Blog do Kolluna

16/11/2019 18:33

Brasil x Argentina. A "batalha" de Rosário em 1978

Brasil x Argentina.  A "batalha" de Rosário em 1978

Chamado de superclássico das Américas, Brasil x Argentina guardam diversas partidas históricas entre si, porém, uma delas tem um enredo especial. Aquela realizada no modesto estádio, curiosamente chamado de Gigante de Arroyito, em Rosário, e que foi decisiva para a definição de um dos finalistas da Copa do Mundo de 1978.

Com a facilidade que a tecnologia hoje nos proporciona e a partida sendo disponibilizada na internet, parei para assistir todo o jogo e então se descortinou uma verdade que não é tão propagada. O jogo passou longe de ser considerada uma “batalha”.  

A história pouco fala de um detalhe desse jogo. A tendenciosa administração da Copa antecipou a chegada da seleção brasileira em meia hora ao estádio. Uma forma de prolongar a ansiedade dos jogadores e, de alguma forma, o psicológico funcionar contrariamente para os brasileiros, uma vez que o estádio era menor que os demais e o calor da torcida iria provocar alguma reação nos jogadores.

O treinador Cláudio Coutinho, inteligentemente, mandou que os jogadores, ainda de agasalho, subissem ao gramado e ficassem passeando sempre mais para o meio do campo, como se fazendo um reconhecimento do gramado. Longe, porém, do alambrado. A torcida passou a vaiar enormemente os atletas, jogar bobina de máquina, papel higiênico e o que tinham em mãos. Nessa meia hora eles cansaram. Pararam de apupar. Então a equipe desceu ao vestiário para aquecer.

O jogo em si, considerando as condições oferecidas, até que foi normal demais diante da tradição desse clássico. Campo pequeno, torcida próxima, gramado extremamente escorregadio, noite fria e os jogadores mais preocupados em catimbar do que jogar futebol.

Coutinho, habilmente, escalou o volante são-paulino Chicão, que colou em Mário Kempes como um carrapato e não o deixou ser o cérebro argentino da criação e da chegada surpresa no ataque.

O time brasileiro tinha jogadores com a característica do jogo cadenciado, imprópria para uma partida mais pegada, como Jorge Mendonça e Dirceu. Até a nossa zaga não era de impor respeito mostrando as travas da chuteira. Oscar e Amaral tinham a técnica como sua maior qualidade, embora a partida tenha mostrado o quão importante foi Oscar, um verdadeiro xerife que colocou o centroavante Luque no bolso e usou da malícia quando foi necessário.

Outro jogador importante na parte defensiva foi o lateral-direito Toninho Baiano. Não deixou Ortiz jogar, a ponto do argentino ser substituído no segundo tempo por Alonso, que só  congestionou o meio de campo numa época em que se jogava com pontas abertos. Toninho ainda contribuiu para tirar de jogo o craque Ardilles, pegando-o de jeito no fim do primeiro tempo, obrigando o treinador Cesar Luiz Menotti a colocar Ricardo Villa em campo, o melhor amigo de Ardilles e que após a Copa ambos seguiram para o Tottenham Hotspur, onde foram ídolos.

No entanto, entre os brasileiros o grande nome do jogo foi o de Batista. O volante do Inter armou, combateu, segurou o jogo na hora certa, arrepiou quando foi necessário, correu todo o campo o jogo inteiro e não se intimidou com a cara feia de Passarella.

Quanto ao jogo, muitos chutes de fora da área, nenhum a causar perigo aos gols de Emerson Leão e Ubaldo Fillol, ambos jogando de camisas verdes. O ponta-direita Gil, no primeiro tempo, chutando em cima de Fillol e Roberto Dinamite, no segundo tempo, em triangulação com Zico (que entrou no lugar de Jorge Mendonça) e Batista tiveram as melhores chances para o Brasil. Ortiz teve o gol escancarado após um cruzamento de Bertoni e não soube aproveitar o melhor momento argentino no jogo.

O empate em 0x0 deixou as duas seleções em pé de igualdade, sendo necessária a intervenção da FIFA para colocar os jogos Brasil x Polônia e Argentina x Peru na última rodada em diferentes horários, a fim de que os Hermanos soubessem do que precisavam para ir à final com os holandeses. O Brasil terminou a Copa invicto, tendo o treinador Cláudio Coutinho considerado que fomos campeões morais, "título" que foi muito contestado pela imprensa, à época.

Emerson Leão, hoje, justifica a fala do treinador falecido em 1981.

“Ele quis dizer que: primeiro, nós não perdemos; segundo, não nos deixaram ganhar; ofereceram aquela vergonha do Peru com a Argentina; e mudaram o jogo que decidiu a final”.

Na foto da postagem, Chicão dá um tapa em Kempes no fim do primeiro tempo. Dirceu pega Ardilles, assistido por Roberto Dinamite.

12/11/2019 19:34

Assis: O Carrasco do Flamengo

Assis: O Carrasco do Flamengo

Benedito de Assis da Silva iniciou sua carreira de jogador de futebol no interior paulista e somente aos 28 anos chegou a um clube considerado grande: o São Paulo. Passou pelo Internacional/RS e aos 30 anos chegou ao Athlético Paranaense, onde fez dupla famosa com Washington, levando o clube ao título estadual de 1982 e a semifinal do Brasileiro/83. Nesse mesmo ano, os dois chegaram ao Fluminense/RJ, onde conquistaram o tricampeonato Carioca (1983/84/85) e o Brasileiro/1984.

Os títulos do Campeonato Carioca de 1983 e 1984 saíram dos pés de Assis. Em 1983, uma combinação de resultados num triangular entre Fluminense, Flamengo e Bangu fez o tricolor sagrar-se campeão. Em 1984, o rubro-negro venceu a Taça Guanabara, o Vasco da Gama a Taça Rio e o Fluminense fez o maior número de pontos nos dois turnos, credenciando-se a participar do triangular que decidiu o Carioca. Fla e Flu venceram seus jogos contra o Vasco e fizeram a final. Não havia saldo de gols. Um empate e haveria um novo jogo para decidir quem seria o campeão. Zagallo e Carlos Alberto Torres eram os treinadores das equipes rubro-negra e tricolor, respectivamente. O Mengo com seis remanescentes do título mundial de 1981: Leandro, Mozer, Andrade, Adílio, Tita e Nunes.

O enredo lembrou o ano anterior. Jogo equilibrado e, novamente, gol de Assis na mesma baliza. O lateral-direito Aldo repetiu o excessivo treinamento da bola aérea na área adversária e centrou para encontrar Assis sozinho, livre de marcação, que pegou uma cabeçada de jeito e Fillol nada pôde fazer. Dois gols decisivos em decisões consecutivas num Fla-Flu foi o suficiente para a torcida tricolor batizar Assis de “o Carrasco do Flamengo”.

A decisão do campeonato carioca de 1984 fará 35 anos no dia 16 de dezembro. Assis jogou 14 (catorze) vezes o Fla-Flu. Marcou 05 (cinco) gols.

Se estivesse vivo faria hoje, 12.11.2019, 67 anos. Morreu em julho/2014, de insuficiência renal.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: Grandes Jogos do Maracanã (Roberto Assaf e Roger Garcia)

10/11/2019 10:41

Grande Resenha Facit e a Arca de "Moisés"

Grande Resenha Facit e a Arca de "Moisés"

A Grande Resenha Esportiva FACIT foi o primeiro programa de debate esportivo da TV brasileira. Idealizada pelo intrépido Walter Clark, era exibida ao vivo, todo fim de noite de domingo após os jogos direto dos estúdios da TV Globo, no Jardim Botânico. Participavam do programa os jornalistas João Saldanha e Luiz Mendes (botafoguenses), José Maria Scassa (flamenguista), Nelson Rodrigues (tricolor), Vitorino Vieira (vascaíno) e Armando Nogueira, embora botafoguense, era o neutro, o mais equilibrado nas discussões, sendo um mediador.

Depois de um Fla-Flu, em 20.03.1966, em que o rubro-negro da Gávea aplicou um sonoro 4x1 nos Fluminense pelo Torneio Rio-São Paulo, toda a expectativa era a gozação que o Scassa ia fazer para cima do Nelson Rodrigues. Iniciado o programa, a palavra foi dada a José Maria Scassa que, eufórico, começou a chacota e, depois de muito gozar dos tricolores, disse: “eu quero passar a palavra para o perdedor do jogo, o Nelson Rodrigues, e lembrar que desde o tempo da Arca de ‘Moisés’ nunca houve uma goleada tão sublime, tão maravilhosa num Fla-Flu”.

Diante do descuido do opositor, o dramaturgo esqueceu a goleada e mudou o foco da discussão: “Tudo bem, Scassa. Agora, protesto veementemente diante dessa adulteração, com esse roubo literário que você está praticando contra o pobre do Noé. A arca foi do Noé!”.

O debate que todos esperavam não aconteceu. Inteligentemente, durante todo o programa, Nelson Rodrigues se esquivou e ressuscitou a polêmica sobre Moisés e Noé, e Saldanha apoiou a discussão com ares de galhofa.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: História do jornalismo esportivo na TV brasileira (Alberto Léo).

06/11/2019 18:32

Veni, vidi e vici

Veni, vidi e vici

Na mesma excursão de 1957/58 relatada no post anterior, o Botafogo chegou em Medellin, na Colômbia, para jogar contra o Atlético Nacional.

Foi descer no aeroporto, pegar ônibus, hotel, campo de futebol, ônibus, hotel, aeroporto e ir embora. Tudo muito rápido. Vencido o jogo por 2x0, o diretor de futebol, Renato Estelita, bancando o Júlio César quando ocupou a Ásia Menor, enviou telegrama para o Rio de Janeiro, de forma lacônica: “Veni, vidi, vici pt 2x0 Estelita”. Assim que o telegrama chegou ao clube, o funcionário procurou o professor Alfredo Taunay, dirigente do Botafogo e disse:

“- Professor, chegou um telegrama agora do Estelita falando em 2x0. Mas tá em “inglês” e eu não sei quem ganhou nem quem foi o adversário”.

Taunay leu o telegrama e respondeu com um riso no canto do lábio:

“Ganhamos por 2x0. Pelo telegrama o adversário deve ter sido Farnaces, filho de Mitríades. Mas isto é secundário. O que interessa é que ganhamos”.

O funcionário, então, anunciou para os demais que estavam na varanda do clube:

“- Ganhamos de 2x0. De um tal de Farmácia Futebol Clube”.

Os que estavam na varanda se consultaram e disseram que nunca tinham ouvido falar naquele time, mas 2x0 estava de bom tamanho.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Histórias do Futebol” (João Saldanha)

03/11/2019 10:46

Garrincha e a origem do “Olé”

Garrincha e a origem do “Olé”

Logo após vencer o campeonato carioca de 1957, o Botafogo seguiu para uma longa excursão de 03 (três) meses pela América do Sul, Central e México. Por óbvio que muitas histórias existem nesse extenso período em que o jogador de futebol estava longe de sua casa e de sua terra natal.

A mais fantástica das histórias deste período ocorreu, exatamente, no fechamento da excursão.  No México, o time da Estrela Solitária com Nilton Santos, Didi e Garrincha, enfrentou o River Plate, da Argentina, que também possuía um excelente time com nomes expressivos como Rossi, Labruña, Vairo, Menendez, Zarate e Carrizo e era conhecido com uma das melhores equipes do mundo, junto com o Real Madri.

A Piña Desportiva, mais tradicional grupo de jornalistas esportivos da cidade do México, logo tratou de emular a partida como se fosse “o jogo do século” e ofereceu uma taça cunhada em ouro ao melhor jogador em campo: El Jarrito de Oro.

O favoritismo do River Plate era demonstrado na cota que os clubes recebiam pela participação na partida. Enquanto o Botafogo recebia meros U$ 1,500.00 (um mil e quinhentos dólares), os argentinos recebiam U$ 8,000.00 (oito mil dólares).

Era março, há 03 (três) meses do início da Copa do Mundo da Suécia. As equipes estavam hospedadas no mesmo hotel; o L’Esgargot. Os jogadores se conheciam e o clima era amistoso entre eles e a direção das equipes.

O jogo foi de rara beleza no Estádio Universitário. Jogo duro e limpo. Grandes craques no gramado. Seriedade e respeito mútuos. Cem mil torcedores mexicanos em delírio.

Mané Garrincha tratou de fazer um espetáculo à parte, fazendo os torcedores reagirem as suas jogadas. Foi naquele dia que surgiu a gíria do “Olé”, hoje tão usual nos campos de futebol. Não é que o Botafogo deu um “olé” no River Plate, mas Garricha deu um “olé” pessoal no lateral-esquerdo Vairo. E só a torcida mexicana, com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, traduzir um “olé” daquele tamanho.

Toda vez que Garrincha parava na frente de Vairo, a torcida ficava em profundo silencio. Quando Mané dava o famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: “Ô ô ô ô ô lê! O som do “olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é típico das touradas. Começa com um ô prolongado, em tom mais grave, crescente, e termina com a sílaba lê dita de forma rápida. No Brasil se acentua o final lééé, com as sílabas em tom aberto.   

Vairo não terminou a partida. Ao passar pelo banco brasileiro, disse rindo:

“- No hay nada que hacer. Imposible”!!!

O jogo terminou empatado em 1x1. A torcida invadiu o campo e carregou Mané Garrincha nos ombros em volta olímpica. O Jarrito de Oro foi entregue a Garrincha ali mesmo, à unanimidade de votos.

No dia seguinte, poucas linhas sobre o jogo em si. As reportagens focaram um personagem e a sua ação: Mané Garrincha e o “Olé”.

A imagem da postagem é do Estádio Universitário da Cidade do México, onde foi criado o "Olé" do futebol. 

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Histórias do Futebol” (João Saldanha); https://www.altoastral.com.br/grito-de-ole-estadios-de-futebol/

 

31/10/2019 11:11

A labirintite do árbitro em Moça Bonita

A labirintite do árbitro em Moça Bonita

Castor de Andrade foi um empresário ligado ao jogo do bicho e bancou, por muito tempo, o time do Bangu Atlético Clube, tradicional time da zona oeste carioca e antigo celeiro de craques. Foi com Castor à frente da diretoria que o Bangu fez a excelente campanha no Brasileiro/1985, sendo vice-campeão e tendo 03 (três) jogadores ganhadores da Bola de Prata da Revista Placar, o lateral-esquerdo Baby, o ponta-esquerda Ado e o ponta-direita Marinho, este ainda recebendo a Bola de Ouro como o melhor jogador da temporada.

Mas a passagem deste post se deu no campeonato carioca. Jogo em Moça Bonita, casa do Bangu, quarta-feira à tarde, poucas testemunhas além da charanga tocando o hino do time e a marchinha Maria Sapatão. O Bangu estava vencendo apertado e o jogo já se encaminha para o seu fim. O goleiro Gilmar faz cera na hora de cobrar o tiro de meta. O árbitro, com autoridade, se dirige ao arqueiro falando:

- Bora, Gilmar!!! Não complica, repõe esta merda!!!

O goleiro insistiu na demora e o árbitro parte em sua direção. Daí, em meio à musiquinha da charanga surge a tonitruante voz do benfeitor do Bangu, que estava bem (ou mal) acompanhado por dois capangas armados.

- Cartão para ele, não! Já tem dois e vai ser suspenso. Domingo é contra o Fluminense.

O árbitro escuta a voz e muda o curso da corrida e vai para cima do zagueiro. De novo o mandatário berra:

- Também não!!! Tem dois cartões.

Daí, a autoridade máxima em campo começa a rodar feito peru bêbado até parar na frente do lateral-esquerdo. Castor de Andrade emenda:

- Esse pode. Amarela ele!

Cartão para o lateral que entrou de gaiato no navio. A curiosidade ficou para o que foi colocado na súmula. No fim do jogo, estava lá:

“Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu problema de saúde, assim que me recuperei apliquei-lhe o cartão amarelo”.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” (Luiz Antonio Simas)

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