Blog do Kolluna

Recesso

Recesso

A Kolluna tira férias neste início de ano, retornando em fevereiro. Durante o ócio de verão, leituras e pesquisas para trazer ao leitor "causos' e histórias do esporte. 

Maria Magnólia Figueiredo: uma estrela de Natal

Maria Magnólia Figueiredo: uma estrela de Natal

Uma tarde qualquer de dezembro. A pandemia do Coronavírus impõe distanciamento social obrigando, aos que são prudentes, obedecer protocolos e recomendações sanitárias. A pandemia impediu que Magnólia e José Figueiredo, seu esposo, estivessem, naquele dia, afivelando malas e seguir para Abu Dhabi, a fim de se encontrar com Luiza, sua única filha, e rever o neto. O genro trabalha no campus de uma universidade de Nova Iorque nos Emirados Árabes Unidos. A filha fez o inverso da mãe, que nunca deixou o solo potiguar para trabalhar e fazer o seu nome profissionalmente. Ao invés, sempre enalteceu o nome do Rio Grande do Norte sem sair do pequenino Estado, tornando-se uma estrela do esporte nacional e olímpico brasileiro e uma estrela de Natal.  

Meados dos anos 70. A menina criada no bairro do Alecrim adorava brincar na rua, em tempos onde a violência urbana quase inexistia na cidade do Natal. Mas, brincar também era desafio. Não gostava de perder. Um salto e o esporte a encontrou pelas mãos da profa. Elizabeth Jatobá, que a convidou para jogar voleibol. O olhar clínico da mestra ao ver a menina Magnólia correr lhe chamou a atenção e, incontinenti, indicou a pupila ao prof. Lindomar, treinador da equipe de atletismo da escola. Magnólia foi participar de sua primeira competição oficial: o JERNs de 1976. Tornou-se, então, uma ex-jogadora de vôlei.

Começou a competir no 100m e 200m, em razão do seu desenvolvimento biológico ainda na puberdade. Na categoria mirim, corria descalça e, embora sem treinamento específico para essas provas, deixou de atingir o índice dos 100m para o Brasileiro absoluto por um centésimo, atraindo o olhar do prof. Armando Lima, exímio caça talentos e treinador da seleção de atletismo do RN.

Em 1977, participou do primeiro Norte/Nordeste Absoluto, ainda como mirim, vencendo os 100m, 200m e os revezamentos 4x100m e 4x400m. Logo depois, o primeiro brasileiro no Rio de Janeiro e, aos 13 anos, foi convocada à seleção brasileira para participar do Sul-Americano em Montevideo, junto com o outro potiguar Roberto Bezerra. Lá, foi bronze em duas provas.

Há de se reconhecer que não é comum, em nenhum esporte, se chegar à seleção adulta com idade de atleta mirim. Façanha? Proeza? A estrelinha de Natal começava a reluzir. No tempo em que Eva Góis e Ana Maria Cavalcanti Morais eram os maiores nomes do atletismo feminino potiguar, Maria Magnólia surgiu com Penélope Brito, sua amiga de infância, para dominar o cenário das provas de velocidade no Estado.

Em 1979, fez sua primeira competição na Europa, ao participar da Copa das Nações, em Lille/França. Quando retornou, com status de atleta de seleção brasileira, recebeu uma placa de reconhecimento do município de Natal, no intervalo de um jogo de futebol entre o ABC x Vasco, com a participação especial de Rivellino, pelo clube potiguar.

Passou a ser adotada pela Alpargatas S/A, não como empregada, mas recebendo material esportivo da Topper.

A partir daí, Maria Magnólia foi conquistando seu espaço no cenário esportivo nacional, correndo e deixando para trás o insistente preconceito com os atletas nordestinos. Dividiu, até 1986, os treinamentos com Armando Lima e José Figueiredo, com quem casou aos 18 anos, em 1981, sendo ele, o marido e treinador, quem enxergou o potencial dela para provas de 400m e a oportunidade de se tornar uma atleta olímpica. Aquilo soou como música aos seus ouvidos, tornando-se especialista na prova e, quatro anos depois, estabeleceu o até hoje recorde brasileiro feminino mais longevo em provas olímpicas, alcançado em Roveretto/Itália, em agosto/1990, com o tempo de 50s62(*).

Magnólia já havia batido este mesmo recorde em uma das eliminatórias em Seul, sua iniciação em jogos olímpicos. Também compôs a seleção olímpica de atletismo em Barcelona (1992), Atlanta (1996) e Atenas (2004), sua última participação e que é uma história à parte.

Em 1998, uma lesão no músculo piriforme - cicatrizes de pequenas lesões no tendão da perna que ela arrancava para correr – fez com que Magnólia saísse de cena, comprometendo, até mesmo, sua ida a Olimpíada de Sidney (2000). Uma conversa com o médico potiguar Maeterlink Rego a fez chegar ao Dr. Moisés Cohen, um dos três únicos especialistas no Brasil para tais lesões. O médico considerou a contusão grave e não recomendou a cirurgia. Magnólia, obstinada, assumiu o risco, convenceu o médico que ele teria a possibilidade de fazê-la voltar a correr, ir novamente aos jogos olímpicos e assinou termo de responsabilidade. Combinou com o médico Moisés Cohen que “se desse errado ninguém saberia quem foi o cirurgião, mas se desse certo ela divulgaria para o mundo”. Fez a cirurgia no dia que a delegação brasileira foi para Sidney e profetizou: daqui a quatro anos eu volto.

A volta foi difícil, ficou de muletas por um tempo e na reavaliação, a perna cirurgiada só tinha 29% de reação. Precisou reorganizar o planejamento da corrida e passar por adaptações para poder atingir o índice e isso foi muito treinado, não só no físico, mas a mente e a concentração.

Atenas/2004 passou a ser o foco de Maria Magnólia. Em Cochabamba/Bolívia, era a última oportunidade para alcançar o índice - na perna -, onde todas as demais atletas brasileiras concorrentes estavam presentes e melhor ranqueadas que ela. Ela voltava a um lugar onde havia competido há 25 anos. A atleta reconhecidamente fria, cujo planejamento sempre fez com que os resultados conquistados parecessem normais, vibrou pela primeira vez, pelo reconhecimento do seu esforço, e assumiu mais um recorde ao se tornar a mais antiga atleta do atletismo nacional a participar dos Jogos Olímpicos, aos 41 anos.

Em 1998, iniciou o projeto com a Universidade Potiguar – UnP (Prof. Paulo de Paula), de conectar os atletas carentes de atletismo a um ensino de qualidade. Esse projeto foi abraçado com maior afinco após Mag ter se aposentado como atleta de alto rendimento, em 2004. O objetivo do projeto, que continua ativo, é dar uma oportunidade para transformar novos meninos e meninas em cidadãos, contribuindo de alguma forma com a sociedade e, se possível, em grandes atletas.

Já fora das quadras, tentou uma carreira política com a proposta de fazer com que a educação pudesse modificar um pouco a realidade das camadas menos favorecidas. A decisão era informar para formar, e levar a mensagem de que é possível ser atleta e também planejar uma vida futura com menos sacrifício. Levar o esporte para os bairros, para os municípios, com um trabalho por trás, e não só esporte pelo esporte, mas um meio para encontrar um objetivo maior que é essa transformação de realidade. Mesmo sem ter conseguido um assento oficial nas casas legislativas, com o seu projeto social tem, naturalmente, feito política por princípio de retribuição pelo apoio que recebeu dos órgãos públicos ao longo de sua carreira.

A história de Maria Magnólia Figueiredo, por si só, já é digna de toda reverência. Uma vida esportiva e profissional limpa, participando de quatro olimpíadas de verão e escolhida, junto com Ayrton Senna, os melhores atletas do Brasil no ano de 1990, um orgulho imensurável, com o detalhe maior de que não precisou sair do RN para que toda a sua trajetória no esporte fosse possível, mesmo vinculada a um Estado sem fazer parte do eixo sul-Sudeste. Arraigada ao seu rincão, se tornou viajada, cosmopolita, conhecedora do mundo, sem esquecer a missão de ser mãe e esposa, de manter uma vida profissional paralela a ser o seu esteio ao encerrar a carreira de atleta.   

Na última postagem do ano, a homenagem do Blog do Kolluna a mais uma memória viva do esporte potiguar. Magnólia como uma magnólia, se fez reconhecer além das fronteiras do seu lugar natal e do seu país, e repetiu a passos largos o que já havia feito a pena do mestre Câmara Cascudo, reconhecido defensor das coisas da terra potiguar, no ensaio “O que diria o Sr. Graça Aranha”, in 24.08.1924, ao dizer “Veja a terra e nela faça residir o seu esforço”.    

(*) No troféu Brasil de Atletismo/2020, realizado neste mês no Centro Olímpico de São Paulo/SP, os 400m feminino foi vencido por Tiffani Marinho (Campinas/SP), bicampeã da prova, com o tempo de 52s95, marca muito distante do recorde de Magnólia.          

Futebol e sexo

Futebol e sexo

Os dois assuntos sempre estiveram de ladinho. Há, inclusive, histórias nacionais curiosas de paixões arrebatadoras onde o título mundial foi dedicado a uma cantora ilustre ou o jogador que fez beicinho e só aceitou ir à Copa do Mundo se a mulher fosse junto.  Há até mesmo um livro que se chama “Amor, Sexo e Traição nas Copas”, de Leonardo Bertozzi e Gustavo Hoffman (imagem do post), que aborda situações nem tão famosas assim e ficaram restritas a algumas linhas em jornais e revistas.

Muito bem. Enquanto alguns são mais diretos ao tratar do assunto, outros mantêm certa discrição. Não é o caso do escritor uruguaio Eduardo Galeano, ao dizer que “o gol é o orgasmo do futebol”. O tímido Raí disse certa vez que “futebol é diversão. Gol é orgasmo”.  Já Alfredo Di Stéfano, craque que divide a tríade argentina dos maiores hermanos de todos os tempos com Diego Maradona e Lionel Messi, é sutil, mas sua frase é daquelas como um gol em que se entra com bola e tudo: “Marcar gols é como fazer amor, toda gente o faz, mas não faz como eu”. A frase ainda foi mais tarde complementada: “Um 0x0 é como um domingo sem sol...ou sem sexo”. Era como se o genial argentino guardasse o domingo para fazer o que mais gostava.

Na Copa das Confederações de 2013, em plena final, num Maracanã lotado, o centroavante Fred, logo no início do jogo, matou uma bola no peito dentro da pequena área da seleção da Espanha, desequilibrou-se, caiu e, antes que o goleiro Casillas e o zagueiro Sérgio Ramos chegassem ao lance, no chão mesmo, deitado, arrematou a bola para o gol espanhol, desvirginando o placar.

No intervalo, ao ser indagado pelo repórter se já havia feito gol deitado, respondeu: “Já fiz tanta coisa deitado, coisas boas, por sinal, só faltava mesmo fazer um gol”. 

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto:“Amor, Sexo e Traição nas Copas” (Leonardo Bertozzi e Gustavo Hoffman); Futebol em Frases (Cláudio Dientsmann)

Pareciam Marcianos

Pareciam Marcianos

“Jamais teria imaginado que Itália x Brasil 1982 entraria para a história do futebol como um dos jogos do século. Uma partida memorável, jogada de igual para igual, e de forma aberta por ambos os lados.

A partida contra o Brasil marcou minha vida de forma indelével. Naquele dia, eu me sentia forte como um leão e ágil como uma gazela; três gols, uma prova soberba. O meu primeiro gol foi o mais importante de toda a minha carreira. Eu o recordo como o mais retumbante de minha vida. Finalmente, havia vencido um bloqueio e experimentei uma sensação libertadora; estavam se abrindo as portas do paraíso. Então retomei meu gesto habitual de estufar as redes, e aquele gol me deu uma confiança desmesurada.

Durante a partida nunca pensei no resultado; tentei apenas manter alta a concentração no jogo; eu sentia os pensamentos positivos, o físico respondia bem e eu via os meus companheiros com garra e com muita personalidade.

Sabíamos estar diante de um dos melhores times de todos os tempos; eu os havia visto disputando as partidas anteriores e eles me pareciam marcianos; jogavam de memória; podiam jogar de olhos vendados de tão perfeito o entendimento entre eles. Jogadores extraordinários e talentosos como Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Cerezo, Éder...

Nenhuma equipe do mundo, porém, é invencível, e naquele dia, eles encontraram a seleção italiana inspirada. Nada nem ninguém, pararia os 11 mosqueteiros azzurri.

Certamente a Itália puniu a presunção e a arrogância do Brasil. Nós fomos mais efetivos e cínicos. Após o apito final, que recompensava a Itália e eliminava definitivamente o Brasil, minha cabeça explodiu; fiquei aturdido como por um feitiço, inebriado de alegria. Nós tínhamos conquistado, a muito custo, a semifinal contra a Polônia.

Com o sangue quente, não imaginávamos que aquele Itália x Brasil entraria para a lenda do futebol universal. E eu era o protagonista, o personagem principal, mas isso eu só entendi mais tarde”.

Esse texto é o prefácio do livro “Brasil, o time que perdeu a Copa e conquistou o mundo”, de Paulo Roberto Falcão e é assinado por Paolo Rossi, “o Bambino D’oro”, centroavante da seleção italiana e responsável direto pela eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982.

Um olhar italiano e feito pelo “dono do jogo”, portanto, um contraponto a todas as versões que o brasileiro se acostumou a ver e ouvir a respeito daquela partida inesquecível.

A homenagem do “Blog do Kolluna” ao jogador italiano que faleceu esta semana e enlutou o futebol mundial.

Marinho Chagas, Chico Buarque e o desafio

Marinho Chagas, Chico Buarque e o desafio

Na volta do verão europeu em 1977, após a conquista do Torneio Teresa Herrera com o Fluminense, Marinho era titular da seleção brasileira e já havia conseguido sufocar o ciúme da torcida do Botafogo, em razão de sua troca pelo tricolor das Laranjeiras.

Uma noite, chega com o seu Mustang vermelho ao Antonio’s, no Leblon, point dos globais, jornalistas, artistas e da intelectualidade carioca. Vê numa mesa Tom Jobim, Chico Buarque e Fágner conversando e tomando um puro escocês. Dirige-se a eles e, sabedor que Chico é tricolor, provocou: “Chico, canta alguma coisa aí pra gente”. O cantor não estava a fim de fazer show e a resposta veio em forma de desafio, pensando ser impossível: “Só se você fizer duzentas embaixadinhas aqui para nós”.

A “Bruxa” foi na cozinha do bar e trouxe uma laranja inchada. Soltou da mão e aparou o fruto com o pé direito. E começou a fazer as embaixadinhas: “Tá contando?”, indagou irônico, enquanto Fágner e Jobim riam da situação inusitada em pleno bar, que parou para ver a cena e ajudou Chico a contar. Este, ao fim, teve que tirar a viola e pagar a aposta, cujo desafio jamais imaginou que Marinho fosse topar.

Chico Buarque, indagado, disse não se lembrar da história, mas que era possível. Já Raimundo Fagner confirmou o ocorrido. 

Na foto a ilustrar a postagem vemos Chico Buarque, no campo de pelada da sua casa, em 1981, com Raimundo Fagner e Marinho Chagas.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “A Bruxa e as vidas de Marinho Chagas (Luan Xavier); (Blog do Laprovitera) http://laprovitera.blogspot.com/2015/01/na-pelada-do-chico.html

O repórter, o craque e "o branco"

O repórter, o craque e "o branco"

Em 1982, a seleção brasileira de futebol veio jogar pela primeira vez em Natal. Era o início da arrancada para a Copa do Mundo daquele ano na Espanha, e Telê Santana, treinador da seleção, fazia os últimos testes para definir o elenco.

O jogo foi no estádio que ainda era chamado de Humberto de Alencar Castelo Branco, o “Castelão” - que somente foi mudado para “Machadão” em 1989 -, contra a seleção da Alemanha Oriental (a unificação da Alemanha se deu em 1990).

Na chegada da equipe brasileira ao velho aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim, às equipes de rádio e TV estavam presentes, entre elas o Canal 5, TV Universitária local, que designou o seu repórter esportivo Maurício Pandolphi para cobrir o desembarque da seleção.

Em determinado momento, o intrépido repórter descobre, no vai e vem de celebridades futebolísticas, nada mais, nada menos, do que Edvaldo Izídio Neto, conhecido no mundo do futebol como “Vavá”, centroavante da seleção brasileira no bicampeonato mundial de 1958/1962. “Vavá” era o treinador da equipe juvenil (Sub-20) e acompanhava a delegação. Pandolphi chamou o camera man que o acompanhava, começou o stand up (reportagem que simula uma matéria ao vivo), e foi chegando no “Leão da Copa”, pegando no cotovelo do entrevistado, já todo cheio de intimidade, e na hora de chamá-lo pelo nome... cadê o nome??? Deu o popular “branco” na cabeça do Pandolphi.

Dizia o repórter naquele momento da matéria:

“Um dos membros da comissão técnica do selecionado brasileiro que veio a Natal é o famoso centroavante das Copas de 1958 e 1962, o...o...o...”

A frase não se completava e o repórter, naquela fração de segundo, se desesperava, agoniado, brigando com sua própria memória e apelando para todos os santos para que recuperasse a lembrança do nome/apelido do ex-jogador. 

Ao apelar aos santos, um Santos atravessou o seu juízo e no desespero da causa, ainda agarrado ao cotovelo de Vavá, enfatizou:

“o...o...NILTON... NILTON SANTOS”!!!

Pandolphi trocara o centroavante valente pelo clássico lateral-esquerdo, também bicampeão mundial em 1958/1962, chamado de a “Enciclopédia do Futebol”. 

“Vavá” fechou a cara, desvencilhou-se do repórter provinciano e saiu de lado dizendo algo inaudível, enquanto a TVU perdia uma entrevista com o ex-campeão mundial.

Pandolphi conta com arte e faz chiste desse episódio no seu livro de memórias, lançado em 2014, só não conta o que o “Vavá” teria balbuciado na hora que se retirou da entrevista com cara de poucos amigos, o que se imagina, facilmente.

- Ora, vá vá...

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Também se fala com os pés: memórias de um jornalista feliz” (Maurício Pandolphi)

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