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"Zico tá no Santos, de Pelé"

"Zico tá no Santos, de Pelé"

A frase parece com um trecho da conhecida música “Pega na Mentira”, de Erasmo Carlos e serve como introito de uma folclórica história do futebol brasileiro no “Dia da Mentira”. 

Primeiro de abril de 1984. O Santos tinha sido vice-campeão brasileiro no ano antecedente e a torcida estava “mal-acostumada” com algumas contratações de impacto que a diretoria tinha proporcionado, como a chegada de Serginho Chulapa, Paulo Isidoro e até mesmo o argentino Leopoldo Luque, campeão do mundo em 1978.

Em meio à euforia da vitória na noite anterior, por 4x1, pelo Brasileirão contra o Fortaleza, no Ceará, com gols de Serginho Chulapa (2), Ronaldo Marques e Pita (Evilásio descontou para os alencarinos), o então diretor de futebol Cássio Nogueira convocou a imprensa para comunicar uma bomba. O dirigente tinha sido um formidável zagueiro do clube nos anos 50, e assumia o cargo executivo em paralelo as suas atividades profissionais como construtor imobiliário.

Na coletiva, Cássio falando em tom sério e respeitável, revelou que o Santos contratara Zico, “o Galinho de Quintino”, que estava na Udinese/Itália, e era aguardado naquele mesmo dia para fazer exames médicos e assinar contrato com o clube.

Ora, a notícia ganhou todas as manchetes, afinal, outras grandes contratações também tinham sido entabuladas no ano anterior. Não havia razão para não se acreditar. A torcida do Santos pirou e a do Flamengo ainda mais, cobrando do presidente George Helal uma resposta, enquanto este nada sabia.

Naquele tempo, as comunicações não eram tão fáceis assim para se chegar a Zico, na Itália, e confirmar a transação.

Momentos depois, advertido pelo presidente Milton Teixeira, Cassio Nogueira teve que desmentir a notícia, para desespero da torcida santista e alívio das demais, dizendo tratar-se de um “primeiro de abril”.

PS 1: A Kolluna dá sequência a mais um episódio relacionado ao “Dia da Mentira” no futebol, iniciado na semana passada e que será abordado durante as postagens do mês de abril.  

OS 2: A foto que ilustra a postagem é uma fotomontagem.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: https://www.santosfc.com.br/dia-da-mentira-dia-da-verdade/

Maurinho e a Pegadinha

Maurinho e a Pegadinha

Recentemente, Cafu foi escolhido para compor a seleção dos melhores jogadores da história do futebol mundial pela Revista France Foottball. Certamente, o fato de ter participado de três finais de Copa do Mundo e sido o capitão na conquista de 2002 pesou positivamente, além da bela carreira jogando pelo São Paulo, Palmeiras, Roma e Milan.

O fato é que, apesar de todo esse curriculum, Cafu sempre foi um jogador contestado por alguns, e constar dessa seleção mundial fez com que muitos olhassem meio de lado, lembrando de outros laterais-direito brasileiros que deveriam estar no seu lugar.

Enfim! O torcedor brasileiro sempre se mete em qualquer escalação.

O fato trouxe a lembrança de outro objetado lateral-direito, sendo que este era alvo, especialmente, da torcida do Flamengo. Maurinho jogou na Gávea entre 1997 e 2002, tem 209 jogos e marcou 10 gols com a camisa rubro-negra. Nada disso aplacou a marcação que a torcida do Flamengo sempre teve com ele e que era constante a cada jogo.

O cume se deu em 01.04.2000. Flamengo e Olaria iam se enfrentar pelo Campeonato Carioca. Na entressafra de 1998 para 2002, somente Cafu se mantinha como dono da lateral direita da seleção e era alvo de crítica, mesmo já tendo a autoridade de capitão e várias partidas no curriculum.

A torcida do Flamengo achou de “dar corda” e logo que foi dado o pontapé inicial da partida, uma parte das torcidas organizadas puxou o “ão ão ão, Maurinho é seleção”, e logo o Maracanã inteiro fazia coro. Até os poucos torcedores do Olaria também entraram na brincadeira.

Maurinho, acostumado com a crítica constante vinda dos arquibaldos e dos geraldinos, ficou meio sem acreditar no início e fez um leve aceno para a torcida, como em agradecimento.

Era tudo que a torcida queria. Nem bem o braço do aceno voltou a posição inicial, o incentivo transformou-se em pilhéria e todo o Maracanã se voltou contra o lateral gritando: “il, il, il, primeiro de abril”.

PS: Durante as postagens do mês de abril/2021, a Kolluna irá trazer casos pitorescos relacionados ao “Dia da Mentira” e que ficaram na memória folclórica do torcedor.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2017/04/maurinho-brinca-com-pegadinha-de-1-de-abril-da-torcida-do-fla-fase-boa.html

O time brasileiro no Guiness Book

O time brasileiro no Guiness Book

Em matéria de calendário, o futebol brasileiro nunca foi um primor de organização. Invariavelmente, a tabela original divulgada, até mesmo de competições nacionais, é alterada em razão da participação dos clubes brasileiros em outros torneios, em especial internacionais.

Em 1994, no ano em que a seleção se tornou tetracampeã mundial, o campeonato gaúcho inchou com a presença de 23 (vinte e três) equipes participantes, e cuja duração se deu de 05.03 a 17.12 daquele ano, misturando-se com o Brasileirão que foi jogado de agosto a dezembro, além de Copa do Brasil, Supercopa e Conmebol

Pois bem. Pelo chamado “Gauchão Interminável”, em 11.12.1994, o Grêmio jogou 03 (três) partidas seguidas, no Estádio Olímpico. Às 14h, enfrentou o Aimoré de São Leopoldo e empatou em 0x0. Às 16h, venceu o Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, por 4x3, com gols de Agnaldo Liz, Carlos Miguel, Ayupe e Fabinho, enquanto Paulo Roberto (2) e Áureo descontaram para o SC. E às 18h, finalizou a rodada tripla com vitória sobre o Brasil de Pelotas, por 1x0, gol do atacante Jacques, que havia sido titular na segunda partida e entrou no 2º tempo na terceira.

O tricolor montou uma operação de guerra para esses jogos, concentrando 42 (quarenta e dois) jogadores e utilizando 34 (trinta e quatro) nas 03 (três) partidas, e jogou com as seguintes escalações:

Às 14h - Grêmio 0x0 Aimoré, utilizando a camisa celeste: Murilo; Cristian, Luciano, Éder e Júlio César; Puma, Alexandre e André Muller; Tefo (Juliano), Escurinho e Rodrigo “Gasolina”. Técnico: Zeca Rodrigues (assistente de Felipão).

Às 16h - Grêmio 4×3 Santa Cruz, utilizando a camisa tricolor: Danrlei; Ayupe, Scheidt, Agnaldo Liz e Arílson; Pingo, Jamir, Jé (Émerson) e Carlos Miguel; Fabinho e Jacques (Ciro). Técnico: Zeca Rodrigues.

Às 18h - Grêmio 1×0 Brasil de Pelotas, utilizando a camisa branca: Aílton Cruz; Jairo Santos, César, Cristiano e Duda; André Vieira, Wallace e Émerson (Jacques); Carlinhos, Ciro (Juliano) e Cristiano Júnior. Técnico: Luiz Felipe Scolari.  

O que chamou a atenção, muito mais do que o feito histórico que entrou para o Guinness Book como o único clube do mundo na história que disputou 03 (três) jogos oficiais num mesmo dia, foi que os 270 (duzentos e setenta) minutos em campo de nada valeram, pois o Grêmio já estava eliminado do campeonato, o qual foi vencido pelo rival, o Internacional.

https://www.verminososporfutebol.com.br/viagem-no-tempo/o-inusitado-dia-em-que-o-gremio-disputou-tres-jogos-seguidos-pelo-gauchao/; www.gremiopedia.com; Almanaque da Bola, Canal do Jornalista Celzo Unzelte, no YouTube

Batuquê de Praia

Batuquê de Praia

No Brasil, o futebol e a música sempre andaram lado a lado. O samba e o pagode estão juntos desde sempre. A música tema do Canal 100, de Luiz Bandeira e gravada por Waldir Calmon, era tocada nas reportagens dos jogos de futebol nos anos 60/70/80 e passava nos cinemas antes dos filmes. Não raro, surge a notícia de algum jogador de futebol que acha de se aventurar na música. Há inúmeros exemplos de gravações feitas por jogadores e que poderemos falar em outros posts. Hoje vamos lembrar que Zico, “o Galinho de Quintino”, fez uma ponta num compacto do seu amigo e compadre Fagner que foi gravado entre o Natal e o Ano Novo, no fim de 1982.

Conta o cantor, em sua biografia, que ia gravar as músicas de um compacto simples com Martinho da Vila, mas, na última hora, a gravadora do sambista desautorizou a participação do bamba. Eram duas músicas do compositor Petrúcio Maia, chamadas “Batuquê de praia” e “Cantos do Rio”. Fagner se viu aperreado, pois tinha programado cantar as músicas em dueto e não sabia a quem chamar para substituir o Martinho. Lembrou de Zico, que já conhecia a canção que era tocada e cantada em momentos de lazer, com amigos comuns antes de ser comercializada.

Zico topou, pois achou que no estúdio estariam somente ele e Fagner. Ao chegar lá, viu que a gravação seria com vários sambistas. Então, o “Galinho” travou. Disse para o cantor:

- “Compadre, assim é bronca. Na frente desse povo todo eu não consigo”.

Fagner, escolado, chamou Zico num canto, ofereceu-lhe um coco verde “batizado” com whisky, entregou um canudo e deixou o tempo passar. Duas horas depois, com o Zico alegrinho, a gravação foi feita e ficou bacana, com uma grande alegria no estúdio e os músicos falando um para o outro: Pô, o Zico se amarra numa água de coco!!!

Segue o clipe da música, com Zico na marcação do surdão.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Raimundo Fagner. Quem me levará sou eu” (Regina Echeverria)

O gênio e o "migué" do craque

O gênio e o "migué" do craque

Julinho Botelho é considerado o maior ponta-direita da história do Palmeiras. Também foi craque na Fiorentina/ITA, onde jogou de 1954/58. Conhecido por ser uma pessoa muito honesta, séria, que não era de viver em noitadas e também simples, porém fez uma exigência contratual quando retornou da Itália. Já estava veterano e fez questão que constasse do contrato que não se concentraria para os jogos. Cláusula aceita pela diretoria alviverde, nos dias dos jogos em SP ia direto ao estádio, se era fora, dirigia-se para o embarque.

Com o passar do tempo, Julinho gostava cada vez menos de ir jogar no interior. Na sua condição de ídolo, nome principal numa equipe com os campeões mundiais Djalma Santos e Vavá, tinha o beneplácito da diretoria e o aceite do treinador Ephigênio de Freitas Bahiense, o “Geninho”, que foi jogador do Botafogo/RJ de 1940 a 1954 e era conhecido como “o arquiteto”.

Na quarta-feira, o Palmeiras teria um jogo em São José do Rio Preto e, no domingo, o derby com o Corinthians. Julinho chegou para Geninho e reclamou um desconforto muscular para não ter que viajar ao interior. O treinador poupou o craque e lançou seu substituto natural, o Gildo, que foi o melhor jogador em campo na quarta e o time venceu por 3x0.

No domingo, no vestiário do “Verdão”, no Pacaembu, o roupeiro deixou na bancada as 11 (onze) chuteiras, meiões e calções.  As camisas seriam distribuídas pelo treinador. Julinho, como sempre, chegou primeiro, vestiu a roupa e começou seu aquecimento. Quando a delegação chegou, Geninho viu a cena e lhe veio a dúvida: como não escalar o cara que foi o melhor jogador na partida anterior?

Pensou em retirar ponta-esquerda Nilo, recém-chegado, deslocando o Gildo para aquele flanco, mas o Nilo também tinha acabado com o jogo. Então a genialidade do gênio Geninho.

- E aí Júlio! Tá bem? Melhorou da contusão?

- Melhorei. Está tudo bem. Estou 80%. Dá para jogar.

- Ah não! Se está 80% deixa. É clássico. Joga o garoto que está 100%.

E o Julinho, craque do time, aceitou, sem problemas.

Uma cena destas nos tempos presentes seria incomum, até para quem não é considerado craque, mas se acha dono da posição.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Divino: a vida e a arte de Ademir da Guia” (Kleber Mazziero de Souza)

A bola fora de Graciliano Ramos

A bola fora de Graciliano Ramos

Desde sempre que os periodistas de jornal escrito - hoje colunistas de blogs ou jornais on line - dão seus palpites sobre as mais variadas situações e lançam previsões sobre o futuro do país.

Lá pelo início do século XX não era diferente. O futebol ainda era uma realidade oscilante. Inúmeros clubes já haviam sido fundados e os campeonatos eram frequentes, embora ainda de forma amadora e com um olhar preconceituoso por parte da sociedade. A década de 20 foi o período de transição do amadorismo absoluto para o profissionalismo dos atletas de futebol.

Como revelou Nelson Motta, “os domingos eram destinados às regatas na enseada de Botafogo, o esporte mais popular da época, enquanto o futebol começava como esporte inglês de playboys e mauricinhos”. 

E foi com esse olhar atravessado para o chamado esporte bretão que o escritor Graciliano Ramos defendeu, ao assinar crônica em 1921, que o futebol era moda passageira e ele não acreditava que o brasileiro se apegasse àquele jogo. Creditou a personalidade bronca do brasileiro a sua descrença.

“Mas por que o football?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis, ou não”.

Na mesma crônica, o escritor patriota vaticinou que o ‘football’, o turfe e o boxe, como estrangeirices, não teriam maior prazo de validade e, em nome da cultura brasileira, pediu aos jovens que resgatassem atividades nacionais que andavam esquecidas naquele tempo como a queda de braço e a rasteira.

É bem verdade que somente ao sermos anfitriões da Copa de 1950, o futebol passou a ser ligado ao estilo brasileiro, aliando-se ao carnaval e ao samba e fazendo a trilogia do gosto nacional.

Porém, exatamente um século depois, ao ser o Brasil o berço do maior jogador de futebol de todos os tempos, de ser cinco vezes campeão mundial e conhecido mundialmente como “o país do futebol”, não há como deixar de considerar a antevisão do célebre autor de “Vidas Secas” uma grande ironia.

Perdeu a queda de braço e ainda levou uma rasteira do futebol.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch); “De Cu pra Lua: Dramas, Comédias e Mistérios de Um Rapaz de Sorte” (Nelson Motta); http://graciliano.com.br/site/2013/01/a-rasteira-de-graciliano-ramos-no-futebol/  

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