Blog do Kolluna

13/02/2020 07:34

1974: O drama do seletivo que dividiu a cidade

1974: O drama do seletivo que dividiu a cidade

Em 1974, Natal estava, ainda, em lua de mel com o Castelão.  O América vinha de uma excelente participação no Nacional/1973. O ABC chegando da fantástica excursão à Europa/Ásia/África.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) acenou para a possibilidade de o Estado ter dois representantes no Nacional/1974. Os clubes fizeram investimentos, reforçaram seus plantéis, se preparavam para a batalha, que é disputar um campeonato nacional, quando a CBD voltou atrás propondo um seletivo, com uma melhor de três e o vencedor representaria o RN.

A marcha ré da CBD provocou uma revolta nas duas equipes.  As diretorias passaram a questionar aquela decisão junto a Federação Norte-rio-grandense de Desportos (FND), porta-voz da CBD.

O ABC, de forma mais incisiva, cobrou de João Machado e de Humberto Nesi, então presidente e vice da FND, a palavra que lhes foi dada em nome de João Havelange, presidente da CBD, de que o representante potiguar seria o campeão/1973. Os mandatários da FND, visivelmente constrangidos, foram ao Rio de Janeiro buscar uma solução nem que fosse salomônica, mas nada conseguiram.

A decisão estava tomada pela cúpula da cartolagem nacional e nada restaria aos dirigentes do futebol potiguar, senão acatar a proposição cruel da “melhor de três”.

Com ABC e América recém inseridos no contexto nacional, amizades construídas numa Natal ainda provinciana, repleta de nativos e com pouquíssimos oriundos de outros Estados, começavam a desmoronar em razão da paixão nacional: o futebol.

Bira Rocha, integrante da Junta Governativa do ABC, disse que a partir de então João Machado seria para ele um “inimigo cordial”.

Não havia mais volta. Decidido que a escolha do representante do RN seria por meio do seletivo. Sobre os ombros dos jogadores dos dois times, foi colocado o peso do mundo. Eles decidiriam. Como para todo ponto, tem um contraponto, uma torcida ia sorrir, a outra ia chorar. 

Na primeira partida, um insosso 0x0 garantiu que haveria mais dois jogos para definir o classificado. No segundo jogo, o América foi o senhor do espetáculo e começou a mostrar que um jogador estava em estado de graça: Washington. O resultado do jogo deixou a torcida alvinegra, então senhora do Castelão, desconfiada: 3x1 para o América.

Chegava o dia da decisão. O América jogando por um empate. O ABC tinha de vencer no tempo normal, para levar a partida à prorrogação. Se houvesse tempo extra, quem vencesse seria o classificado. Se fosse empate a vaga seria decidida nos pênaltis.

Um público superior a trinta mil pessoas se entusiasmava na geral, arquibancadas, numeradas e especiais do estádio. Nem mesmo as cabines de rádio poderiam ser consideradas como um espaço neutro. Os locutores denunciavam suas preferências cromáticas por meio de comentários mais entusiasmados ou com pitadas de veneno e acidez em suas frases.

Já as torcidas, bem, a festa inicial deu lugar ao nervosismo comum às decisões.

Com a bola rolando, Alberi abriu o placar, de pênalti, aos 8 minutos de jogo. O time alvinegro parecia mais coeso e disposto a dar o troco. Mas o predestinado Washington encontrou espaço entre a zaga e deixou mais uma vez a sua marca, empatando a partida ainda no primeiro tempo.

Na volta da segunda etapa, o lateral Anchieta deixou o ABC, mais uma vez, em vantagem, placar que perdurou até a etapa final.

A prorrogação iria decidir o destino das equipes. As torcidas já não estavam tão festivas assim. O ar de preocupação ronda os espaços destinados a “frasqueira” e a “galera”. As charangas, quase mudas, mal conseguem disfarçar os sons espremidos dos torcedores. O murmúrio dos terços, contados na mão do povo, é quase surdo.

O ABC vinha da excursão. O preparo físico não era o mesmo. Os americanos tinham um time jovem e cumpriram à risca a orientação do matreiro treinador Leônidas, que fez valer o preparo físico. Já nos minutos iniciais do tempo extra, dá mostras de otimismo ao seu torcedor. Aos 8 minutos, Ronaldinho cobrou um escanteio “de mangas curtas” para Ivan Silva que cruza aberto para a entrada da área, encontrando Davi que vinha na corrida e reeditou a parábola bíblica, derrubando o então gigante da Lagoa Nova e colocando de cabeça no fundo do gol do ABC.

Um time recheado de pratas da casa dava ao América a primeira grande alegria no novo estádio e a vaga para o campeonato nacional de 1974, há 46 anos.

Ilustrando a postagem, Washington, uma das peças fundamentais para o América conquistar a vaga naquela “guerra” que foi o seletivo.

 

FICHA TÉCNICA:

AMÉRICA 1x2 ABC (tempo normal)

AMÉRICA 1x0 ABC (prorrogação)

Data: 13.02.1974

Local: Castelão

Público: 31.250 pessoas

Renda: Cr$ 184.182,00 (cento e oitenta e quatro mil, cento e oitenta e dois cruzeiros)

Árbitro: Valquir Pimentel/RJ

Auxiliares: Luiz Meireles/RN e Afrânio Messias/RN. 

Gols: Alberi (8 min.) e Anchieta (50 min.) (ABC) e Washington (27 min.) (AME) (tempo normal); Davi (98 min.) (AME) (prorrogação).

AMÉRICA: Ubirajara; Ivan, Scala, Mario Braga e Cosme; Afonsinho e Romualdo; Davi, Washington (Ronaldinho), João Daniel e Gilson Porto (Santa Cruz). Técnico: Sebastião Leônidas.

04/02/2020 07:26

Futebol x Automobilismo no Brasil

Futebol x Automobilismo no Brasil

Com a confirmação da chegada do jogador japonês Honda para o Botafogo, a coluna lembra que a ligação entre o futebol e o automobilismo no país é mais comum do que se pode imaginar.

Engana-se quem pensa que o Honda será o primeiro “Fórmula 1” a envergar a camisa de um time brasileiro e a jogar em gramados nacionais. O Flamengo teve um esforçado volante na equipe campeã brasileira de 2009: Williams. Lá no início dos anos 90, o Santos teve um centroavante que foi artilheiro do Campeonato Brasileiro/1991 e conhecido como Paulinho “McLaren”.

Forçando a barra em relação a F1, embora não seja jogador, mas agora temos uma equipe Red Bull também na primeira divisão do futebol brasileiro.

Saindo da Formula 1, mas ainda relacionado ao automobilismo, vamos ainda mais distante para trazer a lembrança do folclórico zagueiro Beto “Fuscão”, que jogou no Grêmio e Palmeiras e chegou a disputar 08 (oito) jogos pela seleção brasileira, entre 1976 e 1977. Na mesma época, o também zagueiro Luis Pereira (Palmeiras e Seleção Brasileira) era chamado por parte da imprensa esportiva por Luis “Chevrolet”, em face a sua velocidade e poder de recuperação.

Menos famoso que os demais, mas que também flutuou no futebol paulista nos anos 70 foi o ponta João Carlos “Motoca”, companheiro de Sócrates no Botafogo de Ribeirão Preto (não é automobilismo, mas cabe pelo ineditismo do apelido). 

Portanto, essa relação tão próxima entre nomes de escuderias, fabricantes de motores, marcas famosas de carros e jogadores de futebol mostra como os dois esportes possuem uma relação como paixões nacionais que são e têm Pelé e Ayrton Senna como ídolos e ícones no Brasil e no mundo.

28/01/2020 09:07

A primeira Copa Pelé de Masters

A primeira Copa Pelé de Masters

Em maio/1984, o narrador esportivo Luciano do Valle começou a reunir craques de futebol aposentados numa seleção a realizar amistosos pelo Brasil. Teve o apoio da TV Bandeirantes, onde ele apresentava o programa “Show do Esporte” e que ocupava todo o domingo com as mais variadas modalidades. O Brasil inteiro “comprou” a ideia de assistir os velhos craques em ação, num momento em que a seleção principal estava em renovação e não proporcionava as alegrias que o povo brasileiro se acostumou a ter com o futebol. 

A seleção de craques (denominação inicial), depois chamada de seleção de seniors e por último de masters, esteve em Natal em maio/1986 e venceu o selecionado potiguar por 2x0.

Então, a fantasia do locutor transformou-se numa ousadia: reunir ex-jogadores de futebol dos cinco países então campeões do mundo e realizar a 1º Mundialito de Futebol Masters (Copa Pelé).

De 04 a 18 de janeiro de 1987, Brasil, Argentina, Uruguai, Itália e Alemanha Ocidental estavam representados por seus craques do passado, reunidos em São Paulo e Santos para jogar no Pacaembu e na Vila Belmiro, num torneio em que se enfrentariam em chave única e os dois melhores classificados fariam a final (resultados abaixo).

Pelé, então com 46 anos e que deu nome ao evento, participou da vitória inaugural contra a Itália e ensaiou uma bicicleta (foto da postagem), para delírio dos presentes e que fizeram coro do seu nome.

Após a fase preliminar, brasileiros e argentinos fizeram a finalíssima, com vitória dos hermanos por 1x0, gol do ponta-esquerda carequinha Oscar Más. 

Desfilaram sua categoria naquela Copa os seguintes talentos:

ALEMANHA OCIDENTAL: Kleff, Weber, Breitner, Fischer, Hölzenbein;

ARGENTINA: Buticce, Brindisi, Babington e Más;

ITALIA: Albertosi, Cuccureddu, Fachetti, Bonisegna, Altaffini Mazzola;

URUGUAI: Corbo, Ramon Silva, Yanes;

BRASIL: Goleiros: Ado e Renato; Laterais: Toninho “Baiano”, Eurico, Marco Antônio, Gilberto “Sorriso”; Zagueiros: Alfredo “Mostarda”, Djalma Dias; Meias: Clodoaldo, Teodoro, Chicão, Carpegianni, Rivelino, Dicá e Pelé; Atacantes: Cafuringa, Gil, Lola, Jairzinho, Dario, Edu e Romeu.

 

JOGOS

JOGO

DATA

SELEÇÃO 1

PLACAR

SELEÇÃO 2

01

04.01.1987

Brasil

3 x 0

Itália

02

04.01.1987

Alem. Ocidental

1 x 1

Argentina

03

07.01.1987

Brasil

0 x 0

Uruguai

04

07.01.1987

Alem. Ocidental

2 x 1

Itália

05

11.01.1987

Uruguai

2 x 1

Itália

06

11.01.1987

Argentina

3 x 1

Brasil

07

13.01.1987

Itália

2 x 1

Argentina

08

14.01.1987

Uruguai

2 x 0

Alem Ocidental

09

16.01.1987

Argentina

4 x 0

Uruguai

10

16.01.1987

Brasil

2 x 1

Alem. Ocidental

11

18.01.1987

Argentina

1 x 0

Brasil

 

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: Revista Placar, edição de janeiro/1987.

21/01/2020 07:13

João Avelino versus Siderley Toscano

João Avelino versus Siderley Toscano

Diante da briga tola ocorrida nas coxias e nas redes sociais esta semana em que os mais antigos e tradicionais times da Capital se digladiaram por conta de um Rato, lembrei como o nosso futebol é pródigo em histórias de brigas e discussões em campo e fora dele em bastidores nunca imaginados, podendo ser editado um compêndio de episódios, uns mais graves, outros até mesmo burlescos.

No retorno pós-recesso, após vinte e cinco dias ausente do Portal, o blog traz uma interessante passagem ocorrida no ano de 1976.

O Potyguar de Currais Novos foi o primeiro representante do futebol seridoense no campeonato potiguar na nova era do chamado esporte bretão após a inauguração do Castelão, em 1972. 

Iniciado o Estadual, o ABC FC estava invicto no primeiro turno com três vitórias e foi jogar em Currais Novos. A delegação ficou hospedada no Hotel Tungstênio, no centro da cidade. O treinador do alvinegro era João Avelino, baixinho matreiro, esperto e bom malandro. Pensando em jogar pressão na equipe neófita na competição, assim que desceu do ônibus tratou de reclamar das instalações do hotel. Os apartamentos eram divididos entre quatro ou cinco atletas e não havia camas para todos, sendo disponibilizadas redes. O reclamo não deu em nada e azedou a relação entre a direção do hotel e a delegação.

Mais tarde, na hora da refeição, Avelino tornou a tecer críticas desta feita ao cardápio, reclamando de um picadinho que seria servido. A administração do hotel recorreu a Siderley Toscano, empresário das comunicações e diretor de futebol do Potyguar, que foi pessoalmente ao local, mostrando ao treinador do ABC que a refeição estava conforme solicitada pelo médico do clube, Dr. Eriberto Rocha.

O treinador disse que não queria falar com dirigente, mas com o cozinheiro, provocando Siderley dizendo que “cartola não entende de comida”. Insistiu na discussão, subiu o tom de voz e apontou o dedo para o rosto do dirigente adversário que, de pronto, afastou o dedo com uma mão e acertou um soco na face do treinador, fechando o tempo na recepção do hotel e exigindo que outras pessoas dos dois clubes interviessem para evitar que os dois se engalfinhassem e alguém virasse picadinho.

No fim do campeonato, João Avelino ganhou o título do Estadual, mas sua malandragem não evitou sair de Currais Novos com o carimbo de uma mão fechada no rosto.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: Diário de Natal

28/12/2019 06:28

Paulo Cunha: atleta, professor e educador esportivo

Paulo Cunha: atleta, professor e educador esportivo

Fim de tarde de uma terça-feira. Paulo Cunha me recebe em sua residência. Em meio a livros, fotos, medalhas, diplomas que contam a sua história, inicia-se uma conversa mágica num local onde se respira basquete. Na companhia dos dois filhos gêmeos e de um dos cinco netos que brinca com uma bola, decerto, Paulo, no auge dos seus 83 anos, demonstra uma impressionante lembrança de momentos, locais e datas. 

Um tempo mágico que conta a história de um atleta potiguar extraordinário e que se tornou um formador de jovens, sem discriminação ou privilégio de classe ou origem, pelo esporte.

O tempo de Paulo Cunha se perpetua, indefinidamente. Teria alguma razão o fato de ter escolhido do basquete a sua vida? Talvez, afinal, no basquete, o cronômetro para se não há jogo, tendo ele encontrado, no basquete, um jeito infantil de ser feliz.  

O tempo apresenta histórias curiosas. Como todo bom brasileiro, despertou para o esporte por meio do futebol na época do Colégio Salesiano. “Louco por futebol”, como ele se definiu, foi goleiro e zagueiro, jogando no juvenil do América onde foi vice-campeão e ouviu uma piada no vestiário de que “jogador grande não sabe jogar de zagueiro”. Chateou-se e deixou o clube. Ney Andrade lhe levou para jogar no ABC, onde foi campeão. Num treino, chegou às vias de fato com Jorginho, “monstro sagrado” do clube, após aplicar “um traço” no ídolo, que não gostou.

Simpatizou com o ciclismo, tendo construído suas duas primeiras bicicletas e montou um grêmio onde vários amigos pedalavam juntos pelas redondezas da cidade. Em 1952, foi para o Centro Náutico Potengi, onde teve uma temporada inteira de vitórias. Diz que o remo lhe educou para o esporte, num ambiente fantástico em que o condicionamento físico tinha de estar em alta.

Em novembro/1955, foi apresentado a bola ao cesto quando estava no Exército. O capitão disse-lhe que ele era muito musculoso, não vingaria no esporte. Em 1956, Paulo largou o remo e passou a se dedicar para provar ao capitão que jogaria basquete.  Comprou uma coleção de quatro volumes sobre o esporte em espanhol para estudar e treinar fundamento, diariamente. Fez sua estreia pela AABB, foi eleito à revelação do ano e convocado para a seleção do RN. Tudo ao mesmo tempo agora no ano que decidiu ser jogador de basquete e calar o capitão.

A partir daí, o anônimo virou ídolo. Sua história no basquete é lendária. Pela AABB foram 14 campeonatos estaduais e 13 títulos. Venceu 3 campeonatos Norte-Nordeste. Foi campeão estadual por 7 vezes pela AABB no decacampeonato (1953/1962). Em 1958, foi o cestinha do Estadual e, atuando pela seleção do RN, 5º lugar no Brasileiro, 1º do Nordeste e vice-campeão de lances livres, cabendo o 1º lugar a outro potiguar, Nilo Machado. No Brasileiro/1961, em Fortaleza, o RN foi 4º lugar e Paulo Cunha fez 128 pontos, sendo o 2º cestinha atrás apenas do paulista Renê Salomon e isso foi a sua porta de entrada para a Seleção Brasileira, onde venceu o Torneio Sesquicentenário do Paraguai (Assunção) e o Sul-americano de 1961 ao lado de Wlamir Marques, Amauri, “Rosa Branca” e outros.

Tornou-se amigo do paulista “Rosa Branca” e do cearense Benjamin, seus parceiros durante os dois meses de treinamentos na seleção, em Niterói. Ao voltar, com novo estilo de jogo, saindo do garrafão para receber a bola, os amigos daqui reclamaram que a seleção havia “acabado com Paulo Cunha”, diz entre risos. 

Se um dia, o cronista Armando Nogueira definiu, metaforicamente, a “Magic” Paula em quadra como uma “cesta de mil hortênsias perfumadas”, porque não dizer que Paulo Cunha é a “pureza de um cesto de rosas-brancas”? 

Em 1962, recebeu violenta carga elétrica no vestiário, em Franca/SP, que comprometeu seu braço e, consequentemente, o desempenho num momento em que estava “voando”. Um choque que se tornou sua única frustração no basquete.

Foi o primeiro atleta do Estado a cravar (enterrar) a bola na cesta, mas embora tivesse um “jump” privilegiado, a sua jogada capital e que tem a sua assinatura é o famoso “gancho de Paulo Cunha”, uma jogada difícil que ele aperfeiçoou com muito treinamento, fazendo tanto com a mão direita, como a esquerda.

Ao jogar com os melhores jogadores brasileiros de basquete de sua geração, Paulo Cunha não deixa de citar seus principais parceiros potiguares: Roberto Siqueira, Fernando “Mosquito” Delgado, Fernando “Nando” Guerreiro e Luiz Jorge Leal, além de Gualter Câmara, para ele, o maior reboteiro que viu jogar e que lhe serviu de inspiração.

Paulo é um saudosista. Nota-se um carinho com as pessoas, em especial aqueles que já não estão mais entre nós, muitos deles seus companheiros de basquete. Entre eles, José Augusto Bezerra de Medeiros Sobrinho, o “Seu Zé”, seu treinador; Décio Holanda, de quem foi o primeiro assistente técnico na seleção feminina do RN; de Quincas, seu companheiro no último título estadual, pela AABB em 1977.

Paulo Cunha foi escolhido pela crônica esportiva potiguar para compor o time de basquete da AABB de todos os tempos, junto com Moacir, Nilo Machado, Quincas e Roberto Cavalcante (Bebeto), mas ele acha injusta a escolha de seleções gerais de um tempo. Acha que deveria ser de dez em dez anos. Refletiria mais justeza e homenagearia quem merecesse. Lamenta a ausência de Roberto Siqueira no time.

Ok, Paulo! Vamos recompor o quinteto com quem você achar que deve ser o time de todos os tempos. Paulo Cunha é o sexto, o sexto sentido de uma bola de basquete. 

Implantou o basquete com cadeira de rodas em Natal com a ajuda do Dr Roberto Vital, a fim de entender a biologia dos atletas.  Vê-se em Paulo Cunha o orgulho quando ele fala nos seus alunos e de ter montado a escola de minibasquete, em 1972, com tabelas menores. Estudou a forma de correr de Emil Zatopek, a “locomotiva humana”, para treinar a coordenação motora de seus alunos, que também eram ensinados a correr batendo a bola ora com uma mão, ora com a outra. Cada aluno tinha um livreto com as regras do basquete, estimulava competições de lances livres e torneios de garrafão, além de determinar que cada um tivesse o seu próprio apito para aprender a serem árbitros.

O tempo de Paulo Cunha ousa divergir da máxima difundida por Nelson Rodrigues de que “a unanimidade é burra”. Seus amigos, parceiros ou adversários em quadra, alunos, o tem como referência e reconhecem o esforço e o sacrifício dele como jogador ou orientador de basquete, sua disciplina tática, seu desempenho sempre no limite e a sua postura exemplar, dentro e fora da quadra, pessoal e profissionalmente.

Indagado se o basquete foi tudo para ele, sua resposta fala por si: “O basquete me proporcionou conhecer quase todo o Brasil. Conheci muita gente, fiz muitos amigos. Eduquei-me através do basquete e ajudei a educar gerações pelo esporte”.

Hoje, Paulo Cunha vive sua vida modesta, cuidando da esposa acometida de mal de Alzeihmer e que foi a grande companheira ao longo de sua vida esportiva. Tem orgulho dos filhos, todos eles o seguiram no esporte. As suas filhas, Ilma e Paula, também jogaram basquete, com Ilma hoje morando nos EUA. Rildo José ainda hoje joga pelo Masters, e Paulo diz que José Rildo tinha tudo para ser um grande jogador, se quisesse.

Aposentado da Companhia de Serviços Elétricos do Rio Grande do Norte, não fez da bola um meio de vida, pois a bola de basquete para ele sempre será fantasia. Paulo, o apóstolo que teve a visão e foi mensageiro do esporte, cunhou, com uma bola de basquete, os meninos de sua escolinha a ter uma formação esportiva, humana e ética, e hoje, toda essa turma tem com ele a gratidão do aluno para o mestre, do educando para o educador, do pupilo para orientador, de admirador para o ídolo.

Na última postagem do ano, a homenagem do Blog do Kolluna a uma memória viva do esporte potiguar, citando a frase de outro monstro da bola ao cesto, o “alemãozinho” Wlamir Marques, colega de Paulo Cunha na seleção brasileira, que ao descerrar a placa de inauguração do ginásio que leva o seu nome em sua cidade natal, no Clube Tumiarú, em São Vicente/SP, disse: “Quando você é homenageado em vida, ninguém chora por você, você mesmo chora”.  

Sua benção, Paulo Cunha!!!

21/12/2019 09:48

Mundial de Clubes/1981: Peu e o bigode no Japão

Mundial de Clubes/1981: Peu e o bigode no Japão

Dia de decisão do Mundial de Clubes em 2019. O Flamengo volta a campo 38 anos depois para decidir o título contra o mesmo Liverpool, em 1981.

E quando se vai falar no Flamengo de 1981, não há como dissociar das folclóricas histórias relacionadas com o atacante “Peu”. Júlio dos Santos Ângelo destacou-se como artilheiro pelo CSA, de Alagoas, chamando a atenção do Flamengo que o trouxe para a campanha de 1981 no Estadual, Brasileirão, Libertadores e Mundial de Clubes. Este mesmo “Peu” foi técnico do Força e Luz, no campeonato potiguar/2019, e agora está adotando, também, o Santos como sobrenome.

O jornalista Eduardo Monsanto, autor de “1981: o ano rubro-negro”, conta diversas passagens interessantes do bom goleador alagoano e das tantas brincadeiras que foi alvo dos seus colegas.

Diz o livro que no dia de sua apresentação ao elenco do Flamengo, Peu chegou a Gávea de sapato branco, calça amarela, cinto preto e camisa rosa, empunhando uma mala de couro. Quando a diretoria ia apresentá-lo, o ponta-direita Luis Fumanchu pediu a palavra: “Peraí, deixa que eu apresento... Pessoal, esse aqui é o Zé Bonitinho!”, em alusão o personagem do humorista Jorge Loredo, no programa “A praça é nossa”.

Mas a melhor história de Peu é a do seu bigode e a chegada no Japão para a disputa da final do Mundial Interclubes/1981, e ele mesmo conta:

Durante o voo o Júnior falou: “Ó, você vai ter problema para entrar no Japão. Por quê? Porque no passaporte você está sem bigode, e agora você está usando bigode. Vai dar problema, não vão deixar você entrar!”.

Quando já estava quase chegando ao Japão, veio o anúncio: “jogador Peu, compareça à cabine do avião”. 

“Quando eu chego na cabine, o comandante falou pra mim todo sério: ‘Olha, Peu, você tem que tirar seu bigode porque o seu nome não tá na lista de quem tem bigode. Ou você tira ou você volta comigo’”.

Então Peu falou: “Pô, fiquei o ano todinho batalhando, treinando tanto e agora, na hora boa, eu vou estar fora, é?”.

O comandante falou: “Toma aqui, Peu. Barbeador, cremezinho, vá ao banheiro e tire. Senão, você chega lá e volta”.

“Aí eu saí de lá todo triste, cabisbaixo, entrei no banheiro tirei o bigode. Aí, quando eu abri a porta, tava todo mundo me esperando. Rede Globo, os fotógrafos de O Globo, O Dia, os jogadores. Os caras fizeram a festa. Armaram legal, eu caí e tirei o meu bigode!”.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “1981: o ano rubro-negro (Eduardo Monsanto)

*O conteúdo deste blog não representa necessariamente a opinião do portal.