Blog do Kolluna

O voo cego do condor

O voo cego do condor

“El Condor”. Assim era chamado o goleiro chileno Roberto Rojas, por sua impressionante agilidade para pegar as bolas mais altas. Nas eliminatórias para a Copa de 1990, em partida realizada no Maracanã, Rojas, como um dos líderes da equipe, havia negociado com ao presidente da Federação Chilena de Futebol um prêmio pomposo em caso de uma vitória, pois Brasil e Chile estavam empatados na mesma chave e na luta para passar de fase (o sistema era diferente do atual).

Rojas combinou com o zagueiro Fernando Astengo de evitar o término da partida se o Chile estivesse perdendo. Então, percebeu que um sinalizador da Marinha lançado da arquibancada foi jogado em sua direção e queimava perto de si. Deu dois passos para trás e caiu com a mão no rosto como se tivesse sido atingido. Retirou das luvas uma lâmina de estilete e cortou o supercílio, com o sangue sendo aparente. O médico chileno ao chegar empapuçou o rosto do jogador de mercúrio cromo, aumentando a tensão visual. Os jogadores chilenos carregaram o goleiro para o vestiário e não voltaram mais.

Horas depois, imagens do fotógrafo argentino Ricardo Alfieri (El Gráfico) que estava atrás do gol de Rojas comprovaram que o sinalizador não tinha lhe atingido, além do goleiro mexendo na luva esquerda onde, supostamente, estava a lâmina, usada para o corte no rosto.

Com a farsa, o Chile foi punido com quatro anos de suspensão, ficando de fora, também, das eliminatórias da Copa/1994. Rojas foi banido do futebol como atleta, voltando a trabalhar como preparador de goleiros, em 1994, no São Paulo, clube que defendia na época do episódio. Em 2001, a FIFA lhe anistiou.

Créditos de informações e imagens para criação do texto: Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1  (Paulo Guilherme).

A expulsão revertida de Pelé. Mito ou realidade?

A expulsão revertida de Pelé. Mito ou realidade?

A história do futebol mundial é cheia de fantasia, em especial quando o personagem é um ícone, e mais ainda, quando se trata do “Rei do Futebol”. Uma história sempre relembrada é a expulsão de Pelé ocorrida em partida amistosa, mas que a torcida fez o árbitro voltar atrás. Lenda ou verdade?

Em 1968, o Santos de Pelé enfrentou a seleção olímpica colombiana, no estádio El Campin, em Bogotá. Jogo duro em 2x2 ainda no primeiro tempo. Pelé entra na área adversária e tenta cavar um pênalti. O árbitro local Guilherme Velásquez manda seguir o lance e o jogador sai gesticulando e direcionando os maiores e impublicáveis impropérios, o que levou a autoridade máxima a mandar o bicampeão mundial para o chuveiro mais cedo.

Como reza o folclore potiguar, “armou-se o CDB na área”, com os jogadores santistas partindo para cima do árbitro, tendo os atletas Oberdã e Turcão ido às vias de fato acertando socos no rosto e pontapés na autoridade e obrigando o trio a se refugiar no vestiário. Enquanto isso, 55 mil pessoas ecoavam um só nome: Pelé!!!

A agressão, inclusive, fez com que o árbitro oferecesse denúncia ao Judiciário colombiano, que expediu liminar impedindo que a delegação santista deixasse o país e só autorizando após quatro horas de espera e um pedido público de desculpas da delegação.

Tudo isso é a pura verdade. Já o episódio de que o público exigiu o retorno do jogador e que fosse esquecida a expulsão, isso entra no campo na fantasia.

Pelé voltou para jogar, mas não foi a torcida que exigiu, mas sim o empresário Antonio Patiño Binazco, que havia levado o Santos à Colômbia e depositara, na conta do clube santista, 15 mil dólares.

O empresário e um dirigente da Federação Colombiana de Futebol foram ao vestiário, retiraram de Velásquez a autoridade de condutor da partida e o substituíram pelo bandeirinha Omar Delgado, que “esqueceu” a expulsão de Pelé. Para o lugar do bandeira, improvisaram um substituto, o chileno Mário Ceneza, que assistia o jogo como convidado.

Fim de jogo: Santos 4x2 Seleção Olímpica da Colômbia com gols de Toninho (2), Pelé e Pepe para a equipe brasileira e Arango e Gonzaléz, para a seleção colombiana.    

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: Guia Politicamente Incorreto do Futebol (Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior); http://acervosantista.com.br/?p=25246; Jornal do Brasil de 17.07.1968, pág. 19.

A 1a fotografia colorida de um clube de futebol publicada em jornal no Brasil

A 1a fotografia colorida de um clube de futebol publicada em jornal no Brasil

No início dos anos 50, poucos jornais existiam no país. Os grandes jornais brasileiros eram editados no Rio de Janeiro. O maior deles era o Correio da Manhã, poderoso feudo de Paulo Bittencourt, seguido do Diário de Notícias, fundado pelo potiguar Orlando Vilar Ribeiro Dantas. Para a massa popular a imprensa era algo inacessível. A expressão “Saiu no jornal” era dita num tom de quem conta uma verdade incontestável. Em junho de 1951, Samuel Wainer lança Última Hora e fura o restrito clube de imprensa de famílias eleitas.

Nesse ano foi realizado o segundo campeonato carioca de futebol na era Maracanã. O Fluminense não era campeão desde 1946. O treinador Zezé Moreira era conhecido como retranqueiro. O tricolor tinha um time com Castilho, Pinheiro, Didi e Telê. As vitórias foram se sucedendo por 1x0, os adversários começaram a chamar o time de “timinho” e Última Hora assim passou a denominar o Flu em suas páginas esportivas.

Sendo o Fluminense o campeão carioca de 1951 após vencer o Bangu, Carlos Nicolaievsky, chefe de gravura do jornal de Samuel Wainer, chama o patrão e diz:

- Vamos publicar a foto do time do Fluminense em cores?

Samuel retruca:

- Impossível!

E Carlos sentencia:

- É possível, sim. Nosso equipamento é capaz de imprimir uma foto com até quatro cores.

Com o sinal verde de Samuel Wainer, o jornal Última Hora, pela primeira vez na história da imprensa brasileira, publicou a foto colorida de um time de futebol.

A edição, claro, esgotou-se, rapidamente.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: Minha Razão de Viver (Memórias de um repórter) – Samuel Wainer

O complô contra "João do Pulo"

O complô contra "João do Pulo"

João Carlos de Oliveira, o “João do Pulo”, um ex lavador de carros, chegou em Montreal/1976 como o maior destaque da delegação brasileira e favorito na prova de salto triplo como recordista mundial com a marca 17,89 metros conquistada no Pan-Americano do México, em 1975.

Foi traído pelos nervos e sequer conseguiu ultrapassar a marca dos 16,90. Ficou com o bronze, enquanto a prata foi do americano James Butts e o ouro para o russo Viktor Saneyev, que conquistou o tricampeonato olímpico.

Em Moscou/1980, chegou mais confiante e seguro. Na prova, por alguma razão, começou a desconfiar que não queriam que ele tivesse uma boa performance. Das onze tentativas, oito tinham sido invalidadas sob o argumento de que o brasileiro havia pisado no sarrafo. “Queimar” o salto é comum, mas não tantas vezes numa mesma competição e com um atleta experiente.

No décimo-segundo salto, João enquanto “voava” em direção à caixa de areia, sabia que o salto era válido. Ao concluir o salto, tinha a certeza de que estava a mais de dezoito metros da linha inicial que lhe daria a medalha de ouro naqueles Jogos Olímpicos de Moscou, além de um novo recorde mundial.

Todavia, mais uma vez os juízes levantaram a bandeira vermelha invalidando o salto. “João do Pulo” não acreditava. Das nove tentativas, somente três foram consideradas e a marca de 17,22 metros foi suficiente apenas para o bronze. “João do Pulo” fora roubado.

O que era desconfiança se confirmou quase vinte anos depois, quando o jornal australiano Sidney Morning Herald publicou uma versão lamentável e esclarecedora do que havia acontecido em Moscou, naquele 25.07.1980.

Os saltos anulados de João faziam parte de uma trama arquitetada para dar o tetracampeonato ao russo Viktor Saneyev. Para a surpresa geral, o plano não tinha sido armado por nenhum comunista, mas o presidente do Comitê Olímpico Internacional, o irlandês Lord Killanin.

Durante a abertura dos Jogos de Moscou, Saneyev adentrou o Estádio Lênin com a tocha olímpica e a entregou a Sasha Belov, ídolo do basquete, que acendeu a pira. A marca esportiva japonesa Mizuno havia patrocinado os três mil atletas que tinham transportado a tocha da Grécia até Moscou, mas justamente na hora em que todas as TVs do mundo transmitiam a cerimônia, os dois ídolos soviéticos estavam calçando Adidas. Os japoneses exigiram uma reparação.

O presidente do COI convenceu o alemão Horst Bassler, fundador da Adidas de que a empresa havia furado a promoção da Mizuno e a concordar com a possibilidade de os juízes ajudarem o soviético a ganhar o ouro pela quarta vez consecutiva calçando a marca japonesa. Com a vitória a Mizuno faria publicidade com a imagem do campeão e o episódio da abertura ficaria superado.

Quando a ordem foi repassada para ser operacionalizada, Saneyev não gostou e criou problemas, mas, no sistema soviético da época não dava para ter vontade própria. Foi para a pista desgostoso, perdeu o foco e quem se deu bem foi o compatriota Jaak Udmae, que ficou com o ouro, enquanto Viktor foi prata com o calçado clandestino.

“João do Pulo” morreu um mês antes de a notícia ser publicada pelo jornal australiano e pela revista Época. Em 1992, quando o Jornal do Brasil fez uma reportagem já suscitando essa desconfiança, João comentou que naquele dia foi a única vez que ele havia chorado por conta de tal injustiça, pois sabia que os seus saltos “queimados” tinham sido perfeitos, e que depois daquilo a vida para ele ficou diferente. Em 1981, teve a perna direita esmagada num acidente automobilístico e amputada meses depois. Ficou contrariado, triste e deprimido. Passou a beber muito e contraiu cirrose hepática. Morreu em 29.05.1999, com 45 anos.    

Dados de pesquisa: Brasileiros Olímpicos (Lédio Carmona, Jorge Luiz Rodrigues e Tiago Petrik)

A medalha para o treinador

A medalha para o treinador

Em Seul/1988, a seleção olímpica de futebol do Brasil teve uma participação quase impecável. Na fase preliminar foi líder do Grupo D ao vencer as três partidas contra a Nigéria (4x0), Austrália (3x0) e Iugoslávia (2x1). Nas quartas-de-final superou a Argentina por 1x0 e na semifinal, um jogo que foi decidido nos pênaltis e que ficou na história com o goleiro Cláudio Taffarel mostrando ao mundo sua frieza e perícia na hora do chute direto da marca da cal. Após o 1x1 no tempo normal, Taffarel pegou os pênaltis de Jansen, Klissmann e Wuttke e o Brasil venceu por 3x2.

Na final contra a União Soviética, o selecionado brasileiro jogou com dois grandes desfalques: Geovani e Ademir. Do meio de campo original só restou o meia-direta Milton, do Coritiba.

O treinador Carlos Alberto Silva decidiu lançar o time com Andrade (Flamengo), como volante e uma escalação com excelente poderio ofensivo: Milton (Coritiba), Neto (Palmeiras), Careca (Cruzeiro), Romário (Vasco) e Bebeto (Flamengo).

O time começou vencendo por 1x0, gol de Romário, mas tomou a virada e os soviéticos levaram a medalha de ouro. O treinador, resignado com a prata, pedia a compreensão do povo brasileiro:

“Sei que para o Brasil pouco importa o tal espírito olímpico. Mas esses atletas fizeram o que puderam”. 

Na hora da premiação, os jogadores fizeram questão de subir no pódio junto com o treinador e descobriram que só havia medalhas para os atletas. Valdo e Ricardo Gomes estavam inscritos, mas não foram a Seul porque o Benfica não os liberou.  Após receber sua medalha, Bebeto chamou o capitão Geovani e disse que, se alguém merecia aquela medalha, era o técnico Carlos Alberto Silva, fazendo um reconhecimento ao trabalho do treinador. 

Dados de pesquisa: Brasileiros Olímpicos (Lédio Carmona, Jorge Luiz Rodrigues e Tiago Petrik)

Pai e filho olímpicos no hipismo

Pai e filho olímpicos no hipismo

O hipismo é esporte nobre e presente nos jogos olímpicos desde a edição de Paris/1900, embora ausente dos jogos de Saint Louis/1904 e Londres/1908 e é um dos únicos esportes olímpicos que envolve animal (o outro é o pentatlo moderno).

O Brasil tem grandes nomes entre os competidores da modalidade, porém, indubitavelmente, a família Pessoa está no topo com os cavaleiros Nelson Pessoa Filho e Rodrigo Pessoa, pai e filho. O primeiro com participação em cinco edições – Melbourne/1956, Tóquio/1964, México/1968, Munique/1972 e Barcelona/1992 -, enquanto Rodrigo, que está em sua sétima olimpíada, esteve em Barcelona/1992, Atlanta/1996, Sidney/2000, Atenas/2004, Pequim/2008, Londres/2012 (quando foi porta-bandeira da delegação brasileira na cerimônia de abertura) e está na equipe brasileira de Tóquio/2020, depois de ter ficado fora da convocação para a Rio/2016.

Se o pai, Nelson, pode dizer que é o único competidor a participar de jogos olímpicos separados por intervalo de trinta e seis anos, o filho, Rodrigo, é detentor de três medalhas olímpicas, sendo uma individual em Atenas/2004 e duas de bronze por equipe em Atlanta/1996 e Sidney/2000.

Nelson, ao ser puxado para o alto do pódio pelo filho em 2004, em toda a sua emoção como pai e cavaleiro olímpico disse exultante:

“Aqui de cima é bonito”!

Dados de Pesquisa: Brasileiros Olímpicos (Lédio Carmona, Jorge Luiz Rodrigues e Tiago Petrik)

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