secundário. O que interessa é que ganhamos”.

O funcionário, então, anunciou para os demais que estavam na varanda do clube:

“- Ganhamos de 2x0. De um tal de Farmácia Futebol Clube”.

Os que estavam na varanda se consultaram e disseram que nunca tinham ouvido falar naquele time, mas 2x0 estava de bom tamanho.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Histórias do Futebol” (João Saldanha)

Garrincha e a origem do “Olé”

Garrincha e a origem do “Olé”

Logo após vencer o campeonato carioca de 1957, o Botafogo seguiu para uma longa excursão de 03 (três) meses pela América do Sul, Central e México. Por óbvio que muitas histórias existem nesse extenso período em que o jogador de futebol estava longe de sua casa e de sua terra natal.

A mais fantástica das histórias deste período ocorreu, exatamente, no fechamento da excursão.  No México, o time da Estrela Solitária com Nilton Santos, Didi e Garrincha, enfrentou o River Plate, da Argentina, que também possuía um excelente time com nomes expressivos como Rossi, Labruña, Vairo, Menendez, Zarate e Carrizo e era conhecido com uma das melhores equipes do mundo, junto com o Real Madri.

A Piña Desportiva, mais tradicional grupo de jornalistas esportivos da cidade do México, logo tratou de emular a partida como se fosse “o jogo do século” e ofereceu uma taça cunhada em ouro ao melhor jogador em campo: El Jarrito de Oro.

O favoritismo do River Plate era demonstrado na cota que os clubes recebiam pela participação na partida. Enquanto o Botafogo recebia meros U$ 1,500.00 (um mil e quinhentos dólares), os argentinos recebiam U$ 8,000.00 (oito mil dólares).

Era março, há 03 (três) meses do início da Copa do Mundo da Suécia. As equipes estavam hospedadas no mesmo hotel; o L’Esgargot. Os jogadores se conheciam e o clima era amistoso entre eles e a direção das equipes.

O jogo foi de rara beleza no Estádio Universitário. Jogo duro e limpo. Grandes craques no gramado. Seriedade e respeito mútuos. Cem mil torcedores mexicanos em delírio.

Mané Garrincha tratou de fazer um espetáculo à parte, fazendo os torcedores reagirem as suas jogadas. Foi naquele dia que surgiu a gíria do “Olé”, hoje tão usual nos campos de futebol. Não é que o Botafogo deu um “olé” no River Plate, mas Garricha deu um “olé” pessoal no lateral-esquerdo Vairo. E só a torcida mexicana, com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, traduzir um “olé” daquele tamanho.

Toda vez que Garrincha parava na frente de Vairo, a torcida ficava em profundo silencio. Quando Mané dava o famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: “Ô ô ô ô ô lê! O som do “olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é típico das touradas. Começa com um ô prolongado, em tom mais grave, crescente, e termina com a sílaba lê dita de forma rápida. No Brasil se acentua o final lééé, com as sílabas em tom aberto.   

Vairo não terminou a partida. Ao passar pelo banco brasileiro, disse rindo:

“- No hay nada que hacer. Imposible”!!!

O jogo terminou empatado em 1x1. A torcida invadiu o campo e carregou Mané Garrincha nos ombros em volta olímpica. O Jarrito de Oro foi entregue a Garrincha ali mesmo, à unanimidade de votos.

No dia seguinte, poucas linhas sobre o jogo em si. As reportagens focaram um personagem e a sua ação: Mané Garrincha e o “Olé”.

A imagem da postagem é do Estádio Universitário da Cidade do México, onde foi criado o "Olé" do futebol. 

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Histórias do Futebol” (João Saldanha); https://www.altoastral.com.br/grito-de-ole-estadios-de-futebol/

 

A labirintite do árbitro em Moça Bonita

A labirintite do árbitro em Moça Bonita

Castor de Andrade foi um empresário ligado ao jogo do bicho e bancou, por muito tempo, o time do Bangu Atlético Clube, tradicional time da zona oeste carioca e antigo celeiro de craques. Foi com Castor à frente da diretoria que o Bangu fez a excelente campanha no Brasileiro/1985, sendo vice-campeão e tendo 03 (três) jogadores ganhadores da Bola de Prata da Revista Placar, o lateral-esquerdo Baby, o ponta-esquerda Ado e o ponta-direita Marinho, este ainda recebendo a Bola de Ouro como o melhor jogador da temporada.

Mas a passagem deste post se deu no campeonato carioca. Jogo em Moça Bonita, casa do Bangu, quarta-feira à tarde, poucas testemunhas além da charanga tocando o hino do time e a marchinha Maria Sapatão. O Bangu estava vencendo apertado e o jogo já se encaminha para o seu fim. O goleiro Gilmar faz cera na hora de cobrar o tiro de meta. O árbitro, com autoridade, se dirige ao arqueiro falando:

- Bora, Gilmar!!! Não complica, repõe esta merda!!!

O goleiro insistiu na demora e o árbitro parte em sua direção. Daí, em meio à musiquinha da charanga surge a tonitruante voz do benfeitor do Bangu, que estava bem (ou mal) acompanhado por dois capangas armados.

- Cartão para ele, não! Já tem dois e vai ser suspenso. Domingo é contra o Fluminense.

O árbitro escuta a voz e muda o curso da corrida e vai para cima do zagueiro. De novo o mandatário berra:

- Também não!!! Tem dois cartões.

Daí, a autoridade máxima em campo começa a rodar feito peru bêbado até parar na frente do lateral-esquerdo. Castor de Andrade emenda:

- Esse pode. Amarela ele!

Cartão para o lateral que entrou de gaiato no navio. A curiosidade ficou para o que foi colocado na súmula. No fim do jogo, estava lá:

“Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu problema de saúde, assim que me recuperei apliquei-lhe o cartão amarelo”.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” (Luiz Antonio Simas)

O Super Matutão 2019 e o Matutão de Everaldo Lopes em 1971

O Super Matutão 2019 e o Matutão de Everaldo Lopes em 1971

A Federação Norte-rio-grandense de Futebol – FNF, resgata a tradição do futebol do interior do Estado promovendo o que denominou de Super Matutão, com a participação de seleções de cidades interioranas. O campeonato se inicia neste fim de semana e está previsto para acontecer nos meses de outubro, novembro e dezembro, com final a ser disputada na Arena das Dunas e caberá a equipe campeã receber o troféu Everaldo Lopes.

A lembrança do nome do jornalista esportivo, falecido no ano passado, é uma justa homenagem a quem foi o idealizador do torneio chamado de Matutão e que tinha formato semelhante, com a fase preliminar disputada nas cidades do interior e a final decidida em Natal.

O campeonato interiorano, inicialmente jogado de forma precária nos anos 60, voltou a ser praticado em 1971 por iniciativa de Everaldo Lopes, à época destacado jornalista esportivo do Diário de Natal, que se aproveitou do aniversário de 32 anos daquele jornal para fomentar, outra vez, a prática do futebol no interior do Estado, ideia que foi assimilada pelo jornalista Luiz Maria Alves, diretor dos Diários Associados em Natal e que se tornou patrono do campeonato, recebendo a denominação do troféu para a equipe mais disciplinada. O troféu do campeão daquele ano teve o nome do governador Cortez Pereira.

A organização do campeonato, em 1971, coube ao próprio Everaldo, além dos jornalistas Erildo L’Eraistre Monteiro e Procópio Neto. A coordenação de arbitragem ficou a cargo de Nelson Luzia. O Tribunal Especial de Justiça Desportiva foi composto pelos desportistas Cleanto Siqueira, Mário Dourado, Franklin Machado, Rui Soares e Nivaldo Souza, secretariados por Nilson Torres.  

Vinte equipes inscritas foram divididas em cinco grupos assim divididos: Oeste (Almino Afonso, Pau dos Ferros e Patu), Centro-Oeste (Angicos, Areia Branca, Lages, Pedro Avelino), Seridó (Caicó, Campo Redondo, Parelhas e Santa Cruz), Agreste (Arês, Nova Cruz, Pedro Velho e São José de Mipibu) e Litoral (Canguaretama, Macaíba, Parnamirim, São Gonçalo, Taipu).

E assim começou a festa no interior. A cada fim de semana, as pessoas iam se reunindo na praça, aguardando a chegada da equipe adversária que geralmente vinha em cima da carroceria de um caminhão. Após o almoço, todos pegavam o seu cavalo ou bicicleta, ou mesmo a pé, e se deslocavam para o campinho da cidade, muitos deles sem muro em seu entorno, sem arquibancada e sem o devido conforto para assistir a peleja, algumas já contando com a tradicional rivalidade entre as cidades.  

Várias foram às curiosidades ocorridas para emular o torcedor, a exemplo de ser destinada uma madrinha da equipe da casa para dar o pontapé inicial ou fazer uma preliminar entre equipes de futebol feminino. Houve o caso de na partida entre Patu x Almino Afonso, em face da imensa rivalidade, ser ventilada até mesmo uma festa com a presença de Wanderley Cardoso para atenuar os ânimos dos jogadores e torcedores. A vinda da estrela da Jovem Guarda não se concretizou, mas as equipes desfilaram em carro aberto e trocaram flâmulas, amigavelmente, antes da partida começar.

Após a fase preliminar, somente uma equipe se classificou por grupo, que na fase final se uniram a Currais Novos, que havia sido campeão do torneio interiorano no ano anterior. Na fase final, com jogos em Natal, as equipes foram divididas em dois grupos: A (Currais Novos, Macaíba e Nova Cruz) e B (Pau dos Ferros, Caicó e Areia Branca). A equipe oestana venceu as duas partidas contra Areia Branca e Caicó (2x0 e 5x0) e Macaíba venceu Nova Cruz (2x0) e empatou com Currais Novos (0x0), enquanto a Nova Cruz apenas venceu Currais Novos. Os campeões de cada grupo foram Pau dos Ferros e Macaíba, que fizeram a final em 09.01.1972, no estádio Juvenal Lamartine, com vitória do time do Oeste por 2x0, sendo campeão de forma invicta.

Não houve disputa pelo terceiro lugar que foi dividido entre Caicó e Nova Cruz.

A foto da postagem é da primeira página do Diário de Natal de 10.01.1972, dia após a final do Matutão, contêm lance da partida no Juvenal Lamartine, a invasão da torcida pauferrense após o apito final e o zagueiro Sula, capitão da equipe, erguendo o troféu governador Cortez Pereira. 

 

FICHA TÉCNICA:

Pau dos Ferros 2 x 1 Macaíba

Data: 09.01.1972

Local: Estádio Juvenal Lamartine

Árbitro: Luiz Meireles

Assistentes: Nelson Luzia e Guaracy Picado

Público: 2.213

Renda: Cr$ 5.100,00 (cinco mil e cem cruzeiros)

Gols: Raimundinho (10min) (Macaíba); Aldemir (24min) e Bobô (85min) (Pau dos Ferros).

Pau dos Ferros: Salvino; Sula, Manoel, Aldemir e De Assis; Varela e Botija; Derval, Edilson, Bobô e Chiquinho. Técnico: Jácio Salomão

Macaíba: Wilson; Nazareno, Lela, Genilson e Bozó; Toinho e Beto; Jurandir, Dui, Raimundinho e Totó (Estevam). Técnico: Raimundo França

Um árbitro que nunca engoliu desaforos

Um árbitro que nunca engoliu desaforos

Quem nunca... em uma pelada entre amigos ou num jogo disputado interclasses,  intercolegiais, interbairros ou mesmo profissional não teve vontade de xingar o árbitro do jogo? O Brasil teve um juiz que não levava desaforos para casa. Várias são as histórias de Mário Gonçalves Vianna, com dois “enes”, como ele sempre exigia. Foi árbitro da FIFA, apitando a Copa do Mundo de 1954, se desligando após denunciar uma conversa particular entre o atacante Puskas (Hungria) e o árbitro inglês Mr Ellis antes do jogo entre brasileiros e húngaros e que o juiz teve atuação desastrada.

Na Copa de 1954, foi escalado para apitar Itália x Suíça. Inconformado com a marcação do árbitro brasileiro, o italiano Boniperti partiu para cima dele aos empurrões ao fim do primeiro tempo. Mario Vianna deu-lhe um soco na ponta do queixo, ocasionando um nocaute no atleta, que dobrou os joelhos e caiu no gramado. Ato contínuo, autorizou o atendimento e que levassem o jogador ao vestiário, mas antes, disse ao massagista: “Se ele estiver em condições, pode voltar para o segundo tempo”. Boniperti voltou, calado e quieto, sem provocar o seu desafeto.

Vianna também foi comentarista de arbitragem e era dele a marca registrada “gol...le...galllll” e “banheeeeiiiiiraaaa”, nas transmissões da Rádio Globo. Morreu em 16.10.1989, de pneumonia, aos 87 anos.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “O outro lado do futebol” (Teodoro de Castro Lino); Revista Placar

O "cacetaço" de Draílton

O "cacetaço" de Draílton

Essa história foi contada pelo ex-deputado Valério Mesquita, imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras, contador de “causos” e que tem a verve peculiar para transformar situações comuns em episódios, no mínimo, espirituosos.

Nivaldo Dantas foi um dos grandes zagueiros do futebol potiguar nos anos 60/70. Fez seu nome em Mossoró, atuando pelo Potiguar e Baraúnas, e também na capital pelo ABC. Ao pendurar as chuteiras buscou novas atividades, enveredando pelo caminho do rádio como comentarista esportivo e também sendo eleito vereador em 1988.

Em atuação no rádio, durante um Potiguar x ABC, no Nogueirão, no ano de 1976, uma falta foi marcada na entrada da área contra o time da capital do Oeste e o volante Drailton, do ABC, com seus 1,92 de altura, 92 kilos e chuteiras 44, preparou-se para a cobrança. O locutor deu a deixa para o comentarista:

“E aí, Nivaldo? Perigo para a meta do time Príncipe?”.

O comentarista, de primeira, assumiu o comando e alertou:

“Meus amigos, quem vai bater a falta é o Drailton. Esse eu conheço. Já joguei com ele. E o “cacetaço” do negão não é mole, não!!! O goleiro que se cuide!

Silêncio tumular após o comentário e a convocação do comentarista ao fim do jogo para uma conversa com os donos da rádio.  

A foto que ilustra a postagem mostra Drailton e Noé Soares, na calçada do antigo Aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim.  

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: Tribuna do Norte. Resenhas. Valério Mesquita.

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